domingo, 22 de abril de 2018

O ESCURO DAS HORAS


Ardem meus ouvidos
É sinal que meu nome
Está à baila, na boca profunda dos homens puros
Que se ajoelham perante deus
E castigam os filhos e as mulheres
Entre quatro paredes, em silêncio, no escuro das horas
Ardem meus ouvidos
Queima minha garganta
Exala o veneno doce da maledicência
Da maldade reprimida, a doce maldade, ingênua, perigosa, necessária
Que salta num impulso para a realidade de formas, fatos e cores
Vira-se à mentira, dá-lhe as costas
Ignora os olhares em volta
Porque o mal é mais forte, é dono de si
E desconhece a lei dos homens
E abomina a lei de deus
Para a qual jamais se curvou, nem o fará
Ardem meus ouvidos
E cegam os meus olhos
Nesta ofensa sagrada de todas as manhãs, doce, ingênua, perigosa, necessária
Meu nome fede na boca dos homens puros, meus inimigos
De que vale meu nome, se não permanecerá
Que não seja numa lápide, inscrito com letras cuneiformes
Que o tempo, a poeira e o vento, haverão de apagar
Nem meu nome, nem eu, nem minha face, nada ficará
Porque tudo basta e se resume neste ciclo interminável
De começo, meio e fim
E é melhor que assim seja

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