E
são 10 para as 4 da manhã. E estou diante do computador fazendo aquele
rastreamento necessário pra entender o que anda pensando e fazendo as pessoas.
O que acontece no mundo. Se o massacre na Síria continua. E faço tudo isso
ouvindo as minhas favoritas no Kboing até porque é mais prático, sabe. Dois ou
três cliques e já está rolando There is a light that never goes out, Black,
Bitter sweet symphony, Overkill.
É
uma tentativa de reprimir de modo lúdico as segundas intenções que, nesta noite
maldita de sábado de julho que já se vai, do ano perverso do mundo que ainda se
acaba indo, ficaram de novo pelo meio do caminho. Ou melhor, ficaram pelo lado,
ou seria de lado, sei lá... Ficaram. Onde sempre ficam: na guia da calçada, na
privada do banheiro, na mesa da cozinha, de onde se vê o céu ficando vermelho
aos poucos, pra depois se tornar azul, ficando na lembrança. Adoro gerúndios!
Talvez
seja por isso que caras feito eu acabam ficando acordado às 4 da manhã. Sim, já
se passaram 10 minutos, pra escrever, nada de importante não. Nada de poema,
poesia, romance, novela, conto,versinho boboca. Frasesinha esperta, sim, talvez.
Com um pouco de sorte. E à custa de pão com mortadela,Coca-Cola geladinha,
ainda bem, nada mal, e sempre se consegue.
Walk
in. Silence.
E
me deixo levar de novo por essa atmosfera que as
pessoas não compreendem, algumas não aceitam. Mas é onde vive a maior parte do
tempo, sujeitos feito eu.
Não.
Não faça isso com você. Mais uma tentativa frustrada da Sra. Consciência, mas
eu me vou. Eu sempre vou. É onde encontro paz. É onde é possível esquecer a
estupidez da vida humana e suportar o peso do mundo nas costas.
Fecho
os olhos e penso. E já é outro o ambiente. Dedo polegar unido ao indicador da
mão direita, cotovelo apoiado na mesa. A cabeça se abaixa lentamente, como se o
espírito, este que vos fala, finado leitor, se entregasse ao seu habitual
sacrifício, sem o qual não pode, não consegue viver. A testa, então se aproxima
e se encosta-se à posição em que se encontram os dedos da mão, e num gesto que
se parece eterno e que nem mesmo Rodin conceberia tão original. Acabou a
Coca-Cola e devo recorrer-me à água. Da pia. Do banheiro. Da privada ainda não.
Mas só o farei depois.
As
garrafas de água, bem entendido vão se acumulando pelos cantos. Por que pelos
cantos? E enquanto isso, carrega o vídeo do professor Olavo. Adoro esse cara,
ele me faz rir e me consola. Afinal, sei que já tenho companhia no inferno
daqui algum tempo.
Eu
passei a tarde cometendo idiotices. Gastei R$20,00 pra sentar em um cimento
esburacado e ver um bando de pernas-de-pau tentarem (não conseguiram) jogar
futebol. Pior, perdemos. Sim, nós, os torcedores do Velo. Porque, os
jogadores... Ora, e essas horas, provavelmente estejam com suas namoradas e
amigos tomando umas brejas, curtindo um som. Aquele som caipira, que eles acham
que é som. Tudo bem, nada mal. Conforme-se, nobre infante, o mundo é dos bons;
eles herdarão o mundo, não se esqueça.
Outra
coisa idiota que fiz à tarde. Comecei a ler o calhamaço do Sr. Rubem, que
peguei no Gabinete de Leitura pela manhã, com a sempre atenciosa Jô. São
precisamente quase 800 páginas (gostaram da brincadeira?) ou 64 contos como
queiram. E o primeiro deles, que encontrei e enfrentei, ao abrir, assim,
aleatoriamente o livro, adivinhe qual? As agruras de um jovem escritor, que
começa na página 225, e é ilustrado pelo carimbão do centenário e não menos
nobre Gabinete de Leitura, mais conhecido como Biblioteca Municipal (ou seria o
contrário) ou menos conhecido (isto certamente sim) por Lenyra Fracarolli, da
cadernetinha verde, e rabiscada. Esqueçam tudo isso. O livro do Sr. Rubem é
ótimo, apesar da capa e do Eloy Martinez. Eu é que morro de inveja.
Bom,
a inveja é um daqueles sentimentos que nos faz lembrar que ainda estamos vivos.
Que precisamos tirar a bunda da cadeira. Ainda bem que é da cadeira, pois não.
E colocar a vida em movimento. O ou que resta dela. Pra que a vida, a nossa,
possa ser lembrada, ao menos pelos nossos desafetos, que, como todo homem que
se preze, são muitos. E eu não acredito que estou acordado às 4 e 31 da manhã
de domingo, conforme o relóginho do computador, pra escrever essas merdas.
Pois
sim. Quando se chega a esse ponto é sinal que já se perdeu o ranço de dignidade
que restava. As ideias, o estímulo, para produzir algo mais consistente, menos
superficial, quem sabe um conto, talvez um romance, não existe e então se
flerta com as palavras com cronicazinhas besta feito essa. E é como o sujeito
que, depois de anos de casado e bom desempenho e se reconhece traído, chuta o
balde, surpreende-se só, grudado a um travesseiro e pra não ter que apelar de
modo deprimente e onanístico, busca a redenção na primeira oportunidade que
encontra, e isto pode naturalmente ocorrer na rua, ou logo após um daqueles
bailes de forró, onde todo mundo se conhece e todo mundo sai melado de suor e
exalando o perfume inconfundível da satisfação. Ou o seu dinheiro de volta.
E
então, depois de tudo terminado, o cotovelo agora se apóia na pia do banheiro,
e a gente se pergunta, diante do espelho: Meu Deus, onde vim parar?
Receio
que precisamente às 4 e 39 da manhã de um domingo, Deus, em sua infinita
bondade, responde:
Bem
feito pra você.
Claro
que sim. Deus sempre tem razão.
Próxima
música do Kboing pra desopilar o fígado, depois do baile de forró: Tom Sawyer.
Bom pra enfrentar o rush em que se encontra a mente. Afinal, I’m so sorry.







