Todas as sextas-feiras, à noite, sentava-se no
último banco a partir do corredor, na última fileira, daquele amplo auditório,
perfumado, encerado, vistoso, as paredes pintadas de azul da cor do céu. E ali,
entre outras pessoas, passava meia hora de sua vida, olhos atentos nas
orientações que tão bondosamente, alguém, escolhido
a dedo, se dispunha a trazer.
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| Foto reprodução |
Eram minutos aqueles em que tudo parecia bem
resolvido diante de seus olhos ainda que sua mente, insana incerta, destemida,
viajasse em injúrias e perquirições nem sempre descoladas da realidade. Tudo
parecia bonitinho e no seu devido lugar. Tudo. Até mesmo o ar que parecia lhe faltar,
agora suspirava aos seus pulmões, num trabalho incessante; trocara de turno com a dona dor, que
inexplicavelmente desaparecera. Nada ficava faltando, nada era demais.
Era alguma coisa tão diferente dos seus dias, do seu
mundo lá fora, aquele mesmo que o sufocava com o passar das horas, quando, aos
poucos, muito lentamente, embora de modo não menos doloroso, as coisas iam se
mostrando daquele jeito soturno, tirano, que só mesmo a realidade é capaz de
conceber.
Ali naquele auditório reinava o bem, a harmonia, a
perfeição, porque, coisa ruim não passava pela porta, pelos guardas, melhor
dizendo, lá embaixo, a menos que viesse trazido por ordem, mandado superior.
Trazido bem acompanhado, melhor me expressando, porque, convenhamos, aquele auditório era um lugar para poucos. Porque
como já dizia o sábio poeta vêem os que têm olhos de ver. E só encontra quem
procura.
Justamente naquele dia em que passara pensando e
envolvido na saudade do seu amigo morto há 26 anos, o palestrante da noite
falava sobre perdas inevitáveis. Mas logo desconfiara que o argumento era tão
somente pretexto para entrar com tudo, de sola e supetão, no tema da
palestra.
Aquele era um palestrante diferente dos demais. Até
os cinco ou dez primeiros minutos percebia-se que era ele próprio quem falava,
dali por diante, nem sempre, na verdade, quase nunca, tomado por inspiração o ilustre
professor aposentado, humanista, cristão, realista, prudente e sábio, vez em
quando, poeta, porque letrado sempre o fora, cedia um espaço de sua mente e
abrindo parênteses tantos quantos fossem precisos dissertava sobre o amor, a
caridade, o perdão, a fé raciocinada, as muitas moradas da casa do pai, as idas
e vindas, e os toma lá da cá da vida com uma naturalidade assustadora. Ao menos
para os menos avisados que, pela primeira vez em suas vidas, houvesse arriscado
botar os pés naquela casa de oração e sujeitar os seus ouvidos limpinhos, sua
mente pura, doce, ingênua às verdades que tanto incomodam a todos nós.
Nosso observado lá se encontrava e ao
que parece lá pelas tantas quando o palestrante proferia a prece final, levantou-se,
sem escapar dos olhares curiosos daqueles que compartilhavam assentos próximos
ao seu.
Fora ao banheiro. O líquido precioso escapou a tempo
para dentro do vaso sanitário, para o seu alívio, e o da faxineira.
Deu a descarga, suspendeu a calça, limpou as mãos
com água e sabonete líquido; enxugou-as olhando-se no espelho, e só então se
deu conta de que havia ganhando uma aparência mais jovial, com aquele novo
corte de cabelo mais curto, que embora muito do seu agrado, nenhum pouco agradara
sua paquera daqueles dias, que o reprovara por todos os meios.
Subiu as escadas, algo imprudente no seu jeito de
caminhar, desafiando os degraus com os calcanhares e retornou ao auditório,
mas, a palestra já havia terminado e as pessoas, em fila, encaminhavam-se para
a segunda e não menos importante, embora, por desconhecimento de causa, a
maioria daquelas pessoas, a considerassem dessa forma, atividade daquela noite.
Sem muita delonga, tomou o final da fila e ficou a
esperar a sua vez. Naquele lugar sentia-se muito bem, porque as pessoas o
olhavam sem distinção, não lhe faziam perguntas indiscretas, como por exemplo,
onde trabalha e quanto ganha. Apenas perguntavam como se sentia, se precisava
de algo; não, não precisava não, ele respondia. Mas naquela noite, se lhe
perguntassem, a resposta seria outra. Bem outra.
Então, de uma sala escura, iluminada um pouquinho,
um pouquinho só, por uma lampadinha de cor azul, saíram as últimas pessoas
antes que ele e o que restara da fila de espera adentrassem ao recinto.
Ele sentou-se em uma cadeira dentre as tantas disponíveis,
fechou os olhos, elevou o pensamento a Deus, como de hábito, e alguém dele se
aproximou, colocando as mãos sobre ele, mas sem encostá-las em sua cabeça, e ele
então, de repente, tendo buscado o que podia haver de melhor dentro de si começou
a sentir uma energia gostosa, agradável que penetrava pelo alto de sua cabeça
e, aos poucos ia envolvendo todo o seu corpo, a cabeça, os braços, as mãos, as
pernas, todo o seu corpo, transmitindo-lhe uma sensação de paz, de
contentamento, de satisfação, fé e esperança, como ele jamais sentira.
Então, depois de um tempo que pareceu uma
eternidade, a pessoa que havia colocado as mãos sobre ele, mas sem tocá-lo,
estava de pé, parada diante de si, a sorrir-lhe. Compreendeu que seu tempo
havia terminado, e que só restava ele a deixar a sala.
Um tanto encabulado olhou para quem estava a sua
frente como se lhe pedisse desculpas, e exatamente por isso, além do sorriso
ganhou um aperto de mão.
Foi acompanhado até a porta, despediu-se uma última
vez da pessoa que o havia assistido e antes de descer a escadaria, resolveu
registrar no caderno de intenções o nome de um ente querido falecido naqueles
dias.
Anotou, e quando ia se retirar deparou-se com a última
frase do texto que corria na tela do auditório acompanhado de uma música linda,
suave, aconchegante. Dizia o texto escrito por um tal Emmanuel: “Na
vida, não vale tanto o que temos, nem tanto importa o que somos. Vale o que
realizamos com aquilo que possuímos e, acima de tudo, importa o que fazemos de
nós.
Voltara para casa aquela noite, sabendo finalmente o que
deveria fazer.

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