Muito daquilo que as pessoas admiram
como obras de arte talvez jamais teriam havido não fossem o álcool e as drogas, o
sexo e a promiscuidade. Difícil saber o que vem antes e o que vem depois. Mas
para efeito de entendimento do que se pretende aqui expor isso pouco importa.
Importa é admitir ou refutar, que para
atingir a dimensão de liberdade plena o ser humano necessita ir além da sua
zona de conforto e segurança. Algo extraordinário para as pessoas simples que encaram
a vida com responsabilidade e praticidade, e algo absolutamente normal para os
artistas de gênio, por exemplo.
Não pensem, entretanto que essa genialidade se
obtém gratuitamente. Ela tem um preço. Geralmente impagável. Mas essa troca
“dou-lhe meu coração e minha mente e terás minha alma”, é uma relação tão
indecente, possessiva, é algo tão sórdido, mesquinho, destrutivo que jamais
termina com final feliz.
É um jogo de espelhos o fenômeno da
criação para o artista. Ele é a vontade e o instrumento, mas sozinho, pouco ou
quase nada pode. Ele precisa ir além, ultrapassar a lucidez de sua consciência,
ampliá-la, cruzar a fronteira entre a lucidez e a loucura, onde nada possui
forma, embora tudo esteja à disposição da vontade de quem feito o artista deseja
se expressar.
Ora, então porque a opção pelo uso do
álcool e das drogas? Simplesmente porque tais substâncias alteram o estado de
consciência humana, amplia seus horizontes, faz o ser humano ver além dos olhos
e sentir além do coração. É um degrau a mais, talvez o patamar mais alto da
escada da percepção. E, portanto, o mais perigoso e o menos recomendável para quem teme e não deseja conhecer o Inferno.
Pergunte-nos então leitor, sobre a
inspiração. Ela seria a mensagem, o símbolo, o código decifrado, que é trazida
espontaneamente por alguém ou alguma coisa que deseja se manifestar ludicamente? Ou que é buscada por alguém disposto a emprestar sua individualidade, ceder seu
território, e, portanto, sua liberdade de ação e escolha e domínio de si mesmo,
porque para viver ou para suportar a existência precisa dar a ela, a existência, algum
sentido, conhecido como Arte? Quem terá as respostas?
Pobres são os artistas de gênio. Sacrificam-se
em nome do Nada. E quando percebem isso já estão escravizados, submissos,
dependentes dessa necessidade de se expressar, tanto quanto estariam ou talvez
já estejam dependentes do álcool e das drogas.
Todavia, essa afinidade de pensamento,
vontade e ação, entre lucidez e a loucura, entre a realidade e a fantasia, proporciona
uma sintonia e essa, a realização do fenômeno criativo. Animismo, mediunismo, inspiração, dêem a isso
o nome que quiserem a natureza sobre tal fenômeno criativo e porque razão exatamente
ele ocorre longe está de ser obtida.
Desejar entender esse fenômeno é
compreensível e talvez se torne possível algum dia. Querer defini-lo em
palavras, dar-lhe forma, absorve-lhe o conteúdo, provavelmente jamais. Seria uma
tola tentativa como aquela que pretende identificar qual a matéria-prima da Criação.
E essa comparação, deve-se admitir é bem ridícula.
Em se tratando dos artistas de gênio, ou
a maioria, talvez a verdade consista no fato de que sem o álcool e sem as drogas,
não haveria os salmos do Rei Davi, o homem Vitruviano de Da Vinci, não haveria
os afrescos de Michelangelo, os dramas de Shakespeare, ou melhor, Lord Francis
Bacon; os poemas de Baudelaire, de Rimbaud... de Rilke. Nem as melodias eternas
e cada vez mais bonitas e interessantes dos Beatles, nem tão pouco as de Elvis
Presley. Não teríamos conhecido as almas nuas de Modigliani, as telas de
Picasso, de Caravaggio, as cenas de Copolla, Chaplin, Spielberg, Lucas. Jamais
conheceríamos Sal Paradise, Dean Moriarty, não sentiríamos pena de Kerouac,
Bukowski... Não admiraríamos Fitzgerald, nem teríamos inveja de Faulkner, e
muito menos raiva de Ginsberg. Continuaríamos sem saber por quem os sinos
dobram. Clarice não existiria, tão pouco Lima, muito menos Graciliano.
Angústia! Que seria isso, Renato? Enfim, Dante não visitaria o Inferno. E Pessoa não nos
traria Tabacaria.
Talvez, num pretensioso exercício de
futurologia, não haveria o outro modo de sonhar que a arte genial proporciona,
porque o ser humano, o artista de gênio, à custa da vontade e de um copo d’água
é geralmente incapaz de sair do chão, de sentir, de enxergar um palmo além dos
seus olhos, de buscar o que existe além da sua mente e do seu coração, e o que
e porque se manifesta, e de que modo.
Por isso, se admiramos a arte em suas
diversas formas de expressão, principalmente quando ela extrapola a mesmice e
se torna imensa, extraordinária ao nosso entendimento e aos nossos sentidos,
não custa pensarmos muito bem antes de criticarmos e ironizarmos, de
submetermos a equivocados juízos de valor, de acusarmos precipitadamente, os
artistas de gênio, que sacrificam suas vidas em nome do Nada.
Porque, de modo espontâneo, ou levados a
isso, eles abdicam do seu direito de ser feliz e de viver como qualquer outro
ser mortal, para que a maioria de nós, possa sonhar e apreciar a beleza, a força, a
graça, o destemor e todas as surpresas e nuances que a vida pode nos oferecer,
desde que estejamos dispostos a isso. Com uma vantagem: sem que nada nos custe
senão tempo e algum dinheiro. Algo, entretanto, só possível na dimensão da
fantasia.