A finalidade da existência humana é o aperfeiçoamento
moral. Isso não faria nenhum sentido, caso inexistisse a crença na vida futura.
E acreditar ou desacreditar na vida futura faz toda a diferença no modo como
encaramos a vida presente e traçamos os nossos objetivos.
A instintiva busca pela felicidade inerente a todos
nós seria indicativo de que algo nos espera. Acreditar que a vida se resume no
tripé nascer, viver e morrer é um facilitador na medida em que nos isenta de
responsabilidade perante a própria vida. Mas colocam por terra todos os valores
que permitiram que a espécie humana se transformasse em civilização, como o
senso de justiça, o instinto de preservação, a necessidade do progresso através
do trabalho e da busca pelo conhecimento, o direito e o dever, a prática do
bem, e o amor a si mesmo e ao semelhante.
Preservar esses valores exige de nossa parte o
aperfeiçoamento moral, ou seja, a eliminação gradativa dos defeitos e o
aprimoramento das virtudes. Isso só é possível através da prática do bem. E só
pratica o bem o indivíduo que já possui uma visão ampla da vida onde ele é
apenas mais um entre tantos. É aquele sujeito que agradece a Deus pelo alimento
que recebe, mas também se lembra de todos aqueles seus semelhantes que
dedicaram tempo, esforço e conhecimento, para que aquele alimento pudesse
chegar à sua mesa. E pede à vida, que jamais permita que lhes falte alimento
semelhante. O indivíduo que pratica o bem é aquele que cede em favor do outro,
porque sabe que a vida, naturalmente, lhe restituirá no momento oportuno.
Enfim, é o bom samaritano que sabe que a sua felicidade e paz de espírito plena
só é possível quando a do seu semelhante também se realiza.
Somos indivíduos, mas vivemos em sociedade, e a vida
assim nos fez, não para que competíssimos uns com os outros, mas para que nos
ajudemos uns aos outros. Quando um de nós está caído, perdido, derrotado, é ele
que requer a nossa atenção e os nossos melhores esforços. O remédio se ministra
a quem está doente. Não há outro meio de tornarmos o mundo melhor senão
recuperarmos para a vida e a felicidade, aqueles que, por algum motivo, se
perderam em ilusões e enganos, cada vez mais comuns e sedutores em nosso meio. O
primeiro passo para êxito dessa indispensável tarefa é reacender-lhes a
esperança. Mostrar-lhes que há sim no mundo alguém que se importe com o seu
sofrimento, que lhes quer ajudar e lhes quer bem.
Num mundo maravilhoso como este em que vivemos, somos
os seres que pensam, sentem e agem, conforme sua capacidade, entendimento e
vontade, portanto, responsáveis por nosso destino.
A dor e a fome são as únicas desgraças da vida humana
que não esperam o melhor momento, a melhor ocasião, mas exigem pronto
atendimento. As pessoas lúcidas compreendem isso e dedicam o melhor de seus
esforços nesse sentido.
Nós precisamos nos ajudarmos uns aos outros.
Precisamos nos aproximarmos uns dos outros. Precisamos valorizar os laços de
família e de amizade.
As modernas tecnologias que permitem comunicação
imediata não estão no mundo para nos distanciarmos, nos isolarmos. Não é essa a
sua finalidade. Lembremos de Alberto Santos Dumont que não fez o avião para
carregar bombas de destruição em massa, mas, para diminuir a distância entre os
lugares e as pessoas. Lembremos dos chineses que faziam da pólvora fogos de
artifício e não arma letal. A inteligência e o esforço humano viabilizam
ferramentas de trabalho que conduzem ao progresso e preservação da espécie. O
uso que dela é feito depende da vontade e sabedoria de cada um. A faca que corta
o pão pode ser a mesma que mata. Somos livres, mas responsáveis por nossos
atos, perante a nossa própria consciência que nos acompanha na nossa vida
futura. Podemos ser melhores e tornarmos melhor o mundo em que vivemos, se nos
respeitarmos e se nos ajudarmos uns aos outros, mas isso só será possível,
quando enfim nos conscientizarmos que a vida segue, vai além, do nascer, viver
e morrer.
* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 09/set./2014, à página 2.