Pela quinta vez num espaço de
poucos dias a cena iria se repetir. Pegar o ônibus, ir até o centro da cidade,
comprar rojões, voltar para casa. Havia uma certeza inabalável no triunfo,
então, preparar a festa era cumprir um ritual.
De repente, espocar rojões
havia se tornado mais importante e mais interessante do que destampar as
garrafas de cerveja com o abridor que trazia escondido na sua mochila de
escola.
Não entendia direito que
prazer era aquele poder recordar um ambiente de 12 anos atrás que, acaso não
conhecera. O melhor de todos, de todos os tempos, já não vestia a número 10 do
manto sagrado, mas havia outros bons, onze deuses, trazendo nos pés toda a
magia conhecida apenas por um povo, ao qual, enfim, orgulhosamente podia
dizê-lo, pertencia.
O país vestia-se de verde e
amarelo, as pessoas esqueciam-se dos inúmeros e insanáveis problemas, da
carestia, da inflação, dos militares no poder, e sorriam felizes, paradas,
pasmas e vibrantes ao mesmo tempo, diante da tevê, a comemorar cada jogada de
tirar o fôlego, cada gol. Sim, afinal, com uma bola nos pés havia do que se
orgulhar ter nascido feito Deus, no Brasil.
Era 5 de julho de 1982,
uma segunda-feira ensolarada, gente alegre a sorrir, os carros nas ruas buzinando,
as ruas pintadas com motivos do Campeonato Mundial de Futebol em disputa. O
palco da festa estava montado mais uma vez. Entretanto, desde que ao voltar da
padaria naquela manhã, não encontrara na banca o seu jornal preferido,
percebera que algo não ia bem.
Mas a família lá estava
reunida na sala da casa onde morava. Também o primo querido. Na mesinha de
centro, a pipoca e o refrigerante, aquele: abra um sorriso. Na grade, lá fora,
ao sabor do vento, a bandeira verde e amarela, feita por sua mãe. Grande,
vistosa, bonita. E que não conhecia lágrimas até então, mas o suor do
entusiasmo e do orgulho que exala dos poros e dos corações dos vitoriosos.
O adversário, um velho
conhecido. Mas que ia mal das pernas naquela competição. Não seria páreo.
Goleada à vista, mais uma. Aí só faltariam dois jogos. Dois apenas para
reconquistar o mundo. E sentir-se gente. E poderoso a ponto de poder olhar para
aquele menino americano, seu colega de classe, olhá-lo nos olhos, sem receio,
sem um pingo de vergonha. Poder sentir-se à altura dele ou de qualquer outro
menino do mundo cujos pais àquela época, sabiam o que era ter moradia, emprego,
e salário digno.
Naqueles dias de junho e
julho, havia se esquecido um pouco da loucura impertinente que lhe acometia
todas as manhãs, enquanto se arrumava para ir à escola achando que poderia se
juntar a outros tantos meninos inconsequentes e mudar o mundo, senão o mundo ao
menos o seu país... Sua cidade, ao menos. Mudá-la, torná-la mais humana, apenas
com música e poesia, e esperança, que pretendia despertar nas pessoas
indiferentes, com seus versos cantados ou declamados por alguma boa alma que
lhe desse um minuto ou dois de atenção.
Aquela, entretanto, era uma
segunda-feira que bem poderia ter sido varrida do mapa, digo do calendário, por
algum tirano da Antiguidade. Mas não foi assim.
Então, bola rolando, entre o
medo e a esperança, viu um quase ex-atleta, marcar duas vezes contra o seu time
sem nenhum pudor ou cerimônia. E pensou: como pode isso? E acreditou que
somente um rei destemido, elegante e valente poderia salvá-los todos da
tragédia. Um rei de Roma.
Sim, só ele mesmo, o rei de
Roma para colocar aqueles súditos carcamanos duma figa no seu devido lugar. Mas
não fora suficiente. Da esperança renascida das cinzas para o revés fatal foram
apenas alguns minutos.
Restando pouco tempo para
terminar o jogo, começou a fazer contas para saber se os seus ídolos derrotados
poderiam dali a quatro anos ter uma nova chance. Mas os números tanto quanto o
placar do jogo eram implacáveis.
