domingo, 29 de abril de 2018

O MAR VEM DEPOIS


O homem vivia nas pedras. E fazia um vento muito forte, cruel e persistente, naquele lugar incerto e desconhecido.
Nas pedras, o homem se banhava do sol e se abrigava da chuva. Era sua rotina.
A noite, que naquele período do ano, parecia longa e interminável para os seus olhos atentos e observadores, trazia um pouco de paz e esperança ao coração daquele homem.
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Não tinha lembranças. Ele as abandonara em algum momento, em algum lugar. Eram pesadas demais para arrastá-las no decorrer dos dias, no vagar das horas, na plenitude da sua existência solitária.
Era magro aquele homem. Cabelos já quase não os tinha. No rosto, cansado e triste, além das marcas impostas pelo tempo e pelas intempéries da natureza, uma barba muito rala, mal formada, indecente de tão feia.
As roupas que vestia eram rotas, puídas, remendadas. O homem andava descalço. Em princípio, queimara os pés, mas depois acostumara a pele ao atrito do chão e às agruras do clima rude, instável, que predominava naquela região. E também seus ossos e sua carne, sua dignidade e paciência, tudo se acostumara com o tempo à brutalidade daquele lugar que não escolhera para viver, mas onde permanecera diante da força impositiva das circunstâncias.
Sabia que depois das pedras havia o mar. Disseram-lhe que por ali passara o enviado. Mas isso agora já não tinha importância para aquele homem. Trinta e três anos, segundo suas contas imprecisas, que estava naquele lugar. No início dos acontecimentos, tivera vontade e esperança de que pudesse ser acolhido. Mas havia ficado para trás. Era sua única certeza. Havia se acostumado àquela vida, se assim podia defini-la e àquele lugar. Pelo menos ali, podia expor seu ódio e seu amor, sem pudor e sem receio. Podia dar forma e cor à sua verdade, pois era a única coisa que de fato importava. Sempre fora. E talvez por isso, havia sido deixado para trás.
Mas que isso lhe importava agora? Havia perdido a confiança nos homens e, o mundo, tal como o conhecera um dia, deixara de lhe interessar, se é que ainda existia o mundo, e que sobrevivera, não sabia, à passagem do enviado.
Por vezes, via de longe, alguns animais ou imaginava vê-los, não tinha plena certeza, vagando como ele, naquela região inóspita, hostil. E, por vezes, apenas os escutava, ao longe. Mas, noutras vezes, ainda, podia jurar que confundia o barulho do vento insano com o de algum animal.
Não. Não fazia diferença. Passava dias sem se alimentar. Que lhe importava tamanho sacrifício? Acostumara-se às dores e aos incômodos, do corpo e da alma. Com o tempo, naturalmente, desenvolvera uma capacidade de abstrair-se do ambiente à sua volta. Sua atenção e seu pensamento, como se ali não estivessem. E podia, por vezes, jurar que passava horas, dias, semanas, nesse estado em que uma sombra parecia encobri-lo completamente. E quando retornava à consciência era como se menos de um minuto houvesse transcorrido. Mas não. Isto, contudo, também não lhe importava absolutamente nada.
Então, certa feita, o dia foi escurecendo com vagar, lentamente, muito mais lentamente que em qualquer outra ocasião. Foi escurecendo o dia, foi perdendo brilho, vida, foi morrendo, aos poucos, o dia, e ele, também.
Mas quando o dia despertou estava no mesmo lugar, de novo, ele não.


