O
bar ficava no centro velho da cidade, e ali costumavam se reunir desde que eram
adolescentes pra tomar refrigerante e comer amendoim, e depois, lá pelos 19, 20
anos, pra beber algo mais forte e proibido para menores. Há desforras que levam tempo demais até serem obtidas.
Eram
bons amigos, cúmplices, e cuja convivência, geralmente prazerosa, já havia sido
maior. Também a cumplicidade, e a confiança entre eles. Mas à peneira natural
da vida, que elimina o inútil e o descabido, eles haviam sobrevivido de parte a
parte. Não se poderia dizer que se tratasse de uma conquista, talvez um
consolo, quando muito.
“Tem
visto Alice?” – perguntou Renato, enchendo pela quarta ou quinta vez, naquela
noite, o copo de Vitor, que, incrivelmente, estava sempre vazio.
“Não
– respondeu Vitor – Recentemente, não – e olhando para o copo e o fazendo girar
sobre a mesa – Faz alguns meses, vários, na verdade, eu a vi, saindo de uma
agência bancária. Parecia feliz”.
“Você
nunca me contou exatamente a derradeira conversa que tiveram”.
“Poupe
seu tempo”.
“Eu
insisto. É importante para as minhas pesquisas. Prometo guardar segredo”.
Vitor
ainda ponderou dois ou três segundos, enquanto Renato, cordial e
interessadamente completava-lhe o copo uma vez mais.
“Eu
disse a ela: Alice olhe bem para mim, querida. O que você pensou? Que eu fosse
pedi-la em casamento? Eu só queria a sua companhia, a sua atenção, o seu olhar,
vez em quando, voltado para o meu. O seu abraço, nas horas em que mais eu me
sentia só, nas minhas horas mais difíceis. Porque a isso me propus. Porque
sabia desde o início, e mesmo antes do início – se é que você me entende – eu
sabia que seria assim. Mas você confundiu, estragou tudo. Se afastou de mim, e
me evitou como se eu fosse portador de um mal terrível, tivesse uma doença
contagiosa. Ou fosse teu pai doente à beira da morte, que você não tivesse
coragem de cuidar. E você nunca, em momento algum, me disse o por que desta sua
atitude. Não considerou que eu merecesse pelo menos isso: uma palavra, uma
justificativa da sua parte. E pior que você achou tudo isso normal. Ou o teu
desprezo, ou o teu medo, sei lá o quê, fosse alguma coisa que o tempo levasse e
a distância curasse, fizesse esquecer”.
Até
então, ela o escutara pacientemente. Sem esboçar nenhuma reação. Nem fizera
menção de interrompê-lo a qualquer momento. Contudo, antes fechou os olhos, e
depois disse, acreditando que tais palavras pudessem servir de resposta ou de
bálsamo para uma ferida aberta há tantos anos. A aflição do seu olhar
transformou-se de repente em desespero na sua voz, sempre bem colocada:
“Eu
não queria vê-lo morrer pouco a pouco!”.
“E
eu morri, mesmo passado tanto tempo?”.
“Não!
Mas dava a entender naqueles dias que iria sim. Sempre deu a entender isso...
Ao menos para mim”.
“A
você?”
“A
mim, aos outros... a todos que o conheciam”
“E
de que forma fiz isso, pois não me recordo”.
“Suas
palavras, sua reações, seus procedimentos”.
“
Alice você não gosta mais de mim, encare o fato. Nunca gostou como poderia. Mas não tem nenhum
problema, sabe. Por esse motivo é que não vou morrer”
“Não
mesmo” – disse ela, desviando o olhar dele, voltando-o para o chão, em seguida.
Vitor
deitou o lápis sobre a mesa, onde rabiscava um guardanapo de papel, e sem se
dar conta, deixou escapar o pensamento, enquanto o amigo o observava.
“Se
este é o desfecho da história, Vitor, você acaba de encontrar um pretexto para
escrever um novo conto. Quem sabe um novo livro”.
“Cujo
final eu ainda não sei”.
“Nunca
mais a viu?”
“Nem
me pus a procurá-la”.
“Redes
sociais, os lugares onde freqüentavam...?”
“Não”.
“Ela
ainda está envolvida com o movimento?”.
“Sinceramente
não sei”.
“E
você, está?”
“Acho
que nunca estive como eles gostariam que eu estivesse”.
“Desculpe
minha franqueza, mas você sempre fugiu às responsabilidades, para as quais,
inclusive, estava preparado”.
“Estava?
“Ora,
nunca soube de alguém que duvidasse disso além de você?”.
“Qual
o problema”?
