Conto
inédito de Geraldo J. Costa Jr.
Com exclusividade para o Jornal Diário do Rio Claro, publicado na edição de 16/5/2015, à página 2
O cachorro late sem parar. E é curioso porque
diferentemente do cachorro das quintas-feiras, esse, o das quartas, late mais
doído, agudo e demorado. Seu latido permanece, divagando no espaço, e acho
mesmo que alcança a outros vizinhos, transeuntes, e até motoristas que param na
esquina movimentada onde, certamente, um semáforo, enfim, uma sinalização mais
inteligente, daria melhor fluência ao trânsito atrapalhado das cidades grandes
e das que se consideram ser, feito esta onde nasci e moro. Às vezes chego a
pensar que são os barulhos dos carros e daquelas motocicletas que irritam os
cachorros, especialmente esse, o qual dedico a observar ainda que à distância.
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| Reprodução |
Quem será o seu dono? Terá dono? Ou estará ao
abandono, sem destino, a vagar perdido nas ruas. Este cachorrinho, ao menos
veio ao mundo. Conheceu a luz do sol, a brisa da tarde, e a indiferença dos
homens. De todo modo teve, até o momento, melhor destino que a potrinha recém
nascida, desprezada numa vala comum por uma alma demente incapaz de algum nobre
sentimento, fato noticiado em manchete pelo jornal matutino.
Pensei já algumas ocasiões descer lá embaixo pra
ver se descubro quem é esse cachorro que ouço latir com tristeza como que
consumido aos poucos pela solidão. Será que existirá mesmo o pobre cachorrinho?
Ou será produto de minhas inquietações mentais, que, nesses dias, andam a
produzir mais do que o permitido.
Sim, porque, do modo como vivo, trancado nesse
quarto, preso a essa cadeira, às vezes ouço passos no corredor, e às vezes,
tenho a sensação de que alguém abrirá a porta a qualquer momento e entrará
buscando-me com o olhar. Já entrou. A cena se repete como comercial de tevê. Em
princípio, causara-me medo, hoje não mais. Não me causa risos, não. Estaria
mentindo se o afirmasse. Mas também não me causa medo.
Na minha infância eu também tive um cachorrinho.
Não latia feito este. Na verdade, pouco latia, quase nunca. Era desprovido de
beleza, não causava simpatia nas pessoas, porque buscava sempre um canto da
parede da casa, e ficava quietinho, espantando os mosquitos, coçando as pulgas,
lambendo os seus machucados, que não eram poucos, porque todas às vezes que ele
saía para suas andanças pelas ruas e avenidas do bairro, voltava como se
tivesse levado uma surra. Por isso, Albino não tinha lá muito gosto em
perder-se nas ruas à procura de paqueras ou um resto de comida melhor que
aquele que minha mãe, e somente ela, lhe oferecia à hora do almoço. A água
fresquinha também nunca lhe faltara. Da torneira. E o banho, sim, uma vez a
cada dois meses – às vezes três – com aquele pedaço de sabão em barra que
sobrara no tanque.
Albino, entretanto, parecia não se importar com a
pouca cordialidade que a família, minha mãe, lhe dispensava. Era um cão
resignado, ciente de sua condição de inferioridade perante a espécie humana e
também de seu destino. Morreu tinha 17 anos, e eu 11. Pelo fato de ser membro
mais antigo na família, eu lhe concedia certos privilégios. Como o melhor lugar
do sofá da sala, a melhor almofada para assistir a televisão, uma Telefunken 21
polegadas, colorida, que papai tirara a preço módico na loja onde trabalhava
como contabilista. Fora a melhor realização de meu pai que trago na lembrança.
Ele sempre tão distante, calado, com suor na testa a escorrer pelo rosto,
comendo sempre com pressa, olhando para o relógio, como na iminência de perder
um compromisso. Um compromisso. Mamãe, a família, levantava-se da mesa e ia
para o quarto, o seu. Então meu pai me olhava, esperando talvez uma palavra, um
olhar em retribuição de minha parte, mas o Albino me mordia a canela, na minha
imaginação ao menos, e eu saía correndo para o terraço, e ficava olhando os
carros e as pessoas passando lá embaixo, até que segundos ou minutos depois,
não sei, nunca soube, via também o meu pai, lá embaixo, atravessando a rua, e
entrando num carro, que por causa do vidro escuro, eu jamais soube quem dirigia.
Que importa? Para um sujeito feito eu, as melhores
recordações da vida – descobri dia desses – são aquelas proporcionadas por um
cão. Tanto apego Albino tinha pelo televisor lá de casa, que não teria
dificuldades em aprender a ligá-lo e desligá-lo, se eu o ensinasse. Vontade não
faltara de minha parte. Mas nas poucas tentativas, sempre surgia alguém na
sala, minha mãe. Ou então chegava uma visita fora de hora, geralmente um
parente trazendo uma informação desagradável, a morte de alguém da família, ou
um vizinho chato a pedir alguma coisa que acaso não tínhamos. Quando imaginei
que, um dia, perto dos quarenta anos, eu iria perder o meu tempo pensando sobre
cães?
Vai caindo a noite, já são por volta de 6 da
tarde, e no inverno, os dias são mesmo mais curtos. Custei a me convencer
disso. O cão desconhecido, que ouço latir na rua lá embaixo, o cão de natureza
incerta e procedência duvidosa, sim, continua latindo. Chegará finalmente a escuridão
da noite e os seus latidos passarão a ser mais esparsos um do outro. Porém, não
menos doloridos, longos, profundos, repetitivos. Onde estará o seu dono? Se é
que o tem. Se já o teve. Se ainda o terá. Talvez não. Minha mãe que costumava
recolher cães da rua já não está mais aqui, nesta casa. Embora eu, a família,
continue morando aqui, e preso a essa cadeira, dentro desse quarto escuro,
reconhecendo o dia que vem e que vai pela fresta de luz que entra pela janela,
aberta e fechada, o tempo todo, conforme a vontade e a força do vento.
Já faz alguns minutos que o cachorrinho não late
lá fora. Ouço passos no corredor. Então, com a respiração em suspenso, o olhar
interessado e o corpo imóvel, vejo que aos poucos vai se abrindo a porta. Vai
se abrindo, abrindo a porta...
E lá fora, o cão, o das quintas-feiras, está
latindo. Logo irá amanhecer.

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