Não sei se por obra da
Providência Divina, a fim de curar minha ansiedade, ou me chatear mesmo, mas o
fato é que as coisas sempre demoram absurdamente para acontecer na minha vida.
Iniciei na escola aos 7
anos de idade, já na primeira série, talvez porque minha mãe, sempre preocupada
com a minha segurança, achasse perigoso
eu atravessar os 50 metros que me separava do portão de casa para o da
escola.
Nada! Eram os remédios
que eu tomava desde os 3 anos de idade e tomaria até os 12 que mal permitiam
que eu parasse em pé, e foi assim até que meu organismo à eles se acostumassem
o que levou um longo e penoso tempo. Foi o preço que tive de pagar aqueles anos
todos pra não ter convulsões durante as quais eu me debatia, virava os olhos,
mordia a língua, suava, tremia da cabeça aos pés. Imagine! Coitadinho! Aquele
menininho lindo, loirinho de olhos azuis. Que pecado!
Mas não foi só isso.
Fui ser pai aos 27 anos, o que para os da minha geração é um tremendo e imperdoável
atraso. Publiquei meu primeiro livro aos 43. E a essa altura do campeonato o
curioso leitor deve estar se perguntando sobre a primeira transa. Ah, sim, ia
me esquecendo! Não conto.
Modos que, como diria o
Didi, isso me faz recordar de um lugar onde eu deveria permanecer apenas 3 anos
e fiquei quase 6. Um lugar enorme, com vários pavilhões, pavimento superior,
cercado por muros. O lugar onde fui apresentado para o Sr. Destino, não me
lembro ao certo se foi sentado numa das escadarias que, por assim dizer,
funcionavam como parada obrigatória a quem percorresse, feito eu, aquele
corredor que parecia interminável. E que naquelas manhãs de outono era
atravessado pelos raios de sol, entre os vãos que havia entre uma coluna de
sustentação e outra.
Lembro-me desses fatos
e escrevo estas linhas com a melodia densa e penetrante, dolorosamente poética
e infernal de Last Night I Dreamt That
Somebody Loved Me.
Lembro-me de quando ali
cheguei, graças obstinação de meu pai para que seu filho caçula vingasse os
seus fracassos. Perdoa-me, pai!
Vindo do Monsenhor
Martins, escola então estadual e que tinha até a 8ª. série, inclusive em
período noturno, onde eu havia passado durante 8 anos as melhores manhãs de
minha vida, eu chegava ao Chanceler Raul Fernandes onde seria apresentado ao
Sr. Destino. De Monsenhor para Chanceler, sempre fui nojento, mesmo!
No primeiro dia em que
botei os pés naquela escola, foi como se eu tivesse sido arrancado dos meus e
sido jogado em um navio enorme, cheio de gente estranha e hostil. Gente que
olhava para mim com mórbida curiosidade e como se eu tivesse pendurada ao
pescoço uma sugestiva plaquinha onde se lia: Estrangeiro.
Aquele era um tempo em
que estudar no Monsenhor era sinal de status, e os mais burrinhos iam tentar a
sorte no Barão de Piracicaba. Percebam que sempre estive rodeado por gente
importante. E depois da 8ª. série, restava o Chanceler, por falta de opção,
mesmo, para os que não podiam pagar uma escola particular.
A primeira vez que me
deparei com aqueles corredores? Não me lembro. Talvez, as tais lembranças se
referem à segunda, terceira vez, não sei.
No intervalo, eu me
juntava a alguns companheiros de classe, os quais jamais eu pude chamá-los de
amigos, sentávamos em uma daquelas escadarias. Aquela dava acesso ao
anfiteatro, a seguinte, a cozinha, digamos assim, onde era ministrado o curso
de Nutrição. Minha classe ficava no térreo do primeiro pavilhão, logo à
entrada, virando à direita. Era uma classe minúscula onde nos amontoávamos em
carteiras desconfortáveis, menores ainda, nas quais era preciso encolher as
pernas, virar o quadril a cada 5 minutos, e onde Dona Lurdinha, sem abrir mão
do seu indefectível guarda-pó branco tentava com todo o empenho nos ensinar
Matemática.
Eu odiava cortar o
cabelo, meus tênis eram dos mais baratos, e minhas roupas adquiridas nas
liquidações da loja Pelicano, ou eram sobras dos melhores dias do meu irmão
mais velho.
A partir daquele ano, a
bordo da minha veloz bicicletinha, comecei a ajudar meu pai no escritório,
fazendo serviços de rua: clientes, bancos, repartições públicas. Ganhava uns
trocos. Dava pra comer um lanche aos sábados à noite com o Nê o Tato, dois
amigos de infância, depois do filme que assistíamos no finado Cine Excelsior.
Agora me dou conta no
período em que freqüentei o Chanceler (se dissesse estudar estaria mentindo),
moramos eu e meus pais em cinco casas diferentes.
Foi quando morávamos na
última delas que o fato se deu. Fui a apresentado ao Sr. Destino. Eu já tinha
17 anos, frequentava as aulas à noite, e jamais passara pela minha cabeça
certas insanidades como casar, ter filhos, namorar sério, escrever.
Chegava em casa, depois
da aula, arranjava na cozinha algo pra comer, ia pra sala, ligava a tevê e
ficava assistindo ao babaca do Amauri Jr. e admirando aquela gente idiota cheia
de pose falando asneira e demonstrando felicidade apenas pelo fato de estar
diante de uma câmera e um microfone. É como o finado Tomas Adler vive me
dizendo “É boy, a humanidade realmente
não tem cura”.
Alguns amigos já
estavam na universidade, e outros, feito eu, ignoravam que o tempo haveria de
passar, que não teríamos para sempre 17, 18, 19 anos.
Um dia, descendo a
Avenida 40, em direção ao Chanceler, eu fui apresentado ao Sr. Destino. Cheguei
à classe, ocupei minha carteira, abri o caderno e comecei a escrever. Foi
assim. E as aulas transcorreram sem que eu me desse conta. A escrita fluía
naturalmente sem que eu tivesse consciência do seu conteúdo. Algo que só fui
saber, depois de chegar em casa, naquela noite, trancar-me no quarto, e ler uma
dúzia de vezes o que havia escrito, enquanto ouvia no radinho de pilha,
presente de minha mãe, a Last night I
dreamt that somebody loved me, Tempo Perdido, e All my colours, sem saber
que quem a cantava esta última tinha o mesmo nome do cara, igualmente vocalista e
compositor, cuja triste história eu tomara conhecimento lendo um jornalão da
capital na biblioteca do Centro Cultural, numa daquelas tardes vadias a me
perder em pensamentos e paradas bruscas enquanto caminhava a esmo no entorno do
Lago que ainda não era Azul, era uma taboca, hospedaria de sapos, rãs, grilos,
besouros e pernilongos.
Lembro que se fez dia e
naquela manhã eu deveria me apresentar na Junta Militar, que então funcionava
na Rua 4 com avenida 8, no centro da cidade.
A partir de então, os
corredores do Chanceler passaram a ter para mim outro significado.
Nos intervalos das
aulas, solitário, ainda que em meio tanta gente, eu os percorria vendo coisas,
ouvindo vozes, que, horas mais tarde se transformariam em palavras, frases,
histórias, eternizadas no velho e deteriorado caderno de Matemática que deveria
ter as matérias passadas pela Dona Lurdinha. Deveria.
Agora começo a entender
porque levei 30 anos pra escrever esta crônica.