sexta-feira, 16 de novembro de 2018

QUATRO CÃES E UM HOMEM


Quase todos os dias a cena se repete, geralmente pela manhã. A cadela da vizinha (não vá confundir as coisas, caro leitor!) late desesperadamente ao portão. Depois, ouve-se algum barulho nos saquinhos de lixo colocados na calçada, como se alguém os revirasse. Vai diminuindo o latido da cadela enlouquecida, então saio pra fora, movido pela curiosidade.
Batata! Lá vão eles, longe, naquele ritmo cadenciado e rotineiro habitual. O homem à frente, montado em sua bicicleta. A roupa velha, puída, remendada, o boné mal ajeitado sobre a cabeça, quase caindo, deixando escapar sobre as orelhas, algumas mechas de cabelos brancos e desgrenhados.
O homem parece cansado, vai arqueado sobre o guidão da bicicleta, deixando-se levar pela descida que embala a bicicleta tão velha quanto ele, e tão mal arranjada quanto suas roupas. Não pedala. Não precisa. A força misteriosa da vida a serviço dos fracos o conduz.
Atrás, vem os cães, e são quatro. Todos do mesmo tamanho e parecidos. Fazem a escolta daquele homem misterioso, todos os dias, mantendo as posições e um silêncio, poucas vezes rompido pela impaciência, também conhecida como fome. Fome e sede, de alimento e de amor. A natureza é mesmo implacável com os seres que amam.
De onde vem os quatro cães e aquele homem? É pergunto que me faço toda vez que me deparo com eles. Não os conheço senão de vista. Por vezes, fixo o meu olhar naquele homem, a espera que ele retribua a minha iniciativa. Inútil.
Para onde vão eles? Percorrem a cidade nessa calmaria resignada que chega a ser irritante. Quatro cães. Foi o que restou àquele homem após a primeira tempestade, a maior e mais devastadora de todas. Ah, sim! A bicicleta. Sabe-se lá por qual motivo, também ficou pra se juntar à história. Apego-me à essas hipóteses para alimentar a minha curiosidade.
Vai subindo e descendo o homem e seus quatro cães, sempre, percorrendo ruas e avenidas, parando em todas elas, pra buscar nos saquinhos de lixo o seu sustento e o de seus fiéis amigos seguidores. Vez em quando, eu o vejo, parado no portão da vizinha, à espera do auxílio que ela, diferentemente de mim, jamais lhe nega. A vizinha tem boas posses, eu luto com a vida. Não lhe fará falta, à mim, vai. E nisso, encontro justificativa para minha indiferença para com o sofrimento alheio.
É um bom homem, percebe-se. As tempestades da vida, porém, o dobraram. Não se vê nele um fio de esperança, nada. Apenas, resignação. Atravessa os dias percorrendo a cidade, acompanhado de seus cães fiéis e tão resignados quanto ele. Sequer latem. Vez em quando, muito raramente, ao longe.
Há uma cumplicidade que se parece eterna entre o homem e seus cães. Como se não tivessem o que dizer, como se buscassem o fim, no mesmo lugar e do mesmo modo, e jamais o encontrassem. Quatro cães e um homem. Caminham e sofrem juntos. Resistem. Até quando?
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 09/11/2018, à página 2, na minha coluna quinzenal.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

DEPENDE NÓS


Em pouco tempo não haverá mais dinheiro físico, isso significa que milhares de pessoas, que não tem acesso às tecnologias digitais e outras que não dominam o seu uso, serão colocadas à margem da sociedade, estarão absolutamente fora do sistema, o que se constituirá o mais novo genocídio da humanidade.
O mundo é grande para a quantidade de pessoas que nele habitam, mas parece cada vez mais o contrário, porque há muitas pessoas concentradas em poucos espaços, isso torna cada vez maior a competição por moradia, transporte, trabalho, estudo e alimento. E essa luta insana, somada aos maus hábitos, comprometem desnecessariamente a saúde de milhares de pessoas.