“Eu
não sei. E acho que nem você mesmo o sabe. Mas, me incomoda essa mania que você
tem de encontrar problema em tudo. As pessoas o invejam por sua inteligência, e
você a despreza, sabe-se lá por qual motivo. Talvez...”.
“Conclua”
“É
mais cômodo pra você não enfrentar a luta” – prosseguiu o amigo, ajeitando-se
melhor na cadeira.
“Sim,
alguém me disse um dia que sou acomodado”.
“E
você é?”
“Não
para o trabalho no qual acredito e faço”.
“Qual
trabalho?”.
“O
meu”.
“Mas
o seu trabalho, este ao qual você se dedica obstinadamente, jamais o
recompensou por seu esforço e por sua inteligência”.
“Chegará
o dia”.
“Quando?”
“Deus
sabe”.
“E
se não chegar?”
“É
porque então Deus não existe”.
“Ele
existe? Deus?”
“Não
sei. Não posso provar. Mas eu existo”.
“Não
é o bastante”.
“Pra
você. Pra mim é mais que suficiente”.
“Já
pagou o aluguel este mês?”
“Não”.
“Vê!
Não é o bastante”.
Levantou-se
o amigo, deixando algum dinheiro sobre a mesa.
“Esqueça
a fantasia, Vitor. Volte-se à realidade. Não subestime a vida. Porque o tempo
traz uma fatura de valor alto demais para ser pago. E se continuar neste
caminho perdulário de moral e sentimentos, você não terá lá na frente como pagar
a fatura”.
“Talvez
não haja lá na frente”.
O
amigo, que já ia, voltou-se:
“Essa
é uma possibilidade. Mas não passa disso. E jogar com a vida não torna ninguém
um herói, mas um derrotado”.
“Torna
um covarde – disse Vitor, corrigindo o amigo – Soa mais bonito”.
“Como
quiser, meu caro. Mas seu destino continua em suas mãos”.
Naquela
noite, Vitor voltou para a casa, trôpego de bêbado. A roupa puída, velha e
amassada. Seu aspecto era semelhante aos velhos papéis do arquivo onde
costumava pesquisar, quando conseguia por caridade de amigos influentes,
arranjar um free-lance pra ganhar uns trocos e dar conta da sua sobrevivência,
ou seja, seus livros, sua bebida e seu maço de cigarros. Mulheres,
às vezes, quando a necessidade se impunha.
Deitou-se
na cama e o mundo girou muitas vezes, em seu redor. As paredes do quarto, dele
aproximavam-se e, depois, distanciavam-se. Era como o vai e vem das ondas do
mar, que visitava pelo menos a cada dois anos, na baixa temporada, quando as
despesas tornavam-se menores.
Levantara-se
algumas vezes para ir ao banheiro durante a noite. Mesmo as paredes do banheiro
pareciam ora grandes demais, ora pequenas demais. Não sabia em qual vaso
deveria expelir a urina. Porque de repente eram muitos vasos, alguns à esquerda
e outras à direita, e ele não se lembrara de ter feito alguma reforma na casa.
Ora, não era mais aquela a sua casa, de repente, lembrou-se experimentando um
gosto amargo na boca, que para seu pai, era como o do cabo de guarda-chuva.
Foi
para a cozinha por volta de três da manhã. A velha rotina. Fez o café, que,
como de hábito, não ficara muito bom. O calor era insuportável naquele
novembro. Então botou a cara diante do ventilador, que ficava geralmente sobre
a geladeira, mas que ele conseguira daquela feita colocar sobre a pia. Mas não
se lembrava como. Mas aquilo também não era importante.
Costumava
deixar algumas folhas em branco sobre a mesa da cozinha, perdidas entre pratos,
talheres, copos, cascas de pão, guardanapo e mosquitos, evidentemente, sendo
que todos estes inquilinos, feito ele, naquela espelunca de apartamento,
passaram sob a sua devida e acurada atenção. Havia aprendido que observar os
detalhes é fundamental, para compor o clima dos acontecimentos.
Então
rabiscou os mesmos rabiscos que havia rabiscado no guardanapo na mesa do bar
onde passara horas agradáveis com o seu melhor amigo, naquela noite. Mas agora
os rabiscos ficaram na toalha, de onde, certamente, jamais seriam removidos.
Porque teria a bendita toalha de mesa, que fora de sua mãe, o mesmo destino que
a maioria de suas meias e cuecas: o saco de lixo.
Logo
os rabiscos se tornaram figuras assimétricas; quebrou-se a ponta do lápis
tamanha a força que ele impunha aos traços, mas havia outros lápis sobre a
mesa. Ao menos deveria haver. Talvez debaixo da toalha, ou da fatia de pão
cortada e esquecida, intacta, embolorada. Das bolachas Mabel. Ou do saco de
batatas fritas. Sim, o saco de batatas fritas, é claro! Lá estava, o lápis, no
saco de batatas fritas, no lugar das batatas fritas.
