De
Geraldo J. Costa Jr.
Iniciado
em 17/09/2011 – às 17h02.
O
lugar tinha a alcunha de A Cidade Azul,
embora eu não entendesse o motivo.
Havíamos
chegado aos bandos, estropiados, doentes, famintos. E tais desgraças fizeram
com que muitos de nós, em um breve espaço de tempo sucumbíssemos à uma
atmosfera de marasmo, inércia, que, feito vírus letal foi se espalhando por
nossa consciência, nossos sentidos, nos envolvendo num torpor que, aos poucos,
ora nos tragava para um abismo sem fim, uma escuridão assustadora; ora, nos
conduzia à contemplação submissa de retratos, réplicas de situações e
construções, eternizados diante de nossos olhos; como se o tempo não passasse,
as pessoas e as coisas não se movessem, a vida não existisse ou estagnada
estivesse por algo maior e mais poderoso que a própria vontade de Deus.
Todas as manhãs eu descia aquela rua até
chegar ao outro lado do vale, a parte alta, onde ficava o lugar que mais se
parecia com um hotel decadente. Cruzar a longa avenida sinuosa, em cujo
canteiro central escondia-se um córrego canalizado não era problema. E saber
disso, foi o primeiro momento de satisfação, o único depois de muito tempo, que
experimentei desde minha chegada àquele lugar.
No
hotel decadente, muitos não passavam da porta de entrada, não por falta de
mérito, mas por absoluta falta de fé, de acreditar que as coisas poderiam
começar a ser diferentes, melhores.
Acostumado
a toda má sorte e humilhação, infortúnio e penúria, mesmo assim eu me comprazia
daqueles homens e mulheres, jovens e velhos, crianças. Vindos de toda parte.
Atraídos pela energia amorosa, restauradora, aconchegante, atraente e
irresistível que envolvia aquele lugar, tão imenso para os nossos olhos, tão
imenso, alto demais, que parecia não ter fim, apesar de sua única porta de
tamanho apropriado para o acesso de uma girafa caso fosse necessário.
Porém,
antes de conhecer aquele abençoado lugar, casa de oração, pronto socorro dos falidos
na fé e no amor, conheci outros, naquela mesma cidade, e não muito distantes
daquele. O mais assustador e deprimente ficava na direção em que o sol se
levanta. Não era habitado ou sequer visitado pela espécie humana havia muito
tempo, mas tinha vida. Era um lugar em que os raios de sol para alcançar o chão
precisavam com toda determinação só perceptível aos poetas que declinam no
papel as suas dores, rasgar as copas das árvores altas e de troncos enormes,
que nem uma dezena de homens conseguiria abraçar. O lago, escondido pela
neblina de cada manhã, tinha ares de abandono. Em seu leito, perdiam-se enormes
galhos de paus d’água, arrancados pelo vento, geralmente ao final de tarde e
com mais frequência durante a noite, quando o vento tornava-se mais forte como
se soprado fosse pela desilusão de muitos transformada em revolta.
Tomei
a estrada distante dos demais e segui caminhando, sozinho, tentando não pensar
em nada, afugentando de mim aquelas lembranças que ganhavam uma atmosfera de
medo e incerteza à medida que se aproximava a noite.
Minutos
se passaram sem que eu me desse conta, observando apenas a claridade entre os
eucaliptos que iam aos poucos abandonando o chão jamais pisado pela espécie
humana.
Em
dado momento durante o percurso um córrego ali perto, próximo à margem da
estrada despertou-me atenção e senti-me tentado a tomar o atalho entre os
eucaliptos que me levaria até ele.
Resisti.
Porque o medo se fizera maior. O medo de deparar-me de novo com a morte. Porque
diante de meus olhos estava a cena que me acompanhava desde criança. Meu pai,
usando de todos os recursos disponíveis que a medicina lhe permitia, e com
desespero, força, suor e determinação, o máximo de sua fé, tentava trazer ao
mundo aquele bebê índio, filho de um casal, muito estimado amigo seu.
Vi
o impossível para a minha fé inabalável. Vi meu pai perder a batalha, O bebê
veio ao mundo, sem chorar, sem se mexer, sem vida.
Nada
pude senão em silêncio conter as lágrimas. Mas a tristeza, a falta de esperança
e iniciativa do índio amigo de meu pai, e pai do natimorto permanecem até hoje
na minha lembrança. O momento em que ele, o índio, deixou a cabana onde vivia
com sua família, e retirou-se para dentro da mata, indo perder-se à margem de
um córrego onde sentou e permaneceu até o cair da noite, sem ao menos perceber
a minha presença à distância, a observá-lo, ouvindo seu lamento, que, embora
longe, ia penetrando minha alma, torcendo-a como um novelo de linha, daqueles
que minha mãe usava para fazer seus trabalhos de tricô e crochê.
Eu
tinha 9 anos de idade, talvez um pouco menos.
Quê
importa isso agora? Nada.
Aos
9 anos de idade, eu tinha um caminho a seguir e que me levaria de volta para casa. E essa é
toda a diferença, entre aqueles dias, e os dias de hoje.
Mesmo
assim, evitei o atalho que me levaria ao córrego, e segui adiante, por aquela
estrada, forrada por folhas de eucaliptos.
Ao
alcançar a ponte, parei um instante, e fiquei a observar as águas do rio,
vencendo as pedras, contornando os obstáculos, sobrepujando os troncos das árvores,
levando consigo as algas, para longe. E acreditei por um momento que poderia me
precipitar naquele rio, por onde, talvez, com um pouco de sorte, poderia
encontrar o rumo de casa.
Mas
todas essas ideias eram vencidas facilmente pela realidade, algoz impiedosa da
esperança.
Já
era noite e eu ainda não havia vencido o longo percurso que me levaria à área urbana
da cidade.
Podia
ouvir os chacais ao longe, e deveria por esse motivo alcançar logo o obelisco e,
em seguida, logo em seguida, o pátio da estação ferroviária, desativada, morta,
esquecida, mas que nos servia de refúgio e esconderijo.
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