Sistemas econômicos, seja capitalismo ou socialismo ou regimes políticos, seja democracia ou ditadura, isso tudo nada mais são do que meios de controle social por parte daqueles poucos que detém 80% da riqueza existente no mundo, ou seja, são, os que, de fato, mandam no mundo. Decidem o que fazer, quando, onde, como e através de quem. E decidem também o que não fazer.
Nenhum homem isoladamente, nenhum partido político, nenhuma religião irá, jamais, resolver os problemas da humanidade, como por exemplo, a fome, a miséria, a intolerância, a desigualdade social, a concentração de riquezas, os privilégios da classe política à custa do abandono e da miséria à qual são relegadas milhares de pessoas sem nenhuma possibilidade de defesa. Problemas esses que, de algum modo, afetam a todos, na medida que são um dos fatores que geram a violência urbana que ceifa vidas e assola a esperança e a oportunidade de muitos.
Esses problemas, apenas serão resolvidos, quando a maioria de nós se conscientizar de sua breve passagem neste mundo, da inutilidade de se viver aqui como se aqui fosse viver para sempre, de que países, estados e até mesmo cidades são falsas demarcações geográficas que nos dividem ao invés de nos unir, de que se nos ajudássemos uns aos outros, cada qual dispondo de seus recursos intelectuais, físicos e morais, ao invés de nos disputarmos entre nós por espaços, posições e coisas, as misérias do mundo seriam bem menores e de mais fácil solução.
Quando, enfim, soubermos nos colocarmos na condição do outro, antes de acusá-lo e agredi-lo, quando nos dispormos a construir ao invés de destruir relacionamentos, de somar ao invés de subtrair benefícios possíveis, de trocarmos ao invés de comprarmos e vendermos, consciências e experiências, respeitando evidentemente o direito de escolha de cada um, quando os governos pararem de amontoar os fracos de caráter, com tendências irresistíveis à maldade, em depósitos de seres humanos e se dispor a educá-los para a vida, para o convívio social, curando-os assim, das suas mazelas do corpo e da alma, quando os que mais possuem dividirem aquilo que talvez jamais utilizarão com aqueles que, de fato, nada possuem, quando trocarmos o olhar de ódio que acirra os nossos ânimos pelo olhar de ternura, aí sim, quando um abraço e um sorriso e o diálogo racional e educado, substituírem um tiro, uma facada, um soco e uma ofensa, poderemos nos chamarmos de irmãos.
Então, você que agora lê estas linhas, já parou pra pensar quem e o que há por trás de um candidato a presidente da república, seja ele o que posa de herói ou o seja ele o pau mandado?
Nem ele e nem o partido político dele, nem o grupo econômico que ele representa e do qual é apenas um empregadinho a cumprir ordens, não irão solucionar os nossos problemas.
Temos visto isso ao longo do tempo, mas estamos fortemente atados à ilusão que nos faz crer e esperar pelo herói libertador, seja qual for, que não virá, jamais.
Tudo o que é necessário fazer para tornar o mundo melhor, cabe a cada um de nós fazermos. E podemos fazer desde que arranquemos de nossos corações o orgulho e o egoísmo.
Perdoe-me arrancá-lo da sua tola ilusão, caro leitor, que um dia, também foi a minha. Mas é necessário. Tenha um ótima sexta-feira, receba o meu abraço.

*Texto publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 26/10/2018, página 2.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

PÁ-BUF!


Há 30 anos atrás, pouco mais pouco menos, também não havia dinheiro pra nada, e as pessoas igualmente se matavam umas às outras e a si mesmas. Tudo era proibido legalmente e, por isso mesmo, tinha valor, poder de atração, e fazia algum sentido. Sonhava-se com coisas impossíveis, alimentava-se esperanças inúteis, tanto quanto agora, mas havia a expectativa do inesperado, do desconhecido, à espreita, pronto para aparecer triunfante e reluzente, a qualquer momento.

Hoje, todos veem tudo e sabem de tudo; tudo às claras, a descoberto, tudo ao alcance de todos, todos ao alcance de tudo e de todos; tudo banal, superficial, descartável, volátil, sem valor, sem graça, sem conteúdo. Nós, inclusive. Por mais que estejamos convencidos do contrário. Basta, entretanto, uma olhada no espelho ou para dentro de nós mesmos. Se é que ainda haveremos de encontrar algo ali dentro.
As novidades surgem, nem se sabe de onde, nem por quem. Ninguém aparece para nos contar como foi. Nem amigo, nem vizinho, nem irmão, nem o cumplice mais próximo das ousadias inconfessáveis da vida. Hoje, as coisas surgem simplesmente, como que do nada, assim, pá-buf. Quando se vê, eis a coisa entre nós, funcionando a pleno vapor, ocupando espaço indevido em nossas vidas sem pedir licença. Tudo muito bem feitinho, atraente, colorido, bem resolvido. As coisas, as pessoas não.
Mas, pra tudo há resposta. Sempre há um acadêmico a postos para elucidar as questões intrínsecas da existência humana. E estabelecer verdades, as dele. Estão na teve, jornais, rádios, internet. E nos poupam dos por quês da vida. Afinal, estamos ocupados em emitir e retransmitir mensagens, geralmente tolas e inúteis. Então, para que, os por quês da vida, se há quem pense por nós. E gostamos disso. Nos sentimos aliviados, livres, leves e soltos.
Contudo, há um céu sobre nossas cabeças, mas parece que já nos esquecemos disso. Há olhares que bem poderiam estar à procura dos nossos, se tivéssemos olhos para eles. Mas não temos, porque nos falta tempo e, a bem da verdade, interesse. Nos satisfazemos com nós mesmos. E isso não é exceção, é regra.
Há 30 anos atrás, eu tinha 19 anos, pouco mais pouco menos, e talvez isso explique, um pouco, o porquê dessas linhas. Detesto o passado, não tolero recordar pessoas, lugares, coisas e acontecimentos. O lugar ideal do passado é um cemitério chamado esquecimento. Não caio na cilada de que ontem era melhor que hoje. Porque não era. O fato é que ontem... ontem significava alguma coisa, um estado de expectativa; havia alguma coisa pela qual sonhar, lutar e, esperar talvez. Hoje, não. Hoje, tudo se repete indefinidamente, conforme um padrão previamente estabelecido pelos gênios da humanidade contemporânea. Já quase não há espaço para o tão agradável fator surpresa. Busca-se reduzir a quase zero os erros e minimizar ao máximo as suas consequências. Mas os erros, se bem compreendidos, são tão excitantes quanto os acertos, e fazem parte do aprendizado, e servem de estímulo, empurrão para que nos atiremos ao passo seguinte da vida e façamos novas descobertas e encontremos novos caminhos. Do modo como tudo está, não é difícil perceber que estamos em uma prisão a céu aberto, cumprindo pena em regime mental fechado. Somos instados a ser do modo como nos determinam e a fazer o que se espera, na verdade se exige, que façamos.
E alguns doidos, entre nós, se imaginam viver em um estado de liberdade plena. Como diria o Claiton: ‘Coitadinhos!’

