Precisava apenas relaxar, concentrar-se e
perceber os acontecimentos do mundo à sua volta, a uma distância segura, para
não se envolver com eles.
Para tanto, havia procurado refúgio no
isolamento de uma casa no meio da floresta à beira de um lago.
Lá chegara cheio de esperança. Mas, depois de
uma semana, experimentava agora um incômodo sentimento de frustração.
Naquela manhã, diferentemente das outras,
acordara bem cedo, e caminhara pela margem do lago, cerca de um quilômetro e
meio.
A cada dez metros interrompia a caminhada e
ficava olhando na direção do lago, fascinado pelo poder que a natureza possui
de reconduzir o homem à sua insignificância.
Propositadamente, não trouxera consigo
documentos, dinheiro e pertences pessoais. Apenas três mudas de roupas,
suficientes para aquela semana.
Propusera-se a se alimentar de peixes, e se não
os pescasse, não se alimentaria.
Talvez a fome lhe devolvesse a disciplina. E a
necessidade, o desejo de conquista.
Alguém, que não fora ele, escrevera que a
ignorância é a comodidade da sabedoria. Tolice. Nunca se convencera disso. Sempre estivera disposto a lutar até o
esgotamento de suas forças para alcançar os seus objetivos, os quais não
compartilhava com ninguém, porque cada luta era a luta de cada dia, e uma luta
pessoal. Jamais lhe perturbara a certeza de que mesmo os vitoriosos trazem no
corpo cicatrizes e na alma, feridas.
Às vezes, para conviver em meio aos ignorantes,
precisava perder a lucidez. Não fazem isso também os anjos? Não se rebaixam aos homens para se fazerem
ouvidos?
Voltou a caminhar próximo à margem do lago,
exatamente onde a natureza agonizava. Acusou a temperatura agradável da água, e
convenceu-se a dar um mergulho, mesmo que isso contrariasse o seu bom senso e as recomendações
médicas.
Ao emergir, os raios de sol ofuscaram o brilho
dos seus olhos verdes.
Outro mergulho e se deixou envolver por inteiro por
uma atmosfera de liberdade e perdição que só as águas proporcionam. Perdera
naquele momento a lucidez e o equilíbrio, da mesma forma como Adriana o fazia
perder a compostura, toda vez que o agarrava pelas costas, inesperadamente, num
lugar qualquer, o menos provável e o menos indicado.
Por que não um pintado na brasa? – ele pensou de
repente – Talvez dois, com um pouco de sorte.
Mas naquele entardecer os peixes ficariam esquecidos sobre uma
folha de paineira, no chão, à margem do lago, porque Adriana não iria prepará-los.

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