Há um ensinamento universal o qual afirma que estamos
vivendo no lugar certo, na hora certa, ao lado de quem mais precisamos, e temos
a nossa disposição as melhores condições que merecemos para viver.
A máxima certamente se aplica aos artistas. Por exemplo,
Raul Seixas, Cazuza, e Renato Russo, só pra citar alguns, vieram e viveram na
época certa e no lugar certo para realizar o que se propunham. Hoje, não teriam
vez e voz. Seriam taxados de politicamente incorretos pelos puritanos que se
arrogam defensores da ética e dos valores morais e acreditam falar em nome de
todos. Porque estes cometem a injustiça, a heresia de exigirem dos artistas
virtudes que eles, até possuem, mas dispensam em nome da arte. Quais sejam:
sensatez, lucidez, coerência, entre outras que fazem o gozo dos que se
pretendem paladinos da verdade, da moralidade e, portanto, perfeitos ou algo
próximo disso.
Por esse motivo, muito dificilmente se verá de novo nas
paradas de sucesso composições musicais como as desses senhores citados acima.
Não porque não existem seus seguidores. É que estes jamais terão espaço na
mídia. Ocupada, hoje, apenas pelos bonzinhos. Pelos superficiais. Descartáveis.
Ou seja, aqueles que, em nome da realização de um sonho pessoal, abraçam os
conceitos de cultura e arte impostos através da lavagem cerebral levada a cabo
por aqueles espertalhões que atualmente determinam os rumos da cultura e das
artes.
Espere um momento! – dirá você, leitor – Mas as músicas
de Raulzito, Russo e Cazuza ainda fazem sucesso. Claro, tais sucessos que
sobrevivem ao tempo, são reverberações de quem as viveu intensamente em sua
juventude, e agora se sentem orgulhosos de mostrá-las aos filhos, sobrinhos,
netos, alunos. E afinal de contas, o que é bom se estabelece independentemente
da vontade e do interesse dos espertalhões. Mas, à medida que as novas gerações
vão introduzindo novos hábitos, também as coisas que marcaram época devido a
sua boa qualidade artística e capacidade de penetração no coração e na mente
das massas, vão caindo no esquecimento porque cada vez vão ficando mais
distante no tempo.
Outro ensinamento diz que os gênios, a exemplo de
qualquer outro espírito, vão e voltam à vida humana. Porque muito dificilmente
eles conseguiriam vivendo tão intensamente em tão pouco tempo, realizar sua
obra em apenas uma existência. E eu poderia citar como exemplo
Modigliani, que, antes de pintor, fora poeta. Mas sobre isso escreverei em
outra ocasião.
Vivemos um tempo em que os medianos se destacam em todas
as áreas de atuação humana. Observe-se o que acontece com o futebol brasileiro.
De repente, o sempre farto celeiro de craques tupiniquim caiu numa secura
desgraçada. A ponto de um jogador talentoso, mas não genial, ser considerado
dessa forma. Trata-se de Neymar. Qual outro? Difícil.
Mas existe todo um sistema que faz do futebol fonte de
riqueza para alguns cuja tarefa é produzir ídolos e viver à custa dos quais
devemos admitir, se estabeleceram por sua competência. São eles: publicitários,
empresários, técnicos, jornalistas que, para continuar mantendo os seus status quo e todas as benesses que o
futebol de alto rendimento lhes propicia dependem da matéria-prima do futebol
que é o jogador, o craque. Por sinal, em falta no mercado brasileiro. Mas o
sistema que envolve milhões de dólares, reais e euros e interesses sociais,
políticos, econômicos e até culturais não pode parar. Então, criam-se craques.
Mesmo que não sejam.
