Faz parte sentir frio? Não
sei até hoje. Mas acontece todo mês de Julho. Todo mês de Julho acontece um
amor. Vem para substituir outro. Amores são como livros, é preciso que outro
ocupe logo o vazio deixado. E traga de novo as mesmas alegrias, as mesmas
dores, os mesmos prazeres e as mesmas expectativas, sem as quais, nenhum amor
vale a pena. São coisas que se repetem, mas que sempre surgem com caras e ares
diferentes. Livros e amores. Por vezes, eles se encontram no mês de Julho. E
por vezes se sucedem.
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| Foto: Rio Claro on line |
Mas aquele era um feriado, e
ainda estávamos no mês dos fogos, aniversário da cidade. E, não longe, G. ouvia
o já surrado, quase careca, e menos atrevido Zambianchi, repetir pela enésima
vez, o mais famoso, pegajoso e cantado refrão do rock brasileiro: (...) Mas só chove, chove, chove! Chove,
chove, chove!... Ouh!
O som vinha de longe.
Algumas dezenas de quarteirões de onde G. estava. Sentado na cadeira de
plástico branca, um tanto confortável naquela noite, diferentemente de tantas
outras, ele lia a página 11, da mais recente edição de “A Metamorfose” do Sr.
K. Aquele trecho em que o despertador avisa que já são sete horas, mas a
neblina densa entristece o dia que apenas começa.
E a exemplo do herói do
romance, G. também esperava que o silêncio daquele quarto, à meia luz, fizesse
voltar as circunstâncias reais e naturais de uma vida que até certo instante
dos acontecimentos, dos quais procurava esquecer, acreditara mesmo fosse sua. A
vida. Aquela absurdidade incompreensível, inaceitável, e intempestiva, por
vezes.
Mas ainda não era Julho. E,
portanto, restava-lhe escrever na vã esperança de que as palavras pudessem vir
à tona, transbordante e indecentemente, antes dos sentimentos. E aconteceu
então que, por volta de 22:33, Paul McCartney surgiu na programação noturna da
rádio 850 AM, cantando “My Love”.
É tudo. O texto que se
escreve e a vida inútil do nosso personagem teriam terminado ali, na voz
romântica do Sr. McCartney, que cortava o silêncio do quarto e trazia
lembranças que G. imaginava já sepultadas na indiferença com a qual aprendera a
lidar com coisas complicadas e de difícil entendimento, como o amor. Mas então,
a proximidade do mês de Julho ocorreu-lhe na lembrança trazendo certo
desconforto, alguma irritação, que G., noutros tempos, nem tão distantes, tiraria
de letra, recorrendo a uma prece decorada e um copo d’água. Mas não. Não era o caso.
De todo modo, quisesse ou não, viriam os dias de Julho, e talvez trouxessem os
mesmos sentimentos que durante onze meses do ano, imaginava sepultados a sete
palmos da sua consciência oprimida.
Certa manhã viria, e seria G.
acordado pela senhora saudade, que lhe faria companhia enquanto durasse o
período mais rigoroso do inverno, segundo a moça do tempo. Bem sabia G. sobre a
tragédia que se anunciava. Viria uma outra noite, uma qualquer, trazendo aqueles
momentos da vida, para ele detestáveis, que o fazia odiar a noite. Se visse uma
estrela no céu ficaria algo feliz. Vira duas da última vez. Ótimo. Sentia-se
mesmo incapaz de encontrar beleza naquelas horas escuras, nenhuma beleza que
não fosse o brilho da lua e das poucas estrelas, nada mais. E a noite, sem
pedir licença, nem desculpa, traria a solidão, que ficaria posta, feito
sentinela, aos pés da cama, no quarto, aquele, onde até bem pouco, o grande
enigma da vida para o nosso personagem era entender porque o Sr. K. escolhera
justamente uma barata para dar asas ao seu desejo de liberdade.
No décimo dia do mês de
Julho, repetir-se-ia como já acontecera outras vinte e cinco vezes, até aquele
instante, a certeza com a qual, antes do nosso personagem, muitos anos antes
que ele sonhasse existir, o bruxo Machadinho, de saudosa memória, também se
deparara quando escrevera: “uma mãe
perde-se uma vez e nunca mais se encontra”. Vai se desfazendo, não o
sentimento, mas a presença, de um modo lento, inseguro, tímido, exatamente como
um retrato fixado na lápide de uma sepultura, exposta ao tempo, ao vento, à
distância, entregue e submisso ao nada, e talvez para sempre. Mãe, pedacinho de
céu, onde se põe o coração, imaginando-se eternamente protegido de tudo e de
todos. Ledo engano.
Viria também uma outra
tarde, uma qualquer. Uma daquelas que duram pouco, porque, naquele período do
ano, a claridade entre nuvens vai cedendo espaço à escuridão que chega mais
cedo. Mas enquanto houvesse sol, estaria àquela mesma voz, falando aos ouvidos
de G., como há duas dezenas de anos, quase três, fazendo-lhe a mesma pergunta: “Por que você demorou tanto a surgir”?
Como se ele tivesse a
resposta! Jamais tivera. Duas dezenas de anos, quase três, já não faziam
diferença.
Não havia mais o banco da
praça, nem a linha do trem, nem mesmo o trem, barulhento e velho, passando
atrás de si. Havia tão somente o quarto e a solidão. E a certeza de que haveria
logo o mês de Julho, em sua vida, de novo, trazendo-lhe como sempre, o início e
o fim.

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