Você lê uma vez, duas. Lê uma terceira vez, e não
acredita que parece ser tão fácil de tão simples. E em verdade, não é. Com mais
atenção, perceberá que se trata do resultado de grande esforço por tornar as
coisas de um modo absurdamente claro e encantador. Parece mesmo que a
construção das frases e dos períodos acompanha a respiração do leitor. De modo
que a leitura não cansa. Em princípio, ela parece ser repetitiva, mas com um
pouco mais de atenção percebe-se que talvez seja consequencia dos muitos ângulos
de ver e entender uma mesma imagem. Algo como Cèzanne fazia. Não por acaso.
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| Reprodução |
Estou lendo “Contos” – volume I, de Ernest Miller
Hemingway, editado pela Bertrand Brasil, que detém no país os direitos sobre a
obra deste escritor norte-americano. É daqueles livrinhos que se tornam um
ótimo companheiro para os raros tempos ociosos de que dispomos ou inventamos
por necessidade de sobrevivência neste mundo tão exigente de tudo que é nada e de
tudo que é transitório, e ao mesmo tempo tão estúpido. Mundinho onde as pessoas acreditam fazer
amizades e encontrar amores que valham a pena em redes sociais, tendo um
maldito telefone celular às mãos. Admito que não é este o meu mundo. Prefiro
aquele mundo onde ainda existem livros, jornais, revistas, vinhos, telas,
esculturas, ideias para serem apreciadas, debatidas e contrariadas; caminhos a
serem descobertos e seguidos, ainda que levem ao abismo, de onde, ao contrário
do que muitos pensam, é possível sair sim, inclusive mais sábio, experiente e
mais forte. Prefiro aquele mundo que apresenta uma ideia contra o vento, onde é
possível ir à cidade sábado à noite. E onde ainda há boas ideias para guardar
de reserva, esperando quem sabe um novo e irresistível pretexto para perder
cinco minutos da vida preciosa, escrevendo coisinhas como estas.

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