terça-feira, 9 de junho de 2020

NOITE MAL DORMIDA


Havia decidido lutar até o fim. Não sabia exatamente o que isso significava. Mas estava decidido a fazê-lo.
A irmã não via com bons olhos a sua decisão. Sempre sonhara com algo melhor para ele, o irmão mais novo.
 Mas a preocupação demasiada da irmã, que se comportava como se fosse a sua mãe, lhe fazia mal, afetava o seu orgulho, porque se julgava homem formado e independente, mesmo que a realidade o desmentisse a cada manhã.
O calor estava insuportável. Suara feito bica a noite toda. Nem o leite gelado refrescava minimamente o calor que sentia. Tomara banho ainda bem cedo, banho gelado, mas de nada adiantara. Evitara secar o corpo com a toalha, deixando secá-lo naturalmente antes de vestir-se seguindo as orientações da irmã, ao menos essa.

Estavam ambos sentados à mesa naquela manhã quente de verão. Ela fazendo contas ou tentando descobrir um modo de como poderia pagá-las naquele mês. Ele, elaborando planos de como agir em face os problemas que se apresentavam, pensativo, o olhar fixo no copo de leite, ainda gelado que tinha diante de si.
Coma alguma coisa, a irmã lhe disse, notando o seu jeito introspectivo.
Pensou insistir que ele comesse alguma coisa, mas desistiu, porque não valia a pena. Não teria resposta, nem receberia um olhar da parte dele. O silêncio habitual, com que ele começava e terminava os dias, toda vez que enfrentava um problema, a incomodava. Mas sabia que não tinha meios para demovê-lo daquela condição, porque manter-se assim, era a vontade dele. E mais que vontade era a sua natureza.
Vou sair, ele disse. Não sei quando volto. Não se preocupe comigo. Você tem o meu número. Se precisar me ligue. Estarei perto. E se não estiver mandarei alguém pra cuidar de você.
Ela ouvira a tudo, em silêncio, e sem esboçar comentário, enquanto retirava a mesa do café da manhã. Ao pé da porta da cozinha, o cãozinho a observava resignado.
Um carro parou em frente à casa. Dentro, uns sujeitos de aparência nada amistosa. Ele entrou no carro, como se sua presença já fosse esperada. E partiram.
Rodaram alguns quilômetros pela rodovia que levava à cidade vizinha mais próxima. Uma pequena cidade. Dez, quinze mil habitantes, não mais. Uma cidade parada no tempo, que vivia basicamente da cerâmica instalada havia vários anos. O comércio era pouco, quase nada. Bares havia alguns. Postos de combustíveis, dois, instalados em lugares estratégicos; um na entrada e outro, na saída da cidade.
Pararam em frente a um barracão abandonado, desde que a tecelagem que funcionara ali encerrara as atividades havia alguns meses. Um guarda vigiava o local, que pertencia a uma família que morava em outra cidade, bem distante daquela.
Ele desceu do carro, que logo desapareceu virando a esquina. Finalmente a fome havia chegado, e ele resolveu que melhor seria calçar o estômago como diziam as pessoas antigas. Andou pela cidade, à procura de um lugar onde pudesse comer. Sua presença chamara a atenção dos aposentados que jogavam baralho na praça, no centro da cidade, e de algumas senhoras que varriam interessadas a frente de suas casas.
Não demorou e uma viatura da guarda municipal passou por ele, bem lentamente. Percebeu que fora observado, mas os guardas, de certo resolveram que ele não merecia uma abordagem mais minuciosa. Apenas um educado “Bom dia”.
Se precisar de algo... Mas ele não precisava de nada que não fosse um lugarzinho onde pudesse matar a fome, antes que a tremedeira de sua mão se tornasse indisfarçável, o que seria uma afronta para o seu orgulho e perturbaria a sua paz de espírito.
Ao dobrar uma esquina encontrou um bar aberto. Achou que lá talvez pudesse resolver o menor dos seus problemas: a fome.
Pediu um salgado e um refrigerante, e ocupou uma mesa de canto nos fundos do estabelecimento, onde a claridade daquela manhã de sol escaldante não alcançava. Tirou a jaqueta e a colocou sobre a mesa, ao lado do celular, e voltou sua atenção para os pôsteres de times de futebol e de mulheres bonitas e seminuas que ornamentavam as paredes do lugar.
Foi então que ponderou seriamente pela primeira vez sobre a decisão que havia tomado.
Talvez, se bebesse... Ou fumasse um cigarro, lá fora, na rua, e pudesse se sentir melhor. Mas evitou fazê-lo. Limpou a boca com o guardanapo de papel, levantou-se, agradeceu, pagou a conta e foi embora.
De novo na rua não sabia mais para onde ir nem o que fazer. Tinha a opção de ligar para a irmã, mas preferiu descarta-la, porque isso seria demonstrar fraqueza. E abominava essa possibilidade.
Caminhou algum tempo pela cidade, sem destino, acompanhado à distância pela viatura da guarda municipal. O sol foi se pondo e o dia desaparecendo, até que, já fora da cidade, caminhando pelo acostamento da rodovia, viu quando os últimos raios de sol daquela tarde, agonizaram e morreram no horizonte.
Sentiu-se de repente, como aqueles últimos raios de sol; morrendo. Tomou o último gole de água que havia dentro de uma garrafinha guardada na mochila. A boca não demorou a secar. E não havia mais água. E não haveria até o despertar de um novo dia. Caminhou até que lhe faltaram forças nas pernas e o sono acabou por derrotá-lo.
Na manhã seguinte, estava com as roupas do corpo todas molhadas pelo orvalho da noite. Havia dormido no acostamento, encostado num barranco.
A fome voltara para castigá-lo ainda mais, porque se juntava ao corpo todo dolorido. Os pés também estavam molhados, e gelados, assim como as faces, as orelhas e o nariz. Um gosto amargo na boca.
Voltara a caminhar porque outra coisa não lhe restava fazer. Lembrou que o Echo and the Bunymen havia feito um show no Canecão em 1983, e que a Fátima Bernardes aparecera com cabelo curto pela primeira vez na bancada do Jornal da Globo em Outubro de 1990. Essas coisas faziam parte do seu caderno de notas. Qual deles exatamente não sabia, porque afinal, tinha tantos que não saberia precisar a quantidade exata.
A medida da combinação, sim, ele sabia. E lembrava-se constrangido da primeira vez que dela se utilizara, ao chegar da escola, tarde da noite. Os pais já haviam se retirado para o quarto, e a casa, a partir daquele instante lhe pertencia. Fora até os fundos da casa, o mesmo lugar, onde estivera com a irmã pela última vez. Apanhou no bolso da jaqueta, a folha de caderno onde havia embrulhado uma porção do pó branco que havia ganhado de um sujeito na saída da escola.
Com isso você pode tudo, foi o que dissera o sujeito.
Escrever poesia, também?
Poesia, música e o que der na cabeça.
Quanto pago por isso?
Nada, por ora.
Sério?
Sério.
Então sorriu, desacreditando, mas segurando o produto firmemente com a mão.
Experimente. Veja se é bom.
Se não for, eu não pago. E se for, eu volto.
Pode crer.
A primeira sensação foi ver o mundo girar em sua volta, como se estivesse no epicentro de um terremoto. O som ambiente foi ficando longe de sua percepção. E faltara-lhe de repente o sentido de profundidade em relação ao espaço onde se encontrava. Os objetos em torno de si pareciam sair do chão e se movimentar. E o chão, sob os seus pés, parecia não existir. Viu-se como se afastado de seu corpo. A atmosfera tornou-se sufocante, o ar irrespirável. As mãos haviam perdido o tato, e tinha a sensação de que podia penetrar as coisas e os objetos ao contato das mãos. Perdeu então os sentidos. E quando retornou a si, estava sentado com as costas na parede fria dos fundos da casa, sob os olhos atentos da irmã mais velha, que já naquele tempo havia assumido a heroica missão de cuidar dele.
O que deu em você?
Demorou até que ele esboçasse uma resposta.
Não sei. Nada... Eu não sei. Estou confuso.
Depois de observá-lo por algum tempo, desconfiada, a irmã o ajudou a se levantar e a caminhar até o quarto. Tirou-lhe a roupa, e fez com que se deitasse debaixo da coberta. A noite já se despedia e a tímida claridade da manhã anunciava a chegada de um novo dia, quando ele finalmente conseguiu fechar os olhos e adormecer.
Passados muitos anos...
Os pais haviam morrido, a irmã havia casado, perdido um filho e se separado. E ele...
Nunca lhe incomodara que a vida jamais houvera sido como ele desejara no tempo em que iam aos bares, ele e a irmã, aos sábados, para beber e jogar sinuca. A irmã, já em crise conjugal, entrava numa conversa promissora com qualquer boa pinta que por lá aparecesse. E, ao final da noite, à hora de voltar pra casa, antes que o marido retornasse do plantão médico, cabia a ele, o irmão, arrancá-la dos braços do idiota sem noção que pretendia parar com ela num beco escuro qualquer.
Lembravam-se disso, às risadas, enquanto esperavam por atendimento na sala de curativos da unidade de saúde, onde ele, uma vez por semana, ia remendar os trapos no qual haviam se tornado os seus pés.
Tinha agora, 40 anos e a irmã 48. E era ela que o conduzia na cadeira de rodas, que ele conseguira em doação, da parte de uma ouvinte do programa sertanejo de todas as manhãs, apresentado por um velho amigo seu.
O que não faz a diabetes na vida de um homem, perguntava-se toda vez que ficava sozinho no escuro do seu quarto.
Quase cego. Quase sem o movimento das mãos. Sem forças nas pernas para manter-se de pé. E continuava a tomar os remédios, a fazer os exames periódicos, a se privar das delícias da culinária que tanto apreciava.
A última novidade, revelada pelos exames periódicos que fazia na clínica de sua confiança, era que agora sofria também de hipertensão. O que em outras palavras, significava mais remédio acrescidos à sua extensa listinha.
Não fosse a irmã assisti-lo em suas necessidades básicas, talvez já tivesse morrido.
Havia momentos de extrema solidão no escuro do quarto, que a derradeira hipótese tragava a sua esperança.
Mas qual era a sua esperança? Doente, sem cura, aos 40 anos, caminhando para um final indigno e tão diferente do que imaginara para si.
Não havia esperança. E se havia, não era maior que a cinza de uma bituca de cigarro se apagando aos poucos no cinzeiro.
Olhando pela janela da sala de curativos, percebeu que a chuva, lá fora, havia cessado. As nuvens, se dissipado, e uma réstia de luz, permitiu um pouco de claridade naquela manhã.
Pediu que a irmã o levasse até lá fora para ver o sol. Pediu com insistência diante da recusa inicial dela.
Você vai perder a sua vez, ela disse.
E ele, olhando para as pessoas que o observavam, respondeu:
Não me importo, querida. Eu já perdi tantas coisas, que mais essa não fará diferença alguma.
Passaram pela sala de recepção, e os olhos das atendentes se voltaram todos para ele.
Finalmente na calçada, lá fora, pediu que a irmã lhe acendesse um cigarro, o que ela fez com alguma relutância. Depois, pediu que ela o colocasse na direção do sol. Acomodou-se na cadeira de rodas, segurando o cigarro e fez menção de dar uma tragada, mas não chegou a fazê-lo. Manteve os olhos abertos, o mais que pode, em direção ao sol, ainda fraco, que começava a despontar entre as nuvens, naquela manhã de outono. E ficou assim um tempo, até que a irmã chamasse por ele. Não pode ouvi-la.

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