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CRIANÇA FELIZ


Nada mais bonito que o sorriso de uma criança. Nada mais gratificante que fazer uma criança sorrir. A criança feliz é a plena realização do bem, do amor e da boa vontade. Toda criança merece e precisa ser feliz, ela tem esse direito.

O mundo precisa que seja assim. Porque uma criança feliz, muito provavelmente será um adulto feliz, saberá lidar com as adversidades, tomá-las como oportunidade de aprendizado para o seu progresso humano e espiritual.
Quando se vê um adulto a trilhar o caminho da maldade, é quase certo, que ele não teve uma infância feliz. Algo de muito importante lhe faltou, seja a presença, o amor, o carinho, a proteção dos pais, seja a oportunidade de brincar, estudar, conhecer e aprender o que é bom.
Onde o bem se ausenta o mal se instala. A sociedade humana, capaz de tanto progresso intelectual já deveria ter tomado ciência disso. Leis existem para proteger as crianças. Mas é preciso praticá-las com toda a efetividade.
Estimuladas precocemente às práticas adultas, algumas perniciosas, a criança é inserida em situações com as quais não saberá lidar, como, por exemplo, a pornografia, e os efeitos nefastos e devastadores à sua personalidade se manifestarão já na juventude.
É muito triste ver crianças empunhando armas, roubando, matando, vendendo drogas. A essas crianças, via de regra, faltou o amor, o carinho, a proteção dos pais e da sociedade que faz vistas grossas e dos governantes, que empurram o problema com a barriga. A felicidade para uma criança é ter família, é ser bem alimentada, bem vestida, é frequentar boas escolas, é poder brincar e sorrir.
Que os governos sejam relapsos, que as autoridades sejam omissas, é compreensível embora não seja tolerável, mas tudo isso faz parte do mundo de provas e reparações onde vivemos. O que não pode é que pais e mães não reconheçam a importância fundamental deles próprios na vida daqueles seres humanos, ainda pequenos, frágeis e indefesos e necessitados de cuidados os mais diversos, que acolheram como filhos.
A mãe que deixa o filho sozinho em casa pra se divertir com as amigas, nos finais de semana à noite, fique ciente que ela está perdendo o amor de seu filho pelo qual, um dia irá implorar de joelhos. O pai que surra, muitas vezes sem motivo, que não dá a devida atenção, que não encontra tempo para se dedicar àquele pequeno ser tão carente, que nele procura encontrar uma referência segura na vida, fique sabendo que está perdendo a oportunidade única de dar e receber amor.
Um dia, quando verem seus filhos, já adultos e crescidos, matarem, roubarem, traírem, corromperem, traficarem drogas e armas, esses pais e essas mães se arrependerão. Mas talvez seja tarde. E terão de conviver com o remorso e o arrependimento.
Toda criança precisa de amor, cuidado, atenção e educação. Enquanto a sociedade humana não entender isso e não estabelecer isso como prioridade, estará enxugando gelo na sua vã tentativa por uma sociedade mais digna, mais justa e mais feliz.
A criança que conhece o amor hoje saberá compartilhá-lo amanhã. E o amor é o remédio e a solução mais eficaz para todos os males da vida.
*Texto publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 12/10/2018, à pág. 2.