VINTE ANOS MENOS


“É o começo do fim” – quando o pai lhe disse isso, estavam na sala, sentados, lado a lado, no velho sofá marrom de corvim, que, por sinal, precisava de uma reforma havia muito tempo. Naqueles idos de 1999, as pessoas ainda se ocupavam de reformar os móveis, tanto quanto possível, antes de abandoná-los definitivamente na calçada, onde ficariam tomando sol e chuva, até que algum carroceiro com alma cristã resolvesse levá-los embora ao custo de alguns trocados.
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Quando o pai, aos 69 anos, lhe dissera aquelas palavras, sua mente divagava nas preocupações diárias de um jovem recém-casado, e, portanto, não dera muita importância ao fato de que o pai estava doente.
O envelope com o exame, que o pai levara na consulta, estava sobre a mesinha de centro da sala, onde havia também um cinzeiro com  alguns tocos de cigarro, um pouco de cinzas e papéis de balas, o que indicava que o irmão mais velho estivera ali na ausência de ambos. E estivera mesmo, porque na pia da cozinha havia um copo de vidro americano, com um restinho de café.
E Lucinha? Onde estivera na ausência de todos? Esta sim, era a pergunta que mais o inquietava. Porque, quanto à doença do pai, a medicina daria um jeito. Ou o destino faria prevalecer a vontade soberana da divindade. O pai era forte. Nem resfriado apanhava. Muito raramente.
Então, o chamado da secretaria da clínica o pegara desprevenido naquelas divagações?
Sr. Heraldo?
A mulher que estava ao seu lado o cutucou com insistência.
Só então ele se deu conta de que chegara a sua vez.
Os exames estavam sobre a mesa do médico que, pensativo, tinha os olhos voltados para eles.
“Pois então, doutor...?”
“Teremos uma batalha a enfrentar, Sr. Heraldo”.
Alguns meses depois, ele estava debruçado na janela do 3º. andar do hospital público onde operara com a garantia de que o procedimento havia sido coroado de êxito. Ah, esses médicos!
Tinha 49 anos, e estava a pensar nisso, quando se dera conta de que uma lufada de vento havia desmanchado a nuvem que até então, encobria a lua cheia, que, aos poucos, foi escapando do alcance dos seus olhos.
Dali sairia para casa e não para o bar, como havia planejado inicialmente.
Além de suas roupas, levaria um calhamaço de receitas, recomendações, solicitações de novos exames, para dali alguns meses, e remédios.
Seria sua rotina, sempre soube que sua vez haveria de chegar. Só não imaginava que seria vinte anos antes do que pretendia. O pai era um forte. Ele não.
E com certa vergonha, teve de admitir isso, enquanto disfarçadamente, mas nem tanto, secava as lágrimas dos olhos.
Foi até o carro que o esperava em frente ao hospital, mas não encontrou ninguém para recebê-lo além do motorista.
Lucinha havia se perdido na vida, o irmão mais velho estava em local não sabido, e o pai, o havia deixado vinte anos antes, sem se despedir.



domingo, 22 de abril de 2018

O ESCURO DAS HORAS


Ardem meus ouvidos
É sinal que meu nome
Está à baila, na boca profunda dos homens puros
Que se ajoelham perante deus
E castigam os filhos e as mulheres
Entre quatro paredes, em silêncio, no escuro das horas
Ardem meus ouvidos
Queima minha garganta
Exala o veneno doce da maledicência
Da maldade reprimida, a doce maldade, ingênua, perigosa, necessária
Que salta num impulso para a realidade de formas, fatos e cores
Vira-se à mentira, dá-lhe as costas
Ignora os olhares em volta
Porque o mal é mais forte, é dono de si
E desconhece a lei dos homens
E abomina a lei de deus
Para a qual jamais se curvou, nem o fará
Ardem meus ouvidos
E cegam os meus olhos
Nesta ofensa sagrada de todas as manhãs, doce, ingênua, perigosa, necessária
Meu nome fede na boca dos homens puros, meus inimigos
De que vale meu nome, se não permanecerá
Que não seja numa lápide, inscrito com letras cuneiformes
Que o tempo, a poeira e o vento, haverão de apagar
Nem meu nome, nem eu, nem minha face, nada ficará
Porque tudo basta e se resume neste ciclo interminável
De começo, meio e fim
E é melhor que assim seja

