Qual o pretexto que o faz ir para frente do
computador? Trabalho? Estudo? Aquela música que você jamais encontrará de novo
nas rádios, exceto se você, feito eu, ouvir o Programa do Jota Flores pela
Rádio Clube de Rio Claro AM 850, viajando... viajando...
Vá lá, Vsa., voltemos ao computador. Essa máquina
monstrenga, gigantesca e inacessível há pouco mais de 30 anos, e que hoje, se a
gente bobear, acaba cabendo na palma da mão. E vai mesmo. Logo, logo. Duvida?
Bem, há outros motivos menos dignos para ligar o
computador. E acho que não preciso tecer maiores comentários a respeito, não é
mesmo?
Fiquemos então com as redes sociais. Não que elas
se constituam motivos mais dignos que os redtubes,
tubegalores e as brasileirinhas da vida. Claro que não. Mas acontece que ali, no face
to face das redes sociais, nem tudo é verdade, ou é o tanto que o mundo virtual
permite. Mesmo assim, para o bem e para o mal, você pode expressar sua opinião,
expor preferências, compartilhar afinidades, e destruir reputações. E fiquemos
com o lado bom da história: construir sonhos, que duram enquanto dure a sua
navegação.
Perder emprego por causa das redes sociais? Sim, também
é possível. Viram o que ocorreu ao inofensivo funcionário da Casa Branca,
recentemente? Pois é. Foi falar o que não devia.
Vê-se que o espaço virtual não é tão assim
democrático, como apregoam alguns mais empolgados. É que ele é manipulado pela
mente e coração humano, que ainda não tolera certos comportamentos que, direta
ou indiretamente, de alguma forma contribuam para o abalo do Sistema. Trocando
em miúdos: não tolera interesses contrariados. Ainda mais quando tais
interesses estão carne e osso envolvidos com poder: o político e o econômico.
Os tabletes prometem enterrar os computadores de
mesa. Já abalaram terrivelmente a sempre boa reputação dos livros impressos.
Imagine o tamanho da tragédia. Um país feito o nosso, constituído de gente
(sim, é verdade!) que em sua maioria é absolutamente avessa ao livro, que
repudia a leitura, a menos que ela seja sobre sacanagem, receita de bolo,
bilhete da loteria e palavra cruzada... Ah, horóscopo, ia me esquecendo, e
resultado da rodada do final de semana, do futebol, claro. Capítulo de
tele-novela? Chega de tragédia.
Sim, caro leitor, gerações perdidas para a falta
de hábito da leitura de um bom livro. E olhe que eles não faltam. Nunca se
publicou tanto neste país. Autores nacionais e estrangeiros. Tem de tudo. Do
mais ilustre ao menos conhecido. Do melhor ao pior. Salgado o preço do livro,
você pode estar pensando, enquanto o bonitão aqui, se esforça para encontrar
argumentos que o estimulem a tirar a bunda da cadeira, os olhos do maldito computador
e sair à cata de um bom livro. Acho que não vou conseguir. Mas enquanto você se
decide, finado leitor, eu persisto na minha hercúlea e inglória batalha.
Já decidiste? Vou lhe dar uma sugestão. Você não
precisa de um livro novo. A menos que seja um A Tarde Demora a Passar ou O
Intermediário, ambos do papai aqui. Por R$15,00 você leva qualquer um
deles. Aproveite, preço de promoção. Vou lhe dar meu telefone... Depois, mais
adiante, ao final do texto, prometo.
Muito bem, meu caro e paciente leitor, como ia lhe
dizendo, para se entregar ao fascinante mundo da leitura que um livro impresso pode
lhe proporcionar, você pode optar por uma biblioteca municipal. Faz a fichinha,
retira o livro, e o devolve na data aprazada. Não vai fazer feito alguns
sujeitinhos metidos a cronistas e que sempre acabam atrasando a devolução. Perdoe-me,
Madalena! Prometo que será a última vez.
Outra boa opção são os sebos. Que cidade não os
tem? Geralmente bem instalados, e onde trabalham pessoas que de fato gostam e
entendem de livros, digo, histórias, poesias e autores.
Tá, finado leitor, agora me diga que você pode baixar
pela internet uma infinidade de livros que se acham em domínio público.
Pois vou lhe dizer uma coisa. Estou com Pergunte ao Pó do colega umbralino John
Fante, no disco rígido do meu velho, virulento, próstata fundida, diabético
assim, feito eu, e receio que assim feito eu, cupinizado da cabeça aos pés,
pelo inseto letal da família, mais conhecido como câncer. E olha, deixa eu lhe
dizer uma coisa, uma grande novidade, uma bombástica surpresa: até agora,
coleguinha, não li uma linha sequer do fossilizado Ask the Dust. Porque todo livro transformado nos pdf’s da vida,
para mim, é como um livro fossilizado.
Aproveitando, inclusive, se alguém tiver Pergunte
ao Pó, ou qualquer outro livrinho do Fante, no formato tradicional, impresso, e
quiser doar-me ou emprestar-me, por favor, estou às ordens. Vou lhe informar
meu endereço, boa alma. Mais adiante. Ao final do texto.
Livros tradicionais são ótimos, entre outras
coisas, porque independem de senhas, logins, spywares, avast’s da vida, e energia
elétrica e alguma paciência para conviver com modorrentas conexões. Basta uma boa
luz, um cantinho, silêncio e solidão. Tudo
o que a gente menos tem hoje em dia, né? Pobre livro!
Minha ideia inicial era, acho que já deu pra
perceber a mancada, comentar sobre a influência e dominação do maldito
computador e das redes sociais em nossas vidas, cada vez menos nossas. Já não
vou muito com a cara desse sujeito de nome PC, e depois que durante a
narrativa, deparei-me com o estrago que ele anda causando no hábito da leitura
de livros que o brasileiro, sabe-se lá desde quantas gerações ainda não possui,
fiquei mesmo “P” da vida.
Todos os dias, acordo no cafofo nojento e pequeno
onde moro, e a primeira coisa que vejo é a esfinge eternizada em um bonito
quadro pela minha amiga do coração, Rosana F. E depois, os livros na velha
estante. Livros que adquiri, roubei (confesso, e pra isso tenho cem anos de
perdão, espero); livros que emprestei e não devolvi; livros que foram de meu
pai; é sua valiosa herança. Não me deu riqueza, mas me ensinou a pensar, a não
aceitar o que está escrito e o que dizem as pessoas, por meio da palavra
escrita, sem antes checar as fontes, os interesses contidos por trás daquela
informação que tanto pode estar em um romance, uma novela, um poema, como em uma
matéria jornalística, um tratado, um depoimento, um ensaio. Nunca demais
lembrar o que dizia o poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929): Nada
se torna realidade na política de um país se antes não está presente, como
espírito, na sua literatura”.
De minha parte, e computadores fora, acredito que a
tragédia humana mais significativa dos nossos tempos, é que os livros, não
importam onde estejam ou sob a guarda de quem se tornaram, infelizmente, sem
que nenhum esforço contrário houvesse de nossa parte, como cadáveres
insepultos. Da ignorância que sua ausência em nossas vidas nos causa, é que se
iniciam a injustiça em todas as suas faces, é que determina essa alienação
atroz que deforma a mente e torna o coração insensível e os olhos cegos.
PS : Ah, o meu
endereço e telefone? Xi, esqueci. Faz assim leitor: Aguarde até a próxima
crônica, por esses dias.
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