sábado, 29 de setembro de 2018

PARA GOSTAR DE LER


Seis e quarenta e sete da manhã. Banho tomado, barba feita, a xícara de café ao alcance da mão, e a postos, diante do computador para escrever este artigo. Nada disso. É de cueca, sem camisa, cara amarrotada de sono, bocejando ainda, resquícios da noite mal dormida, e a famigerada e necessária dose de 500 mg de metiformina de toda manhã, e lá vamos nós, amável leitor tentar entretê-lo, a partir de agora, a perder 5 minutinhos do seu precioso tempo com uma agradável leitura, assim espero, bom dia.
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São 3 mil caracteres, insano e audacioso articulista não se esqueça disso. Bem, já vou dizendo Dona Vivian. A leitura, é hábito que se adquire com um mínimo de boa vontade e alguma persistência. É um hábito que, depois de adquirido, será melhor apreciado por nós e nos proporcionará prazer. Como começar? Fácil. Comece com textos que tenham as seguintes características: frases curtas, parágrafos breves. Nada de períodos longos que irão cansá-lo, provavelmente. Poesia é uma boa alternativa. Contos, também. Crônicas de jornal, idem. Se você não tem livros em casa, recorra às bibliotecas públicas e se oriente com as moças dedicadas e educadas que lá se encontram para atendê-lo. Uma dica eu lhe dou se você ainda não tem o prazeroso hábito da leitura. Não vá se aventurar com um dos ótimos livros do José Saramago, porque eles irão cansá-lo, desmotiva-lo e fazê-lo desistir, porque tem períodos muito longos. Beckett também é difícil para iniciantes, que, talvez, atravessem o livro, caso consigam, sem entenderem, qual a intenção do autor. Aconteceu comigo. Kkkk.
Bom, mas a leitura nos permite adquirir conhecimento e distrair a mente. Ela nos proporciona uma viagem para uma outra dimensão da vida, nos permite conhecer e entender melhor os diversos comportamentos humanos. E nos dá a chance de conhecermos muitas histórias. Afinal, quem não gosta de bisbilhotar ao menos um pouquinho a vida alheia. Se você gosta, eu lhe indico os romances do Machado de Assis. Sacou? Em tempos como o nosso, corridos e meio malucos, onde falta muitas vezes o sentido óbvio das coisas que nos dá segurança para saber para onde estamos indo e porque estamos indo, é muito bom poder se refugiar por alguns minutinhos com um livro em mãos, e ocupar o ócio de modo mais prazeroso e inteligente do que ficar, por exemplo, enviando e recebendo os whatsapp’s da vida, sendo que entre 10, 9 deles não serve para nada.
Imagine, aos finais de semana, sentar no banco de uma praça, à sombra de uma árvore e dedicar o tempo à uma gostosa leitura. Se a vida é corrida, se não há dinheiro para comprar livro ou tempo para procurar por ele, em meio a tanta tranqueira desnecessária, que a gente, por apego inútil que se dá às coisas materiais sem importância, vai acumulando em casa, lembre-se, futuro leitor de romances de cavalaria, que os livros hoje estão disponíveis na internet e até no celular. Livro, quando bom, é um amigo para todas as horas. Inclusive as mais desagradáveis. Minha amiga Rosana, professora do ensino fundamental, costuma ter um livro no seu automóvel, ao qual recorre, quando está parada no trânsito caótico de Rio Claro, ou enquanto espera pelos filhos e pelo marido voltarem do dentista, barbeiro, padaria e por aí vai. Eu comecei a ler muito tarde, confesso. Foi depois de minha separação conjugal, da qual, restaram eu, um sofá, o Tomba e alguns livros, que eram de meu pai. Aí, certa noite, lembrei que minha mãe, detentora apenas de um quarto ano primário, era ávida leitora daquela coleção de capa dura, vermelha, lançada, em meados dos anos 1970, pela editora Abril. Minha nossa! Lá fui eu aventurar-me, todas as noites à fascinante experiência que aqueles livros me proporcionaram. Antes, eu subia até a praça pra comprar um cachorro quente, que dividia com o Tomba, naquela proporção nada amigável de 3 pedaços generosos para ele e 1 para mim. Os jornais, também são uma ótima opção de leitura. Nem todos, é verdade. O Diário, sim. E agora, você leitor pode recebê-lo gratuitamente e na comodidade que o seu celular lhe oferece. Basta baixar o aplicativo. Ainda não o fez? Está perdendo tempo. Faça-o agora, mesmo! Daí, então, olha só que legal, você saberá, entre outras coisas, muito interessantes, onde estão o creme de la creme de la creme de la nata (ou coisa qualquer que o valha) dos botecos da cidade, na coluna do Odair Favari, aos domingos, e a cada 15 dias, às sextas-feiras, um artigo como este, deste seu amiguinho, assim espero. Valeu? Por hoje é só. Ah, leia! Tente, pratique, adquira o hábito. Insista. Vale a pena. Porque se você atravessou essas linhas, de boa, tá no caminho certo, meu caro. Pode crer! Fui...
*Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 28/9/2018, à página 2, na minha coluna quinzenal, às sextas-feiras, sob o título “O Prazer da Leitura”.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

VIVER É MELHOR!


Em matéria publicada no último dia 11, à pág. 18, na coluna Saúde & Bem Estar, aqui, no jornal Diário, ficamos sabendo que, no mundo, a cada 40 segundos, há um suicídio, e que, no Brasil, a cada 45 minutos, um suicídio é registrado.
Não bastasse a dimensão da tragédia, ela ganha contornos ainda mais estarrecedores quando se sabe que a cada 3 segundos, uma tentativa de suicídio ocorre em alguma parte do mundo.
Mas não para por aí. Entre as principais causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos, e ainda, em crianças e adolescentes, está o suicídio. Os números são alarmantes e chamam a atenção para o assunto ainda tabu em nossa sociedade.

Quais as causas para o suicídio? Uma delas, é a dificuldade em aceitar e lidar com as derrotas, comuns a todos nós, considerando o mundo em que vivemos onde a competição entre uns e outros é marca registrada. A outra, é a saciedade, quando não se encontra mais estímulo para lutar por um objetivo, porque se acredita já ter vivido e conquistado tudo o que era possível e desejável. Uma terceira causa, é não saber lidar com uma situação aparentemente irreversível, a doença, por exemplo, quando apresenta essa característica.
Mas em todas essas causas, o que se observa é a renúncia a um direito sagrado de todo ser humano: o de lutar; lutar por um ideal, um sonho que o motive a viver intensamente cada dia de sua existência.
Há pessoas que também se consideram menores do que o desafio que a vida lhes apresenta. O que não é verdade. Porque nós humanos, sobrevivemos ao longo do tempo, justamente devido nossa capacidade de nos adaptarmos às circunstâncias as mais adversas.
Portanto, evitemos a solidão, porque ela alimenta o pessimismo. Busquemos o contato com a natureza. O prazer que nos proporciona a boa música, a leitura edificante. Recorramos ao diálogo amigo, fraterno que encontramos nas pessoas preparadas e dispostas a ouvir e ajudar o semelhante.
A vida não merece ser desprezada, porque ela tem a capacidade de nos surpreender a cada instante, o que significa que, para muitos problemas que se parecem insuperáveis, a solução pode vir a qualquer momento e por meios inesperados.
Não busquemos nos outros, e nas coisas efêmeras, transitórias e superficiais a nossa felicidade. Quando o fazemos, abdicamos do nosso direito de sermos felizes. A felicidade almejada está em nós mesmos. É como uma flor que precisa desabrochar, e quando o fazemos, revelamos a nós e ao mundo, o seu perfume indescritível.
O tamanho da dificuldade varia conforme o modo como a encaramos. E quando a encaramos com otimismo, fé e esperança, despertamos em nós, potencialidades que sequer imaginamos possam existir.
Somos seres perfectíveis, filhos da Perfeição. Fortes o bastante para lidarmos com todas as situações que a vida nos apresenta, porque em todas essas situações, está uma oportunidade para o nosso aprendizado, moral e intelectual, que nos conduzirá a um patamar mais elevado da vida, não apenas humana, que é transitória, mas, sobretudo, espiritual, que é eterna.
* Artigo publicado na edição de 08/09/2018, à página 2, no Jornal Diário do Rio Claro.
Entrevista que concedi para a Coluna REC, assinada pela jornalista Vivian Guilherme Favari, e publicada aos domingos, no Caderno Sunday, do Jornal Diário do Rio Claro.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LIVROS, CAFÉ e CIGARROS


