Atualmente, fanáticos religiosos, desprovidos de
mínima coerência e racionalidade, acreditam queimar espíritos maus, na verdade
espíritos ignorantes, desinformados e ludibriados que, em troca de alguma
vantagem, atormentam a vida de encarnados, por sinal, nenhum pouco santinhos,
como se imaginam.
O assunto merece reflexão se considerarmos que, no
século XIX, queimavam-se, apenas livros. Em Barcelona, em 09 de outubro de
1861, cerca de 300 livros com temática espírita foram queimados, em praça
pública, por ordem e graça do Bispo de Sevilha, episódio que passou à história
como o Auto-de-fé de Barcelona.
Eram 10 e 30 da manhã, quando se deu o fato, na
presença de, além do Bispo, um padre, um notário, um escrevente, e três
funcionários da alfândega (onde os livros foram apreendidos), acompanhados de
uma pequena multidão, que, para o desgosto de sua Eminência vaiava a todos
estes, aos gritos de “Abaixo a Inquisição”.
O tiro saiu pela culatra, porque tal estupidez
acabou despertando um interesse ainda maior das pessoas pelos assuntos
espíritas dos quais tratavam os livros.
Sobre o episódio merece registro o livro Auto-de-fé
de Barcelona de Florentino Barrera, onde é possível encontrar a citação do
poeta alemão Henrich Heine de que “Onde
se queimam livros acabam se queimando homens”. Caso da Espanha, em cujo
solo se verificou cenas dramáticas e repugnantes durante o Tribunal do Santo
Ofício da Inquisição no período de 1478 a 1834.
A Espanha, por sinal, é um país bonito, de cultura
milenar, e que herdou à humanidade gênios das artes como Goya, Picasso e
Cervantes, mas parece ter a sina de protagonizar aberrações do comportamento
humano como, por exemplo, as touradas, onde animais ingênuos são sacrificados
sob os olhares do público extasiado, e, ainda, a festa de São Firmino, em que
embriagados correm pelas ruas de Pamplona, perseguidos por touros ensandecidos,
não porque esta seja a natureza animal – dos touros – mas, porque foram
induzidos pela ignorância humana a se comportarem desse modo.
Episódio semelhante ao grotesco Auto-de-fé de
Barcelona seria protagonizado na Alemanha, por Adolf Hitler, que, motivado pela
insensatez que lhe era peculiar, mandou acender uma fogueira de livros, em
Berlim, numa tentativa de, talvez, demonstrar a soberania intelectual da raça
ariana.
Também merece registro um texto do dramaturgo e
poeta alemão Berthold Brecht, intitulado “A Queima dos Livros”, onde ele
escreve sobre um autor que vendo vários livros serem empilhados para formar uma
fogueira, descobre que entre esses não se encontre os seus e assim se exprime
indignado, conforme a tradução de Paulo César de Souza: “Queimem-me! Não me façam uma coisa dessas. Não me deixem de lado. Eu
não relatei sempre a verdade em meus livros? E agora me tratam como um
mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!”
Como se percebe, a humanidade parece viver
atormentada por demônios de toda espécie, mesmo que na forma de livros. Mas os
livros existem para esclarecer as mentes e não o contrário. O triste episódio
do Auto-de-fé de Barcelona demonstra isso. Hoje, os livros com temática
espírita estão entre os mais procurados e lidos e servem como base para obras
cinematográficas de grande repercussão.


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