O que será da vida? O que
será de mim, dali por diante? – chegara a pensar, porque era tudo o que os seus
inocentes 13 anos de idade lhe permitiam pensar naquele momento angustiante em
que vivia o seu pior pesadelo.
À medida que o fim se
aproximava e a tragédia se anunciava irreversível, parecia não haver chão sob
os pés e que o mundo iria acabar. Se não o mundo, o melhor sonho que a vida lhe
permitira até então conhecer.
5 de Julho de 1982,
segunda-feira, 1 da tarde, seria um divisor de águas em sua vida e na história
do futebol. Mas só pôde compreender isso muito tempo depois.
Jamais a esperança haveria de
passear pelo seu coração, assim como a arte jamais voltaria a desfilar de
braços dados com o futebol.
Um dia maldito, cujo fantasma
levou outros doze anos para ser sepultado, e cuja lembrança mais contundente é
o retrato de um menino e sua dor, estampado em uma capa de jornal.
Saíra para a rua por volta de
quatro da tarde, quando tudo enfim já houvera acabado, e a dor se fazia sentir
mais desumana que nunca, na esperança de encontrar o seu amigo para desabafar,
mas só poderia fazê-lo quatro anos depois (que ironia!), e pelo mesmo motivo
nas terras dos aztecas. Definitivamente, ao contrário do que alguns diziam,
chegara à conclusão que Deus não era não brasileiro.
Até hoje não sabe recordar o
que fizera nas horas seguintes. Chorar? Talvez. Se ainda houvesse lágrimas.
À noite, buscou respostas na
sabedoria do pai que jamais lhe faltara. Porém, mesmo ele, parecia não ter
respostas. É que há coisas que não se explicam. E o futebol está cheio delas.
Por isso fascina.
A resposta, se havia, era
aquela máxima que as pessoas que conhecem futebol sabem muito bem, embora não
admitam: o futebol é o único esporte coletivo em que o mais fraco pode ganhar
do mais forte.
Passados 32 anos percebe,
entretanto que nem essa resposta pragmática cabe perfeitamente para justificar
o fato em si porque o adversário naquele dia 5 de julho de 1982, nem era assim
tão fraco. Afinal, viria a ser o campeão.
Então, por Deus, por que
acontecera a derrota de um time que se demonstrava imbatível?
Perder? Aquele time? Um fato
tão fora de propósito que talvez a própria história se envergonhasse de
abrigá-lo entre os seus. Nem o estádio em que se deu a tragédia existe mais.
Dizem que virou estacionamento de supermercado. A voz que narrara para uma
emissora de tevê e para todo o país com exclusividade os acontecimentos
calara-se para sempre havia poucos dias. Ambos, porém, acham-se imortalizados
nos registros das imagens e do áudio daquilo que ficou conhecido como a
Tragédia do Sarriá. Não a tragédia de um estádio. Mais exatamente do
futebol. Que nunca fora o mesmo de novo no que se refere à beleza de uma
arte incomparável, baseada na harmonia de movimentos, e ações corporais de rara
habilidade. Um espetáculo que ainda reúne multidões ao ar livre, mas sem a
mesma, graça, emoção e competitividade, ou seja, como o futebol deve ser
jogado: com habilidade e eficiência, classe, arte e coração.
Esse futebol de sonhos acabou.
E já faz 32 anos. Foi no dia 5 de julho de 1982, em Barcelona, Espanha, durante
a 12ª. edição da Copa do Mundo.
Culpados? Ninguém. Nem mesmo
um sujeitinho chamado Paolo. Talvez a famigerada má sorte. Afinal, futebol é um
jogo. E num jogo não se conhece justiça.
Vítimas? Todos nós, amantes do
bom futebol. Mas, em especial, um menino de 13 anos de idade, que naquele dia
não pudera comprar o seu jornal preferido, porque sem perceber gastara todo o
dinheiro com rojões, exatamente três. Um, ele o tem guardado até hoje.
* Crônica publicada no site Guia Rio Claro: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=206003910

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