Escrever sobre amenidades é algo que me fascina e me estimula a não abandonar o lápis e o papel. Confidência: tudo começa com a primeira frase, a mais verdadeira possível, e depois, o texto nasce, aos poucos, no papel, manuscrito, à lápis. Só então, depois de revisado e corrigido umas mil vezes, mil e uma, pra ser mais exato, chega ao computador. Esse texto, que você está lendo agora, estimado leitor, surgiu assim.
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Contudo, a ideia agora me falta. E esse é um problema a ser vencido. Há um prazo para ser cumprido, um padrão a ser observado. Não se trata de excesso de preciosismo da dona editora, mas de atendimento à necessidade de produzir um jornal que seja agradável no seu aspecto visual e prazeroso na sua leitura. É o compromisso com o leitor. Anda meio esquecido, tantas são atualmente as mídias através das quais a notícia e a informação chegam a quem se destina: Você.
Mas é preciso buscar a ideia que dará forma e conteúdo ao texto que aqui se pretende escrever. Mesmo que para isso, seja necessário arrancá-la das entranhas do inconsciente, onde ficam registradas todas as informações e experiências por nós vivenciadas ao longo do tempo.
Há um truque, do qual sempre recorro para suplantar o famigerado bloqueio criativo, que é: “Observe pessoas e coisas e acontecimentos como são e tente imaginá-los como poderiam ter sido. Inverta a ordem, contrarie a natureza, desarticule o estabelecido, reinvente. Funciona na ficção, um pouco no discurso opinativo, e outro tanto para a vida. Vai por mim.
Bom, já consumi quase toda a quantidade de caracteres que me é permitido ocupar nesse precioso espaço que é a página 2 deste jornal. Sinal de alerta ligado. Reconheço que até agora não cheguei ao cerne da questão, o leitor saberá, daqui a pouco, que isso exatamente não vem ao caso. Espero conduzi-lo com interesse até a última linha desse texto. Vamos ver se consigo.
Como eu ia dizendo, a previsão do tempo para essa sexta-feira indica nuvens intermitentes, temperaturas oscilando entre 17 e 28 graus, e 5% de probabilidades de chuva. Nada mal para um inverno que chega ao fim, sem de fato, ter dado as caras.
Hoje é sexta-feira, my brother, pega leve, que a festa está só começando e o melhor está por vir. Divirta-se com responsabilidade. Eu, por exemplo, vou me debruçar à leitura de “O Estrangeiro” do finado Camus. Vou tomar um café, aos poucos, bem devagar, enquanto me deixo levar pelas aventuras do misterioso Meursault, tentando entender as suas razões para ter matado um homem e não ter derramado uma lágrima sequer no velório da sua saudosa mamãe. Sujeito esquisito esse Mersault.
Ah, os cigarros! Talvez, a essa altura da leitura você deve estar se perguntando sobre eles. Pois bem, os cigarros. Essa é uma tentação que continuo tendo de vencer, todo santo dia. E hoje é apenas mais um. Por sinal, antes que eu me esqueça: Bom dia, leitor!
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 31/8/2018, à pág. 2.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

ACORDA, POVO!


Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos... Assim Beto Guedes inicia a mais linda e talvez mais conhecida de suas canções. Um hino que conclama a paz e ao amor, virtudes que todos nós, deveríamos buscar, não fossemos tão egoístas e orgulhosos.
Quando entrar setembro, daqui a dois dias, iniciará o mês da campanha eleitoral. Serão vários cargos em disputa, o mais importante, o de presidente da república.
Observa-se o rol de candidatos e percebe-se que a tão sonhada boa nova está ainda muito longe de andar nesses campos.
Sempre as mesmas promessas e os mesmos discursos, aqueles que o eleitor menos atento, menos interessado, aprecia ouvir. Promessas e discursos esquecidos, sepultados na gaveta, já no dia seguinte ao da eleição.
Há um discurso para obter o poder, e outro para manter-se nele. E para nós, eleitores, há uma forma de viver e morrer por nada, que é acreditar nas boas intenções da classe política brasileira.
Não sei o leitor, mas eu não me iludo. Não me deixo mais me levar por promessas, discursos e falsas aparências. Fujo disso. Eles são todos iguais, os candidatos. Alguns, até disfarçam muito bem.
Mas pense você leitor, o que está por trás de um candidato. Quais interesses de quem os apoia com recursos financeiros? A quem o candidato teve de pedir benção e beijar a mão para chegar na condição de candidato?
Então, o candidato não surge da vontade do povo. Mas da vontade daqueles que se servem do povo. Não pode haver democracia plena num sistema perverso como esse. Escolhemos, nós, eleitores, os previamente escolhidos, por aqueles que, de fato, mandam ou aspiram mandar.
As pessoas mais esclarecidas, mais interessadas em conhecer e entender como funciona o sistema que oprime o povo, que ridiculariza a liberdade e o direito do povo para escolher seus representantes, perderam a ilusão de que um homem, o candidato, eleito pelo povo, poderá redimi-lo de suas mazelas e suas desgraças. Não pode. Nunca pode. Ainda que durante muito tempo, acreditou-se nisso.
As pesquisas de intenção de voto, até o momento, caso, de fato, reflitam a realidade, o que duvido, apontam o favoritismo de um condenado cumprindo pena, por corrupção e lavagem de dinheiro, e um doido varrido radical que sugere resolver todos os problemas do país na base da brutalidade. Os demais candidatos, dispenso comentários. E acho que o leitor, também.
Enfim, esse é o sistema, e enquanto prevalecer, nada irá mudar, não importa quem vença a eleição.
A questão não é escolher um candidato para votar para presidente da república. A questão é: até quando, nós, a classe trabalhadora, os empresários, os agricultores, os comerciantes, os educadores que produzimos a riqueza desse país de dimensão continental chamado Brasil iremos permitir que essa riqueza seja utilizada para manter os privilégios da classe política, a qual se mantém absolutamente em dissonância com as necessidades e anseios do povo brasileiro.

