sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ATÉ QUE SEJAMOS NÓS...



...A desaparecermos abaixo do cimento frio, a parede trincada do reboco fresco. A porta do túmulo que não fecha e aberta permanece, dia e noite. Manet, Degas, quem pintou o homem Lucien, deitado no divã; esparramado, cofiando o bigode, olhando de lado, ignorando a mulher comportada que se retira.
Pela manhã, os pés se arrastavam no asfalto molhado, obedecendo a cadência imposta pelos mais velhos; eles, ainda sobreviventes, esquecidos pela certeza iminente e libertadora, a megera dama insensível que vem, chega e domina. E leva.
Falaram sobre aquele que se foi – dizem que dormindo; não creio – e ele, quieto, olhos fechados, nem se mexeu.
Reprodução
Howl, Mr. Allen; vocifere seus insultos!
Que falta faz a sinceridade dos impuros.
Resta ler o caderno de cultura do jornal da vizinha, apanhado no corredor, a cada final de tarde.
Discordar, ceder, concordar, indispor, reter...
... Maquinações, exercícios de lucidez, para que ela não se perca, permaneça, porque uma vez ausente, senhora, e fará muita falta.
O mundo lá fora não admite os que extrapolam em sua conduta, expõem suas vísceras.
Nunca se leu tanto neste país. Sim! Ufanem-se! Leem-se mensagens de celular.
Onde chegará você? Ele?... Os demais... E todos os outros... Onde? Não, não acredite nisso. Os dias não eram assim. Que importa? Basta que seja o fim... que se aproxima.
Cai a cerração, uma nova manhã inicia. Vento gelado. Conhece esses dias? São eles que trazem as cenas já vistas incontáveis vezes. Choro contido, olhares perdidos, palavras vãs, preces pagãs, às escondidas.
Antes era pior, mais difícil. Havia mais gente. Mais lágrimas. Mais dor. Tudo era mais evidente, maior, contundente. Mostre os dentes, sorria. Sei o quanto é difícil num momento como esse, quando todos esperam o seu pranto, seu desespero, seu silêncio, rompido por uma lembrança repentina, que o convida a sentir-se e demonstrar-se feliz. Mas não é possível. Não há mais como esconder-se atrás de alguém, maior e mais forte.
Há poucas pessoas, o corredor está desimpedido, a sala quase desocupada. Flores, velas, não há.
Nos bancos, nos cantos, esse, aquele, aquele outro, os quais você não conhece, não sabe quem são. Embora, por vezes, eles o observam curiosos na expectativa de que você demonstre o que de fato, nesse instante, você sente. Achariam muito natural, até bonito, qualquer manifestação sua que não fugisse ao protocolo. Mas, não você. E eles sabem disso, ainda que prefiram ignorar, imaginar, pensar o contrário.
... Seja honesto, não tripudie. Você se vê fazendo isso? Dormir naquela gaveta de cimento, naquele túmulo aberto, sujo, fedido. Dormir ali dentro, no claro, quase totalmente claro, e no escuro. Dormir... para sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário