Há
30 anos atrás, pouco mais pouco menos, também não havia dinheiro pra nada, e as
pessoas igualmente se matavam umas às outras e a si mesmas. Tudo era proibido
legalmente e, por isso mesmo, tinha valor, poder de atração, e fazia algum sentido.
Sonhava-se com coisas impossíveis, alimentava-se esperanças inúteis, tanto
quanto agora, mas havia a expectativa do inesperado, do desconhecido, à
espreita, pronto para aparecer triunfante e reluzente, a qualquer momento.
Hoje,
todos veem tudo e sabem de tudo; tudo às claras, a descoberto, tudo ao alcance
de todos, todos ao alcance de tudo e de todos; tudo banal, superficial,
descartável, volátil, sem valor, sem graça, sem conteúdo. Nós, inclusive. Por
mais que estejamos convencidos do contrário. Basta, entretanto, uma olhada no
espelho ou para dentro de nós mesmos. Se é que ainda haveremos de encontrar
algo ali dentro.
As
novidades surgem, nem se sabe de onde, nem por quem. Ninguém aparece para nos
contar como foi. Nem amigo, nem vizinho, nem irmão, nem o cumplice mais próximo
das ousadias inconfessáveis da vida. Hoje, as coisas surgem simplesmente, como
que do nada, assim, pá-buf. Quando se vê, eis a coisa entre nós, funcionando a
pleno vapor, ocupando espaço indevido em nossas vidas sem pedir licença. Tudo
muito bem feitinho, atraente, colorido, bem resolvido. As coisas, as pessoas não.
Mas,
pra tudo há resposta. Sempre há um acadêmico a postos para elucidar as questões
intrínsecas da existência humana. E estabelecer verdades, as dele. Estão na
teve, jornais, rádios, internet. E nos poupam dos por quês da vida. Afinal, estamos
ocupados em emitir e retransmitir mensagens, geralmente tolas e inúteis. Então,
para que, os por quês da vida, se há quem pense por nós. E gostamos disso. Nos
sentimos aliviados, livres, leves e soltos.
Contudo,
há um céu sobre nossas cabeças, mas parece que já nos esquecemos disso. Há
olhares que bem poderiam estar à procura dos nossos, se tivéssemos olhos para
eles. Mas não temos, porque nos falta tempo e, a bem da verdade, interesse. Nos
satisfazemos com nós mesmos. E isso não é exceção, é regra.
Há
30 anos atrás, eu tinha 19 anos, pouco mais pouco menos, e talvez isso
explique, um pouco, o porquê dessas linhas. Detesto o passado, não tolero
recordar pessoas, lugares, coisas e acontecimentos. O lugar ideal do passado é
um cemitério chamado esquecimento. Não caio na cilada de que ontem era melhor
que hoje. Porque não era. O fato é que ontem... ontem significava alguma coisa,
um estado de expectativa; havia alguma coisa pela qual sonhar, lutar e, esperar
talvez. Hoje, não. Hoje, tudo se repete indefinidamente, conforme um padrão
previamente estabelecido pelos gênios da humanidade contemporânea. Já quase não
há espaço para o tão agradável fator surpresa. Busca-se reduzir a quase zero os
erros e minimizar ao máximo as suas consequências. Mas os erros, se bem compreendidos,
são tão excitantes quanto os acertos, e fazem parte do aprendizado, e servem de
estímulo, empurrão para que nos atiremos ao passo seguinte da vida e façamos
novas descobertas e encontremos novos caminhos. Do modo como tudo está, não é difícil
perceber que estamos em uma prisão a céu aberto, cumprindo pena em regime mental
fechado. Somos instados a ser do modo como nos determinam e a fazer o que se
espera, na verdade se exige, que façamos.
E
alguns doidos, entre nós, se imaginam viver em um estado de liberdade plena.
Como diria o Claiton: ‘Coitadinhos!’

Parabéns pelo texto, bom para refletir!
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