OLHOS QUE NÃO VEEM


Estou totalmente sem esperança. É assim que Billy Idol, cantor britânico, ídolo da música punk rock nos anos 1980, inicia sua mais conhecida canção. Não sei você, leitor, mas totalmente sem esperança, é como me sinto.
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Imagine-se num trem, em movimento, em alta velocidade, fazendo curvas, rompendo horizontes, deixando sombras no passado, e você vai se desfazendo de tudo o que já não lhe serve, vai atirando sem medo e sem remorso, tudo pela janela, tudo o que lhe incomoda e nada mais lhe representa, o que ocupa espaço em demasia em sua vida e torna os seus dias pesados, lentos, sem graça. Livre-se disto! Abandone-os à própria sorte. Eles tomaram a sua esperança, roubaram o seu tempo e o aprisionaram, confinando a sua vida nesse beco sem saída, dualidades mórbidas: crença ou descrença, certo ou errado, capitalismo ou socialismo, religião ou não.
Todos esses aspectos pertencem a um sistema que, em essência, é perverso, maligno, porque nem você, eu, ninguém, nenhum de nós, nascemos para nos sujeitarmos a esse sistema. Porque nascemos para sermos livres, para nos amarmos e nos ajudarmos, para compartilharmos o que cedo ou tarde deixaremos neste mundo, porque a ele pertence.
Mas desde nosso primeiro choro, sem que tivéssemos direito a escolha, nos aprisionaram nesse sistema sujo, podre, nojento, que nos mantém distantes de nosso destino, descrentes de nossas possibilidades infinitas. E nos ensinaram a competirmos e a nos derrotarmos uns aos outros em vez de nos ajudarmos. E nos ensinaram a possuirmos em vez de compartilharmos. Porque assim, o sistema nos mantêm fracos e sob controle.
Capitalismo e socialismo, ambos traíram a nossa confiança, não merecem o nosso respeito. Cristianismo, islamismo e todos os “ismos”, todos, sem exceção, se perderam na sua essência, na sua melhor intenção, quando saíram das mãos de quem os concebeu com todo amor e foi parar nas mãos dos homens imperfeitos que desconhecem o amor em sua plenitude. Homens egoístas, cheios de orgulho, sedentos de ambição e poder. Mas toda forma de poder, já foi dito, Humberto, é uma forma de morrer por nada.
Triste sina a nossa! Será castigo? Não! Não é. Mas é justamente isso o que nos incutiram em nossas mentes, desde que nos demos por gente: somos culpados, porque somos maus, nascemos em pecado, merecemos sofrer. E nos convenceram dessa ideia absurda, estúpida e retrógrada de que através do sofrimento teremos a recompensa, como se fôssemos obrigados a morrer para viver. Ou seja, nós sofremos, nós morremos e ele celebram o banquete. Tem sido assim ao longo do tempo.
E chegamos a quase duas décadas do século que deveria nos libertar da ignorância e nos trazer esperança. Mas onde a esperança? Onde a liberdade? Se o que vemos é tudo cada vez mais humano e menos espiritual.
Aprisionados estamos nas condições primitivas da animalidade e da materialidade que nos sufoca e nos convence de necessidades que, em verdade, não temos. E nos obriga a assumirmos compromissos, que não nos dizem respeito. E nos iludem com imagens sugestivas, tentadoras, que fixam nossas ideias e nos prendem num labirinto de incertezas e dúvidas do qual não podemos escapar.
Jamais seremos plenamente felizes enquanto nossas metas e preocupações que nos fazem perder o sono e os dias forem tão somente possuir e vencer, porque é essa necessidade que nos mantém presos ao sistema.
Esses sentimentos egoístas, entretanto, não cabem, não tem sintonia, não encontram morada, numa sociedade humana onde impere o amor e o bem prevaleça. Uma sociedade desejada por aqueles heróis que ainda carregam em si um ranço de esperança que lhes permite respirar e sobreviver ao sistema.
O que eu diria à humanidade, Simon? “Vamos, menina, limpa teus olhos, seca tuas lágrimas. Siga em frente”.
Essa coisa de que tudo passa, é poesia. Bonita. Mas é só poesia. Ficam as marcas imorredouras que nos tragam ao nosso menor deslize ou desatenção, para o ambiente cínico das lembranças que nos provocam.
Palavras duras, caro leitor, bem sei, mas oportunas, espero. Portanto, antes que anoiteça e a sombra triste e devastadora que tudo encobre prevaleça, eu lhe sugiro: faça o seu melhor. E se isto significa que você dê as costas para tudo isto, que rejeite este mundo tal como é, e se liberte e siga o seu caminho, o seu, pois então o faça, sem medo. Faça-o agora. Porque daqui a um minuto, nem isso, seu telefone irá tocar e você se esquecerá de tudo isso.
Saiba, que o amanhã há de vir do mesmo modo. Porque o principal problema da vida é o depois.
E quando lhe recomendarem para que conheça a verdade, pergunte: Qual? Se nós, humanos, prisioneiros de um sistema perverso, não sabemos sequer o porquê de tudo isso, isso, o que os poetas, filósofos, e entendidos ousaram chamar de vida.
Vivemos uma mentira? E por que não? Talvez, essa, seja a verdade.
Sim ou não, faça o seu melhor. Faça-o não por uma causa, um ideal, esses são valores subjetivos que servem ao sistema, mas não serve para nós, meu velho. Faça-o por você. E creio que o estará fazendo também por mim, que todos os dias, acordo com esse desejo, essa vontade reprimida, desde muito, muito tempo. Mas que, um dia, inevitável que há de chegar, prometo, tornarei realidade. Desfazer-me de tudo o que já não me serve; o que ocupa espaço demais em minha vida e torna os meus dias pesados, lentos, sem graça. Atirá-los todos pela janela do trem em movimento. Sim, eu o farei.
PS: Quebrei a caneta, caro leitor. Imagine meu estado de ânimo ao terminar estas linhas.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