sábado, 25 de agosto de 2018

O SENHOR MENTIRA


Noite adentro, leio uma resenha literária sobre um autor negro, no jornal que a vizinha costuma desovar no corredor que me leva ao quarto pequeno, imundo e bagunçado da pensão miserável onde moro. Ela tem 80 anos, a vizinha, senão mais, e, diferentemente de mim, consegue sabe-se lá como, abaixar-se sem sentir dor, para realizar seu ato de caridade para comigo, que é todas as segundas-feiras, doar-me o jornal que ela e família, consome avidamente. E, por família, entenda-se, a irmã que mora ao lado, os netos, que aparecem vez em quando e o irmão; não sei se mais velho ou mais novo, mas, tão capenga quanto ela, o qual, toda segunda-feira, é bom destacar isso, vem depois das 9 pra tomar, acredito eu, uma xícara ou duas de café passado na hora. E talvez, quem sabe, biscoitinhos de maisena também, e, salvo engano, ele aproveite para perder gostosamente preciosos cinco minutos de sua laboriosa rotina diária de funcionário público aposentado, que consiste na difícil, e, por vezes, impossível tarefa, de solucionar as palavras cruzadas publicadas no jornal, que depois será lido por mim, não todo, mas a parte que me interessa.
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É o que faço nesse exato momento, recém-chegado de São Paulo, onde eu fora acompanhar o meu mano, à primeira de suas visitas ao simpático Dr. Teng, um cobrão, segundo dizem, na especialidade de membros superiores, isto no livro de Ciências da escola, se me não engano, queria dizer mãos.
E na contra capa do caderno de cultura do jornal que leio, encontro a matéria de página inteira de outro autor lançado na inglória aventura literária, aos 46 anos, e, confesso, não consigo conter o riso. Coitadinho! – como exclamaria meu amigo o Prof. Clayton – logo irá se juntar aos outros infectos sepultados no cemitério das esperanças perdidas. Será o seu destino. Inevitavelmente. Será sim. Por melhor seja o reles escriba.
Isto me fez lembrar uma passagem que vivi dia desses, em frente à estação ferroviária, onde param os ônibus, e não se assuste o leitor menos avisado, porque estamos falando de um acontecimento ocorrido em Rio Claro, onde, de fato, geralmente, o surreal se torna realidade, sobretudo ao que se refere à vida política da cidade e às obras públicas.
A Estação Ferroviária inaugurada em 1876, com a chegada da ferrovia, que serve atualmente para acolher os despojos dos vagões e máquinas abandonadas, e para embarque e desembarque de passageiros de ônibus que circulam no perímetro urbano da cidade. As observações se fazem oportunas.
Era um domingo à tarde e eu caminhava pela plataforma, cabisbaixo, envolvido por aquele modorrento clima de “Deus me tire logo daqui!”, tão comum à minha sensível esperança, nas tardes de domingo, em cidades pequenas e desinteressantes do interior como Rio Claro.
Então, em dado momento, disse-me um homenzinho, arrancando-me do meu torpor.
“Tem um cigarro para me dar, por favor?”
O homem estava num dos muitos bancos que existem por toda a extensão da longa plataforma. Ajeitei os meus óculos que caía sobre o nariz, então respondi:
“Lamento. Não fumo.”
“O que você lamenta? – ele retrucou ofendido – O fato de eu não fumar ou de você não ter um cigarro para me dar?”.
Fiquei sem resposta e olhando pasmo na direção dele. O dia não tinha sido nada fácil. Problemas no trabalho, contas atrasadas e falta de dinheiro. Não bastasse, e tinha agora que lidar com a ignorância de um senhor que talvez não encontrasse nada melhor a fazer do que importunar a vida dos outros.
Então, o homenzinho soltou uma sonora gargalhada, momento em que pude ver sua dentição um tanto estragada.
Ele tinha um olhar cansado, barba por fazer e cabelos brancos, alguns. Suas orelhas eram grandes tanto quanto seu nariz, por sinal, muito avermelhado. E as suas mãos, pude perceber, quando ele as tirou do bolso, demonstravam impiedosamente as marcas do tempo e dos anos ininterruptos da lida pesada.
Esperei mais um pouco lhe dando tempo para justificar a gostosa risada, o que não fez.
Resolvi então, tomar o meu rumo, dando nosso assunto por encerrado. Mas logo descobri que ele não pensava assim. Eu já dava o terceiro passo em direção ao ponto onde tomaria o ônibus que me levaria para casa, quando novamente, ele voltou a me surpreender, arrancando-me do silêncio da minha solidão.
“Não vai se despedir de um pobre velho enjeitado, meu camarada?”
Constrangido um tanto, lhe pedi desculpas e voltei a caminhar, cabisbaixo, como de costume, mas não por muito tempo.
“Eu escrevi durante muitos anos, sabe, nessa espelunca de jornal onde você publica suas colunas, às sextas-feiras, a cada quinze dias” – ele disse.
“Parece que deixou de fazê-lo já faz algum tempo?” – indaguei, lembrando-me do estado de suas mãos, que havia observado há pouco.
Esperei por uma resposta, e ela veio na forma de um pedaço de jornal, dobrado, que ele, com alguma dificuldade, pois suas mãos tremiam, tirara do bolso do paletó surrado que vestia.
“Não se espante – se o estado das minhas mãos não combina com as de um escritor. Saiba que antes de fazer fortuna com seus romances policiais, Edgar Wallace trabalhou como tipógrafo, jornaleiro, entregador de leite e enfermeiro. E segundo Penélope, sua filha, arriscou-se até na construção civil”.
“E ele era o quê?” – indaguei, como que expondo-lhe a armadilha, na qual pretendia apanhá-lo com minha resposta.
“Como assim?”
“A nacionalidade dele, qual era, ora?”
“Wallace era americano, evidentemente”.
“Pois então, está explicado. Ele, americano, você brasileiro”.
“Você também”.
“Pois sim. E esse deve ser o motivo, que me faz sobreviver aos 30 anos, ganhando uns míseros trocados como revisor na espelunca de jornal, segundo sua opinião, onde escrevo”.
“Não pretende ler a minha melhor coluna? Eu a publicava, uma vez por semana, no mesmo espaço que você ocupa atualmente”.
“Prometo que o farei algum dia”.
“Algum dia e talvez você não me encontre mais aqui”.
“É possível, admito, mas agora tenho de pegar o meu ônibus que acaba de encostar”.
“A minha melhor coluna também foi a última”.
Fiquei a olhá-lo curioso, esperando que revelasse o motivo. Mas não o fez.
“Lamento”.
“Quem deve ter se lamentado, imagino, foram meus leitores, que ficaram órfãos do melhor cronista desta cidade”.
“Creio que sim”.
“Sabe, eu os tinha em grande quantidade, os meus leitores”.
“Que maravilha, meus parabéns”.
“Eles enviavam cartas à redação, elogiando-me”.
“Você deveria se sentir muito orgulhoso, certamente?”
“Pois sim. Mas isso nunca foi motivo para que me dessem um aumento”.