É por isso que hoje, acha-se futebol na tevê em qualquer
canal e a cada 5 minutos. É por isso que, ao ligar o rádio, encontram-se
absurdos como “ai se eu te pego” e “tchu-tchá-tchá”, algo que faria o
finado Batman se revirar na tumba por tal avalanche de onomatopéias. Mas isso
vende. Enriquece meia dúzia de espertalhões. Porque satisfaz e convence um
mercado cada vez maior e cada vez mais burro e, portanto, cada vez menos
exigente, e cada vez mais flexível, sujeito a impressões e convencimentos que
demandam o menor esforço e custo, e que, em breve tempo, não saberá distinguir
a diferença entre uma salsicha e uma lingüiça.
E isso tudo acontece caro leitor por opção e interesse e
aos olhos daqueles que mais deveriam lutar pela valorização e preservação da
boa arte e da alta cultura em nosso país: seus governantes.
Chegará o tempo em que, na falta de papel higiênico se
usarão páginas de livros para limpar a sujeira produzida por hambúrgueres,
biscoitos e batatas-fritas. Se é que esse tempo já não chegou.
A grande sacada dos governos ditatoriais, sanguessugas e
dominadores, que se disfarçam atrás da máscara da democracia que tudo permite e
a todos convence, é a engenharia social, através da qual se criam mecanismos
para se obter, com a conivência de alguns traidores da liberdade de expressão,
o controle da grande mídia e, num segundo momento, o controle da cultura, este,
mais difícil, porque exige primeiro, o emburrecimento das massas, algo que se
consegue com a destruição do ensino público, com a propagação e a exaltação de
uma arte desprovida de boa qualidade produzida por uma gente desprovida de
talento, mas que faz muito bem feitinho o papel que interessa a esses
governantes. E, melhor para estes, cobram quase nada pelo precioso serviço.
Seria necessário, porém dar uma aparência de legalidade a
essa ação criminosa que se comete contra a nação brasileira. E uma forma de se
obtê-lo seria através da criação do Sistema Nacional de Cultura que, em tese,
teria como finalidade o aperfeiçoamento na gestão de políticas públicas no
setor da cultura, com a participação colaborativa entre União, Estados e
municípios. Ao menos foi isso que a Câmara dos Deputados aprovou em segundo
turno, em Brasília, no último dia 26, através da PEC (Proposta de Emenda à
Constituição) da Cultura.
Não seria excesso de zelo desconfiar dos reais interesses
que motivariam a boa intenção que o texto de autoria do deputado Paulo Pimenta
(PT-RS) apresenta. Seriam, em princípio, estritamente político-partidários e
teriam como único objetivo, contribuir para a manutenção do poder ao infinito
por parte daqueles que atualmente o detém?
O tão almejado controle da informação, que, por sinal já
se faz, através da censura que a grande mídia impõe a determinados segmentos
culturais, sociais e políticos que não se afinam com o atual Poder, é
acompanhado pelo controle da Cultura, importantíssimo para se reescrever a
História recente do país, para determinar a cultura e a arte produzida e
difundida que visariam incutir na mente do cidadão brasileiro, a necessidade de
continuar acreditando que o melhor ainda está por vir. Que é preciso ainda mais
tempo para concluir a grande obra de redenção social a qual possui direito os
brasileiros com menos recursos financeiros. Uma redenção que jamais se
completa. E provavelmente jamais chegará porque permite àqueles que detêm o
poder nele permanecer, sob o pretexto de serem os únicos confiáveis, capazes e
dispostos para realizá-la do começo ao fim.
Todavia, para se manter no Poder, sem melindres e sem
receios é preciso, assim entendem os que o Poder detém no momento, ter sob
controle a grande mídia e a cultura nacional. Para ilustrar palidamente o
que aqui se apresenta como argumento, basta observar o conteúdo dramático das
tele-novelas, que, cada vez mais, exibem como procedimento normal de conduta a
exaltação ao banditismo, as práticas homossexuais, a pedofilia e o consumo de
drogas. Basta também ouvir as programações das rádios de frequência AM e FM,
aquelas, evidentemente que ainda se ocupam de veicularem músicas.
