Se os restos mortais do artista italiano Amadeo
Modigliani (1884-1920) descansam em paz no cemitério de Père Lachaise, em
Paris, suas telas e esculturas continuam muito vivas e dando o que falar.
Recentemente, a escultura “Téte”, de sua autoria, produzida
em 1911, foi arrematada em leilão, realizada pela Sotheby’s, de Nova York, pela
bagatela de 70 milhões de dólares, algo inimaginável na Paris do início do
século 20, quando o pintor era esnobado pelos entendidos, leia-se marchands,
críticos de arte, artistas contemporâneos e a elite intelectual dominante que
não souberam entender o espírito libertador, sensual ao extremo, delirantemente
obsessivo, por vezes, mas indubitavelmente genial de Modigliani.
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| Reprodução |
Nos dias de hoje, em que pese dúvidas que pairam sobre a
autenticidade de alguns trabalhos considerados de sua autoria – há quem diga
que Modigliani morto tem produzido mais que quando vivo, e, além disso, por
conta de dívidas o pintor desfez-se sem acusar autoria de várias de suas
produções – têm batido recordes atrás de recordes em disputados leilões que reúne a nata dos endinheirados amantes da cultura, dispostos a torrar alguns
milhares de dólares em obras de arte.
Em fevereiro de 2013, um retrato de sua amante
Jeanne Hebuterne, por ele pintado, foi vendido em Londres, na Casa de Leilões
Christie’s pela sugestiva importância de 42 milhões de dólares.
Três anos antes, outro quadro seu, “A Bela Romana”,
produzido em 1817, alcançou as cifras de quase 69 milhões de dólares, em leilão
promovido pela Sotheby’s, em Nova York.
E já em 2012, a tela “Jeunne Fille aux Cheveux Noirs”
atingiu o valor de 1,3 milhão de dólares.
Anunciar uma obra de Modigliani disponível para ser
arrematada em leilão é causar expectativa nos colecionadores e formigamento nas
mãos de quem se dispõe a diminuir o seu acervo cultural.
Contemporâneo de Picasso, que o admirava, embora não
admitisse em público, diferentemente do espanhol, por quem destilava ódio, o
italiano produzia envolvido pela febre da inspiração ou da necessidade.
Em vida, Modigliani produziu aquém da sua capacidade, e
vendeu pouquíssimos trabalhos. Pintava e esculpia com a mesma genialidade. Fora
um artista além do seu tempo, de temperamento obsessivo, e um homem que não
conseguiu se adaptar às circunstâncias de uma vida a qual já começou perdendo
de goleada.
Seu nascimento foi inusitado. A mãe dividia a cama com os
pertences da família, o que segundo a lei vigente impedia que as autoridades
tirassem dos arruinados Modigliani o pouco que lhes restava
Quando menino era muito doente, e este foi o motivo
principal que fez a família mudar de Livorno, sua terra natal, para Paris em
busca de melhores ares, e alguma luz, talvez.
Modigliani fora amante da poetisa russa Ana Akhmatova,
mas teve na jovem Jeanne, a sua musa inspiradora. Do seu jeito doidão, meio
irresponsável, resultante do alcoolismo e das drogas das quais era dependente,
com Jeanne enfrentou a incompreensão dos pais dela que não aceitavam o
relacionamento de ambos, ele era judeu, promíscuo, alcoólatra, inconsequente por
vezes, e ela uma prendada moça católica, até conhecê-lo. Tiveram um filho,
tirado do convívio do casal, pelas autoridades, por influência dos pais de Jeanne.
Coube ao seu amigo, o poeta polonês Leopold Zborowski
prestar-lhe algum reconhecimento em vida viabilizando-lhe uma exposição
individual na afamada Gallerie Berhe Weill, que durou apenas um dia, por causa
das telas onde se destacam os nus (uma das características de sua obra) expostos
na vitrina.
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| Reprodução *ARTIGO PUBLICADO NA EDIÇÃO No. 129, DEZ./2014, DO JORNAL AQUARIUS. |
A dramática vida pessoal e artística do pintor ganhou as
telas do cinema em 2004, em filme dirigido por Mick Davis que também assina o
roteiro. Andy Garcia está no papel principal. E a cena que inicia o filme dá
bem conta do que era Amedeo Modigliani.


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