“Talvez o jornal não atravessasse uma fase financeira muito boa naquele tempo”.
“Que nada! É que eles realmente não sabem reconhecer o valor de um bom cronista”.
Olhei para trás e, preocupado, observei que os passageiros já subiam para o ônibus que eu iria tomar.
“Não sei o que dizer. Sinceramente”. – admiti.
“Já fui um bom escritor. Escrevi artigos de opinião, crônicas, resenhas literárias, reportagens, contos, peças de teatro, roteiros para cinema, tevê e propaganda. Arrisquei até alguns poemas sentimentais e romances. Experimentei todas as linguagens com as quais se podem expressar a vida com palavras. Mas isso não lhe significa nada, não é mesmo?”
E antes que eu lhe perguntasse por que motivo haveria de significar, ele se adiantou:
“Deveria. Pois você irá terminar como eu. Talvez, sentado nesse mesmo banco”.
“Daqui a quantos anos?”
“Muitos anos” – ele disse, em meio um sorriso jocoso.
“Nada mal. Até lá, quem sabe, Deus mude de ideia”.
“Se ele se lembrar de você”.
“E por que não lembraria? Afinal, nunca se esquece de mim quando o assunto em questão se refere às desgraças da vida”.
“Vê-se que não, realmente”.
E nessa sua frase havia um viés de maldade que resolvi ignorar.
“Problemas?” – então, eu disse.
“O maior de todos. O que mais humilha um homem”.
Novamente nos olhamos diretamente nos olhos. E, para o meu desespero, percebi pelo barulho, que o ônibus que eu tomaria já se colocava em movimento. Pensei correr para alcança-lo. Mas fui impedido, não por minha benevolência, mas por minha curiosidade. Vendo que eu não tomaria a dianteira no nosso despretensioso diálogo, ele prosseguiu:
“Silêncio, meu camarada. Eis o problema” – disse, quando imaginei que fosse dizer que o seu maior problema era o bendito dinheiro ou a falta dele.
“Silêncio...” – ele repetiu, deixando em suspenso a conclusão da frase.
Fiquei a olhá-lo, um tanto decepcionado, porque imaginava que ele pudesse me revelar algum segredo, alguma situação, um fato extraordinário que eu pudesse aproveitar numa futura crônica, quem sabe.
“Silêncio. E solidão”.
Muito bem. Estava montado o cenário da tragédia. Eu tinha diante de mim um senhor de idade, desempregado, talvez doente e solitário, preso, porém, ao seu talento irresistível de escritor e ao seu desânimo; sua triste realidade que sabia não ter meios nem forças para mudá-la àquela altura da vida.
“Como se chama?” – resolvi perguntar.
Confesso que naquele momento, não encontrei nada melhor que pudesse lhe dizer.
“Não importa”.
“Mas deve ter um nome”.
“Certamente” – ele disse isso, com profunda tristeza e, abaixando a cabeça; respirou fundo, ainda com os olhos voltados para o chão, então concluiu:
“Senhor Mentira” – chame-me assim – Afinal, que outra coisa, nós escritores, fazemos de melhor senão isso: mentir.
“Prazer – disse-lhe, estendendo-lhe minha mão – Sou o Senhor Dissimulado. Uma versão, digamos, mais atualizada, do Senhor Mentira”.
Então, pela primeira vez, ele sorriu, disfarçadamente.
“Talvez possamos tomar um café no bar logo ali – sugeri – Tenho ainda alguns minutos até que o ônibus retorne à Estação”.
Já instalados no bar, ofereci-lhe que comesse um pastel, mas ele recusou.
“Tem certeza? Não está com fome?”
“Se eu estivesse, eu lhe diria, esteja certo”.
“E por que deveria acreditar em suas palavras, Senhor Mentira?”.
“Porque elas saíram de minha boca e não de minhas mãos”.
Ele riu novamente. E eu também.
“Você é um bom menino” – ele disse, saboreando seu café.
“Gostaria de ter escutado isso quando eu tinha 12 anos”.
“No meu tempo e no seu, ainda, era muito difícil escutar um elogio, quando se tinha 12 anos. Mas hoje é tudo diferente. As pessoas são elogiadas mesmo sem merecer.”
“São os tempos”.
“Malditos tempos. E glória a Deus, que minha estadia está chegando ao fim. E a sua, lamento, está apenas começando”.
“Não pretendo continuar por muito tempo, a escrever colunas para o jornal”.
“E o que pretende?”
“Tornar-me de fato um escritor”.
“Desde quando não renova o seu exame de sanidade mental?”
Não respondi.
“Mas eu respondo: Se pretende isso pra sua vida, deveria ter nascido noutro país, menos esse”.
“E o que me diz da nossa cidade?”
“Inspiradora. Mas, como você já deve saber a inspiração não se mede; não se pesa e não se conta. Portanto, não tem valor. Nenhum”.
Não ousei encará-lo. Preferi saborear o café, aguardando por mim, sobre a mesa, antes que esfriasse.
“Você perdeu – ele disse, trazendo-me à realidade – Admita. Seu tempo passou. Você tentou. Fez o seu melhor. Mas nada conseguiu. Console-se, meu camarada, como você existe milhares de outros. E já existiram outros tantos milhares. E você está vendo um diante de si, nesse exato instante. Agora, seja bonzinho, e me pague um pastel. Porque a Senhora Fome, essa dama cruel, acaba de chegar fazendo escândalo”.
Então, enquanto comia um, dois, três pastéis, ele me contou sua história, e exigiu que eu a registrasse, toda ela, no meu caderninho de notas, que, por uma sorte, trazia comigo.
Terminamos a noite, bêbados e abraçados, naquele mesmo banco da estação, onde nos conhecêramos. Ao amanhecer, vi ainda sonolento, as primeiras luzes do dia, alcançarem o asfalto molhado da rua, onde as pombas ciscavam, na esperança de encontrar algumas migalhas, talvez um resto de pastel, com a qual pudessem matar a sua fome. Longe, o gari, com uniforme laranja e seu carrinho barulhento, varria o meio fio da calçada. Os primeiros ônibus não demorariam a chegar da garagem. Aos poucos, a cidade de Rio Claro, ia ganhando os ares de normalidade das segundas-feiras. Algumas pessoas indo de bicicleta para o trabalho, outras de moto, e outras a pé. Escutava-se uma conversa aqui, outra ali, nada importante. Não havia jornais da cidade. Eles não circulavam às segundas-feiras. Coisa chic, de cidade do interior. Algumas.
Não lembro exatamente o que fiz daquelas anotações, nas quais o Senhor Mentira me contara com grande entusiasmo a sua história, durante toda a noite que passáramos juntos, conversando, bebendo e fumando. A propósito, ele se foi naquela manhã, sem se despedir. Nem mesmo um olhar. Porque, como bom escritor, que presumo fosse ele julgou que a página da vida que lhe rendera a nossa rápida convivência, não saíra lá muito boa, então resolvera desprezá-la, sem nenhum receio, e nenhum pudor. Nenhum remorso. Porque assim fazem os bons escritores, descartam tudo o que lhes não presta. Palavras e pessoas.
Fui menos audacioso que ele, mais comedido, e guardei ao menos essas lembranças, nada sobre sua intimidade, sua vida, nada. Apenas algumas lembranças de nossa despretensiosa e agradável convivência, das quais agora se ocupa essa crônica.