Achou
o lápis e sentiu-se feliz por isso, e percebeu o quanto era um idiota pelo fato de se
emocionar com coisas estúpidas e insignificantes, as coisas simples da vida e
sem nenhum valor objetivo, assim, feito ele, como achar um lápis que julgava
perdido, um lápis sem ponta, dentro de um saco de batatas-fritas. O outro lápis,
aquele que tinha ponta, estava no bolso da camisa. Era um lápis novo, bonitão,
cheio de estilo, o lápis que tinha ponta. Mas não se lembrava até então que o havia
colocado ali, no bolso da camisa, ao sair de casa para encontrar-se com o
Renato, o seu melhor amigo.
As
figuras assimétricas que desenhava sem nenhum propósito na velha toalha de
mesa, que um dia fora de sua mãe, transformaram-se em palavras a um impulso
espontâneo em sua mão direita que não pôde resistir. E as palavras se
sucederam, embora ele não soubesse exatamente quais.
Entretanto
sabia, porque estava habituado a esse fenômeno, que é um portal que os
sentimentos e as ideias atravessam para se transformar em palavras. O portal
cósmico da consciência que separa o imaginário e o desejo, da realidade. Nunca
entendera muito bem esse processo. Mas ao mesmo se submetia sem receio algum. E
o resultado era que as coisas aconteciam. E as coisas eram a sua escrita. O que
revelavam e o que sugeriam, e o que indagavam aquelas palavras.
Os
muitos modos de se observar o céu, são os mesmos com os quais se observa a
vida. Mas quem parava para refletir sobre isso? – costumava pensar
nas ocasiões em que se davam tais fenômenos.
Naquela
noite, entretanto, as palavras vinham à sua mente: fortes, enormes, poderosas,
mas feito as ondas do mar, quebravam-se nas pedras da indiferença que os
melhores sentimentos, as melhores possibilidades destroem.
Abandonou
a escrita, convencido de que as palavras não poderiam naquele instante lhes
oferecerem nenhum conforto ou esclarecimento, nenhuma segurança. Caminhou
arrastando os pés até a porta da cozinha que dava para a área de serviço, um
cubículo de dois por um, talvez menos, que dava vistas para outros prédios das
ruas e avenidas próximas. E também para o céu. Mas resolveu esquecer o céu.
Daria boas vindas a ele na manhã seguinte, quando estivesse mais vistoso.
Acendeu
um cigarro Continental, hábito maldito do qual não conseguia largar senão
quando algumas feridinhas surgiam nas suas gengivas, e, doloridas, as faziam
sangrar, enquanto escovava os dentes a cada manhã, o que o fazia se lembrar
de que precisava muito depois de muitos anos visitar o dentista.
Mas
a visita ao dentista, assim como a visita à irmã, ao irmão sobrevivente, ao
amigo Renato, e à casa de oração a qual frequentara assiduamente em uma
determinada época de sua vida, eram feito aquelas situações narrativas de um
texto literário, as quais, sob o pretexto de prender um pouco mais a atenção do
interessado leitor, sempre se acaba deixando para as futuras páginas.
Vindo
não se sabe de onde, as primeiras notas de Miss Sarajevo, tocadas ao piano, chegavam
naquela noite aos seus ouvidos. Apoiou-se no batente da porta com a mão
direita, enquanto que a esquerda se dividia com grande esforço na difícil
tarefa de segurar o cigarro e a garrafa de vinho ao mesmo tempo. O copo já
havia se espatifado no chão, e agora, estava sendo esmagado, triturado ainda
mais pela sola do seu sapato, sem que ele percebesse.
O amigo
do coração e de copo lhe dissera certa ocasião que para cada história que se
dedicasse a escrever, cada boa história, teria necessariamente de viver um
grande amor. Porque certamente não encontraria motivo, e nem teria combustível
suficiente que o levasse a enfrentar a grande batalha de escrever bem, ainda
que jamais pudesse vencer o medo de que não fosse capaz de enfrentá-la e
vencê-la. Mais do que vencê-la, passara, entretanto, aqueles últimos anos de
sua vida, tentando concluí-la. Porque aprendera desde cedo que há batalhas que
se vencem, mas que não se consegue concluí-las.
“Você
é uma privilegiada neste mundo maldito” – ele dissera a Alice, quando, na
calçada, se dirigiam para o carro, numa noite qualquer, após deixarem uma festa
e os amigos para trás.
