Numa daquelas iniciativas inusitadas que se tem normalmente nas manhãs
de sábado, passei pelo Gabinete de Leitura e vasculhando as velhas estantes
deparei-me com duas preciosidades que logo tratei de levá-las para casa
esperando com isso aplacar agradavelmente a solidão. A primeira delas, o
tijolaço (no bom e no mal sentido) O Diário da Corte, compilação de crônicas de
autoria do finado jornalista Paulo Francis (1930-1997), organizada por Nelson
de Sá, com direito a posfácio do filósofo contemporâneo Luiz Felipe Pondé.
Diário da Corte, bem se lembram os saudosos leitores seus
fãs, foi o título da coluna que Paulo Francis, então correspondente em Nova
York escreveu para o caderno Ilustrada da
Folha de S. Paulo durante os anos 1980, contribuindo para, segundo suas
próprias palavras, desmistificar os EUA. Nessa coletânea de crônicas, Francis
vai da Revolução Bolchevique ao caso Watergate, passando pela reafirmação do
espírito liberal de 1776.
Sua facilidade em captar o espírito da obra dos
escritores estadunidenses mais importantes da segunda metade do século XX como
Gore Vidal, John Updike e Truman Capote, também ajuda a desfazer os mitos em
torno de tais escritores. Sobre Gore Vidal, considerado por ele um
aristocrático anarquista, escreve a certa altura em crônica publicada em
3/6/1984: “Vidal é o americano menos americano que já li. Não posso conceber
maior elogio. Para americano”.
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Não faltam também crônicas dedicadas a Lula, Collor e
Brizola, sobre o qual relata em crônica de Dezembro de 1982: “É natural que um
nacionalista radical e populista como Brizola se impacientasse com esse sistema
corrupto”.
Mas Paulo Francis tinha uma paixão jamais correspondida,
o teatro. Nelson de Sá, organizador de O Diário da Corte, deixa isso bem claro
na apresentação do livro, ao afirmar que Francis, aos 23 anos, e morando a
poucas quadras do coração da Broadway, estava ainda distante do jornalismo, era
um apaixonado pelo teatro, seu horizonte era o palco, e seu objetivo era ser
ator. Não por acaso, como toda paixão mal resolvida, Paulo Francis era capaz de,
por exemplo, exaltar Cacilda Becker e comprar briga com Paulo Autran, devido às
ofensas que dirigira gratuitamente à atriz Tônia Carrero em uma crônica de
Outubro de 1958.
O segundo livro o qual tive o prazer de encontrar no
centenário Gabinete de Leitura à disposição do leitor interessado em boas
obras, foi o macio feito um travesseiro de penas, ao menos na aparência (calma
lá que vem coisa, leitor) “O Livro dos Insultos de H. L. Mencken”. Quem? Henry Louis Mencken (1880-1956), talvez o maior polemista em língua inglesa da história do
jornalismo, que destila fel e sabedoria, traduzidos pelo escritor brasileiro Ruy
Castro, em artigos e crônicas, escritos principalmente nas primeira três décadas
do século passado, e compilados como um testemunho à posteridade da visão bem
pessoal, porém instigante sob vários aspectos que o visceral, demolidor e
provocante Mencken (o diabo o tenha em bom lugar) tinha do comportamento
humano. Vejam o que ele foi capaz de escrever sobre as mulheres, em 1921, na
crônica intitulada Mulheres Fora-da-lei:
“Nenhuma mulher normal tem um pingo de interesse pela lei, se por acaso a lei
se puser no caminho dos seus interesses particulares. Antes, em 1918, já havia
escrito: “Intuição? Uma ova! As mulheres são as supremas realistas da espécie.
Aparentemente ilógicas, elas detém uma superlógica rara e sutil. Notem caros
leitores, que essa colocação já havia despertado igual atenção e interesse em
alguém que lera os mesmos insultos antes de nós, vez que grifou com caneta a
passagem citada.
Mencken não era fácil, polemizava escrevendo com
autoridade. Ruy Castro, tradutor da coletânea define bem o alcance disso em
poucas palavras: “Nenhum outro jornalista nos Estados Unidos, antes ou depois
dele foi tão lido com um temor sádico e com tanta adoração masoquista.
Para Castro, Mencken era um ímã para polêmicas, e sabia
aproveitá-los. Em 1926, o New York Times, afirmou sobre ele: “O mais poderoso
cidadão privado na América hoje em dia”. Os estragos que cometera na reputação
de respeitáveis escritores como D. H. Lawrence e Dostoievski confirmam a tese. Outros, porém, passaram a ser mais bem
considerados e reconhecidos seus talentos a partir de críticas favoráveis de
Mencken, como por exemplo: Henry Miller, Dorothy Parker, James Joyce e até
Eugene O’Neil (que para Paulo Francis escrevia muito mal), lembrando que
Mencken ao lado do crítico teatral George J. Nathan, editou duas revistas
especializadas no período de 1920 a 1924.
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Por acaso (talvez não) a orelha do livro Os Insultos de
H. L. Mencken é escrito por ninguém menos que Paulo Francis, que, já ao final
do texto assevera “Em pessoa, Mencken era mais conservador do que por escrito.
Sua ideia de uma noite feliz era ouvir e tocar Brahms e Schubert, se bem que
ele e Nathan (autor da frase “bebo para tornar os outros interessantes”)
tomaram pileques homéricos enquanto riam dos outros. O mundo regrediu para a
jequice de que ele tirou os EUA". Detalhe, Paulo Francis escreveu isso sobre
Mencken em 1988, quando do lançamento do livro. Parece que o tempo não passou. Para nós.
*Publicado na edição No. 135 (Julho/2015) à pág. 4 do Jornal Aquarius.
*Publicado na edição No. 135 (Julho/2015) à pág. 4 do Jornal Aquarius.


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