VITÓRIA


Sabe quando você olha para aquela mulher,
A única que realmente lhe importa,
A mais bonita e atraente para os seus olhos,
Ainda que seja tão somente para os seus
Mas é aquela mulher, aquela, e ela,
Nunca olha, nunca olhará pra você, nunca
Seja você homem ou mulher.
Você ficará sempre no vácuo, à espera, em suspenso
Como a pomba no beiral do telhado mais alto
Vai entender, então, porque o tempo é eternidade
Vai aceitar que isso é a vitória
Vitória é receber vaias, quando se espera aplausos
Vitória é o nome da minha filha, que não veio
Vitória é a felicidade possível dos derrotados
É esperar que o domingo amanheça chuvoso
Quando o sol atravessa o vidro da janela
E estoura em seus olhos à primeira luz do dia
Vitória é sentar-se impaciente sobre a mala
Na plataforma da estação do trem à espera
Que não vem, não virá, o trem
Vitória é ouvir uma voz, ao longe, a chamar-lhe
Pensando ser aquela voz, aquela
Mas a voz não se repete; a esperança, porém, permanece, muda
Porque a esperança é a gentileza burra que a vida nos oferece
Vitória é encontrar no olhar do médico, o desânimo,
Diante do exame, que você lhe entregou
Vitória é o minuto final do jogo, que se perde de goleada
É o dia derradeiro na prisão, longa, sofrida, suada
Vitória é o último suspiro de uma vida de vitórias
É o choro do bebê que desgraçadamente retorna, à esta vida
Vitória é o primeiro papel amassado, que o conduzirá
A um caminho de ilusão, onde tudo se perderá
Honra, tempo, nome, dignidade, decência
Vitória é dar as costas, dizer adeus
Quando a felicidade chama, bate à porta
É juntar-se aos desvalidos, no vale de suplício e lágrimas e dor
Sorrindo
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