E
mesmo não entendendo muito bem o que significava aquela afirmação, ela ficou a
olhá-lo, intrigada, curiosa, mas nada disposta a demonstrar que estava
realmente interessada no assunto.
“Acontece
que, diferentemente das outras, você permaneceu”. – ele prosseguiu, enquanto
abria a porta do carro.
“Onde
exatamente?”.
“No
meu coração. E é justamente por esse motivo que jamais pude por um fim nas
coisas como gostaria”.
“Eu
o impeço de ser feliz?”
“Não.
Antes fosse, porque então seria mais fácil de resolver. Mas em verdade, você é
a luz que fez reacender a minha esperança”
“Perdoe-me
por ter lhe causado esse mal”.
Com
os cotovelos sobre o capô do carro, ele disse:
“Eu
nunca sei quais são os dias do mês”.
“E
que importância tem isso agora?”.
“Como
poderia pedi-la em casamento?”
“Pois
não ouse fazê-lo”.
“Agora
é tarde?”
“Muito
tarde”.
“Tão
tarde que torna impossível?”.
“Não
é exatamente o tempo que torna impossível. Mas é o que tempo traz consigo”.
“Quando
um texto não me agrada, eu o elimino, amasso e jogo fora”.
“Dê-se
por feliz, eu já não consigo tal desprendimento”.
“Por
que tem medo”
“Medo?”
“Medo.
Das feridas que ficarão abertas, depois”.
“Não,
querido, apenas porque não sou uma escritora. Eu pertenço ao mundo real. E
você, não”.
Na
mente dele fizeram-se as trevas, e no coração, o silêncio. Experimentou súbito
uma sensação de vazio e de ausência. Duvidou que houvesse tempo e espaço. Chão
sob os seus pés, não existia. A vida lhe parecia em suspenso. Como se o ar
faltasse, e a matéria ao seu redor não tivesse peso, nem forma... Nem ele
próprio tivesse.
Começava
a chover, ainda que sem muita força, quando Vitor retornou a si, afugentando-se
dessas lembranças. Só então se deu conta de que o cigarro havia queimado seus
dedos, dos quais se utilizava para escrever com o lápis, e ele, sem que
percebesse, havia esvaziado a garrafa, e que o copo, finalmente já havia sido
triturado o bastante para se tornar um pó viscoso e meio transparente, sob a
sola do seu sapato, agora, mais gasta que antes.
Mas
antes que fosse até a cozinha apanhar outra garrafa de vinho, descobriu que
Alice permanecia ainda muito viva na sua lembrança:
“Não
tente terminar a sua história – disse-lhe ela – Não faça isso com você. Faça
diferente. Faça melhor que isso. Tente melhorá-la, a partir daqui. Até que,
naturalmente, ela se torne outra historia. Mais bonita”.
“Será.
Se você dela fizer parte”.
Mas
isso ele disse às paredes. Porque a voz dela, que ele tão bem conhecia, já
havia desaparecido de sua lembrança.
Muitos
anos haviam se passado desde então. Desde a última vez em que Vitor estivera
com Alice.
A
chuva aumentara. O barulho na rua também. Pessoas indo ou voltando de festas.
Algumas – jovens – gritando, palavras inapreensíveis. Grunhidos, talvez. Ele
também voltaria. Voltaria à sua realidade. Sua vida medíocre, da qual, em
verdade, jamais se fizera ausente. Nem mesmo em pensamento, nem mesmo enquanto
escrevia.
Foi
para a sala, ainda escura, sentou-se na poltrona e ligou a tevê. Os programas
da madrugada já não eram os mesmos de quando ele tinha 19, 20 anos. Goulart já
havia morrido, não havia mais plantão, nem comando, tudo quieto ao redor, mesmo
os filmes eram outros. A poltrona era a mesma. A televisão também. E as
cortinas, ainda não lavadas, desde que Raquel se fora para casar-se com um
obreiro da igreja. Na estante, os livros e as coleções mofavam; também os LP’s,
porque seu pai já não podia lê-los nem escutá-los. Se abrisse as gavetas da
estante, carcomida de cupim, encontraria certamente jornais de 1994, 95... E entre
eles, recortes de mulheres de biquíni, e bonitas, que o pai colecionava às
escondidas.
Na
mesa da cozinha, em meio aos pães, aos talhares, os copos, as garrafas de
vinho... muitas, permanecia, intacta, a sua história, escrita numa toalha de
mesa, e que ele deveria melhorá-la, ou sepultá-la no campo santo das suas
lembranças. Porque lá fora, o sol já se levantava. E alguém, cuja voz tão bem
conhecia, o chamava no portão.