sexta-feira, 19 de outubro de 2018

PÁ-BUF!


Há 30 anos atrás, pouco mais pouco menos, também não havia dinheiro pra nada, e as pessoas igualmente se matavam umas às outras e a si mesmas. Tudo era proibido legalmente e, por isso mesmo, tinha valor, poder de atração, e fazia algum sentido. Sonhava-se com coisas impossíveis, alimentava-se esperanças inúteis, tanto quanto agora, mas havia a expectativa do inesperado, do desconhecido, à espreita, pronto para aparecer triunfante e reluzente, a qualquer momento.

Hoje, todos veem tudo e sabem de tudo; tudo às claras, a descoberto, tudo ao alcance de todos, todos ao alcance de tudo e de todos; tudo banal, superficial, descartável, volátil, sem valor, sem graça, sem conteúdo. Nós, inclusive. Por mais que estejamos convencidos do contrário. Basta, entretanto, uma olhada no espelho ou para dentro de nós mesmos. Se é que ainda haveremos de encontrar algo ali dentro.
As novidades surgem, nem se sabe de onde, nem por quem. Ninguém aparece para nos contar como foi. Nem amigo, nem vizinho, nem irmão, nem o cumplice mais próximo das ousadias inconfessáveis da vida. Hoje, as coisas surgem simplesmente, como que do nada, assim, pá-buf. Quando se vê, eis a coisa entre nós, funcionando a pleno vapor, ocupando espaço indevido em nossas vidas sem pedir licença. Tudo muito bem feitinho, atraente, colorido, bem resolvido. As coisas, as pessoas não.
Mas, pra tudo há resposta. Sempre há um acadêmico a postos para elucidar as questões intrínsecas da existência humana. E estabelecer verdades, as dele. Estão na teve, jornais, rádios, internet. E nos poupam dos por quês da vida. Afinal, estamos ocupados em emitir e retransmitir mensagens, geralmente tolas e inúteis. Então, para que, os por quês da vida, se há quem pense por nós. E gostamos disso. Nos sentimos aliviados, livres, leves e soltos.
Contudo, há um céu sobre nossas cabeças, mas parece que já nos esquecemos disso. Há olhares que bem poderiam estar à procura dos nossos, se tivéssemos olhos para eles. Mas não temos, porque nos falta tempo e, a bem da verdade, interesse. Nos satisfazemos com nós mesmos. E isso não é exceção, é regra.
Há 30 anos atrás, eu tinha 19 anos, pouco mais pouco menos, e talvez isso explique, um pouco, o porquê dessas linhas. Detesto o passado, não tolero recordar pessoas, lugares, coisas e acontecimentos. O lugar ideal do passado é um cemitério chamado esquecimento. Não caio na cilada de que ontem era melhor que hoje. Porque não era. O fato é que ontem... ontem significava alguma coisa, um estado de expectativa; havia alguma coisa pela qual sonhar, lutar e, esperar talvez. Hoje, não. Hoje, tudo se repete indefinidamente, conforme um padrão previamente estabelecido pelos gênios da humanidade contemporânea. Já quase não há espaço para o tão agradável fator surpresa. Busca-se reduzir a quase zero os erros e minimizar ao máximo as suas consequências. Mas os erros, se bem compreendidos, são tão excitantes quanto os acertos, e fazem parte do aprendizado, e servem de estímulo, empurrão para que nos atiremos ao passo seguinte da vida e façamos novas descobertas e encontremos novos caminhos. Do modo como tudo está, não é difícil perceber que estamos em uma prisão a céu aberto, cumprindo pena em regime mental fechado. Somos instados a ser do modo como nos determinam e a fazer o que se espera, na verdade se exige, que façamos.
E alguns doidos, entre nós, se imaginam viver em um estado de liberdade plena. Como diria o Claiton: ‘Coitadinhos!’

Um comentário: