O homem
vivia nas pedras. E fazia um vento muito forte, cruel e persistente, naquele
lugar incerto e desconhecido.
Nas pedras,
o homem se banhava do sol e se abrigava da chuva. Era sua rotina.
A noite, que
naquele período do ano, parecia longa e interminável para os seus olhos atentos
e observadores, trazia um pouco de paz e esperança ao coração daquele homem.
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Não tinha
lembranças. Ele as abandonara em algum momento, em algum lugar. Eram pesadas demais
para arrastá-las no decorrer dos dias, no vagar das horas, na plenitude da sua
existência solitária.
Era magro
aquele homem. Cabelos já quase não os tinha. No rosto, cansado e triste, além
das marcas impostas pelo tempo e pelas intempéries da natureza, uma barba muito
rala, mal formada, indecente de tão feia.
As roupas
que vestia eram rotas, puídas, remendadas. O homem andava descalço. Em
princípio, queimara os pés, mas depois acostumara a pele ao atrito do chão e às
agruras do clima rude, instável, que predominava naquela região. E também seus
ossos e sua carne, sua dignidade e paciência, tudo se acostumara com o tempo à
brutalidade daquele lugar que não escolhera para viver, mas onde permanecera
diante da força impositiva das circunstâncias.
Sabia que
depois das pedras havia o mar. Disseram-lhe que por ali passara o enviado. Mas
isso agora já não tinha importância para aquele homem. Trinta e três anos,
segundo suas contas imprecisas, que estava naquele lugar. No início dos
acontecimentos, tivera vontade e esperança de que pudesse ser acolhido. Mas
havia ficado para trás. Era sua única certeza. Havia se acostumado àquela vida,
se assim podia defini-la e àquele lugar. Pelo menos ali, podia expor seu ódio e
seu amor, sem pudor e sem receio. Podia dar forma e cor à sua verdade, pois era
a única coisa que de fato importava. Sempre fora. E talvez por isso, havia sido
deixado para trás.
Mas que isso
lhe importava agora? Havia perdido a confiança nos homens e, o mundo, tal como
o conhecera um dia, deixara de lhe interessar, se é que ainda existia o mundo, e
que sobrevivera, não sabia, à passagem do enviado.
Por vezes,
via de longe, alguns animais ou imaginava vê-los, não tinha plena certeza,
vagando como ele, naquela região inóspita, hostil. E, por vezes, apenas os escutava,
ao longe. Mas, noutras vezes, ainda, podia jurar que confundia o barulho do
vento insano com o de algum animal.
Não. Não
fazia diferença. Passava dias sem se alimentar. Que lhe importava tamanho
sacrifício? Acostumara-se às dores e aos incômodos, do corpo e da alma. Com o
tempo, naturalmente, desenvolvera uma capacidade de abstrair-se do ambiente à
sua volta. Sua atenção e seu pensamento, como se ali não estivessem. E podia,
por vezes, jurar que passava horas, dias, semanas, nesse estado em que uma
sombra parecia encobri-lo completamente. E quando retornava à consciência era
como se menos de um minuto houvesse transcorrido. Mas não. Isto, contudo,
também não lhe importava absolutamente nada.
Então, certa
feita, o dia foi escurecendo com vagar, lentamente, muito mais lentamente que
em qualquer outra ocasião. Foi escurecendo o dia, foi perdendo brilho, vida,
foi morrendo, aos poucos, o dia, e ele, também.
Mas quando o
dia despertou estava no mesmo lugar, de novo, ele não.