Para esse cenário de degradação artística e, portanto,
também cultural, não há solução a curto ou médio prazo, porque a educação
pública no país está sucateada, a rês do chão. E as famílias, em sua maioria,
não se preocupam de buscarem um adicional de conhecimento e nem de transmitirem
às novas gerações sua bagagem de valores culturais e morais adquiridos com
esforço no passado.
As produções artísticas receberem incentivo de pessoas físicas ou
jurídicas é uma coisa. Agora, quando financiadas pelo Estado, deste se tornam
escravas, e por efeito dominó, tornam os artistas escravos dos interesses do
Estado. Pois que arte se imagina possa ser concebida neste caso, que não seja
aquela que vise disseminar e incutir na sociedade a ideologia, a crença, os
hábitos, e por fim os símbolos do partido governante. Produzir-se-á, sem dúvida
muitos Maiakósvski’s. Apenas se fará torcida para que os nossos não terminem
como o original.
A arte e a cultura deveriam em tese nascer da liberdade de expressão
do povo e não dos interesses de governos sejam eles quais forem, que se
apropriam da arte e da cultura para, através dos ingênuos que dela participam
continuarem a exercer o seu poder sob as suas mais diversas faces ou disfarces.
Politizar a cultura é diminuí-la em importância; é confiná-la a um espaço
parecido com aquele onde algumas pessoas vêem o sol nascer quadrado. Quando
artistas e intelectuais aceitam dinheiro de governos, sejam quais forem,
tornam-se como as rameiras que se deitam com qualquer um disposto a lhe pagar
um prato de sopa no inverno. Ser pobre não serve de justificativa para deixar
de fazer arte e promover cultura. As pessoas que agem assim são as mesmas que
reclamam de tudo e que dizem o que fariam se tivessem isso ou aquilo porque em
verdade nada fazem e nada querem senão holofote e a presença de bajuladores a
lhe beijarem a mão. Quando, na verdade, os que fazem arte e promovem cultura,
simplesmente se utilizam dos recursos dos quais dispõem.
Acreditar na boa fé dessas pessoas não é exagero. Mas
elas desconhecem que estão sendo enganadas, usadas. E se acaso, tem consciência
disso, não admitem porque tem medo de serem preteridas ou simplesmente defenestradas
desse sistema que, a falta de esperança ou impossibilidade de realização a
levam a crer único.
Arte se faz por idealismo, vocação, amor e competência.
Ou não se faz. Na vida é assim mesmo: uns nasceram para aplaudir e outros para
serem aplaudidos. O problema é que até que a realidade se imponha soberana e
por vezes de modo cruel, todos se acreditam merecedores de aplausos.
A cultura e a arte são, por natureza, expressões
espontâneas da sociedade e através das quais as pessoas deixam fluir o seu espírito
lúdico, sua fantasia, sua necessidade de auto-afirmação, seu questionamento,
seu contraditório, sua vontade de reivindicar o que acreditam ser correto e
justo, e de protestar contra aquilo que consideram errado. E lançar ideias.
Sugerir novas possibilidades. Vislumbrar outros caminhos. Buscar novas
respostas, novos horizontes. Mas isso, em nenhum momento da História, nem mesmo
à época do Iluminismo, do Romantismo, do Renascimento, do Modernismo, por
exemplo, fora bem visto e aceito e interessante aos governantes que sempre
buscaram uma de duas alternativas: eliminar ou cooptar tais inconvenientes.
Alguns, dentre estes, prefere sucumbir a abdicar de seus ideais. Outros se
vendem por 30 moedas. Às vezes, por até menos.
*Publicado no site Guia Rio Claro:http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151006928
*E também no site Autores: http://www.autores.com.br/2012070155191/opiniao/diversas/cultura-e-arte-sob-encomenda.html
*Publicado no site Guia Rio Claro:http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151006928
*E também no site Autores: http://www.autores.com.br/2012070155191/opiniao/diversas/cultura-e-arte-sob-encomenda.html

Lúcido e coerente, como sempre. Um retrato correto de nossa atualidade. Abraços, poeta!
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