Seis horas
da manhã, caro leitor. Bom dia. Acabo de recolher o jornal e ligar o
micro-ondas, 1 minuto e 15 segundos, cronometrados no relógio digital. Detalhe:
sem o leite que havia colocado na caneca do Palmeiras, que ganhei de minha
filha no meu quadragésimo... aniversário. Depois dos 40, a gente entende melhor
para que servem as reticências.
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| Reprodução |
Ligar o
micro-ondas sem haver colocado o leite pra esquentar lá dentro. Você já deve
ter feito isso às 6 da manhã, enquanto se prepara para o trabalho, em meio às
preocupações e expectativas em relação àquele dia que apenas começa, diga que
sim, caro leitor!
Pois bem,
vamos aos fatos. Acordei com uma frase martelando minha mente. É o mal do qual
padecem os escritores, essa da frase martelando a mente, insistindo ocupar
espaço, tempo e importância indevidos, e que nos convença a pegar a caneta, o
papel, a deixar a caneca de leite e o jornal, momentaneamente de lado, e
escrever.
Você,
leitor, quero crer, pertence à dileta classe das pessoas que enfrentam e são
obrigadas por força das circunstâncias, a conviver com algum tipo de
frustração?
Ok. Se você
tem 20, 30 anos, ou coisa parecida, vá se acostumando com a ideia, bonitão,
porque a vida é mesmo assim. Mas se você, já passou dos 40, prepare-se, pois a
frustração é um fantasma que irá atormentá-lo todos os dias.
Você pode
até exorcizá-lo, esse maldito fantasma, vez em quando, mas, ardiloso e teimoso,
ele sempre encontrará meios e portas abertas em sua mente e em seu coração,
para voltar a atormentá-lo.
Quando se é
jovem, se pensa muito, se planeja outro tanto e se deseja o impossível. Depois
dos 40, se continua a pensar muito, mas, em como remendar a vida.
Porque é o
que gente faz, muitos de nós, depois do casamento, dos filhos, da carreira
escolhida e que não era aquela, planejada e desejada, e pela qual se lutou
tanto, não se sabe se de modo certo ou errado.
Mas, enfim,
o que é que se sabe, de fato, nesta vida, antes que o plano traçado, o desejo e
a expectativa se tornem realidade? E a realidade é como os filhos, nunca são
realmente como a gente sonha, mas, enfim, são os filhos.
Quando se é
jovem, a gente sabe, a gente quer, sabe onde e como conquistar o que deseja,
mas aí, falta dinheiro, falta oportunidade, falta aquele amigo bem sucedido,
capaz de nos abrir portas, uma que seja, mas cuja amizade, lá atrás, nos nossos
jovens dias de ousadia e arrogância, a gente julgou nem valer a pena tanto
assim, cultivar aquela amizade.
A gente
casou com Maria, mas em verdade, amava Lucinha. Põe-se então, um remendo que se
chama “o amor vem depois”, nesta situação aflitiva do coração – não é mesmo,
Tony Buddenbrook? – ao qual, depois, se junta outro remendo chamado “família”.
Este, o remendo supremo. Pessoas de bom caráter, boa índole, tudo fazem para
obtê-lo e preservá-lo.
E quando se
escreve família, se quer dizer respeito. Porque a família tem a capacidade
única de nos trazer o de melhor e, nos dias atuais, infelizmente, o de pior,
também.
Os filhos e
os netos, pelos quais a gente, quando tem amor no coração, abdica de tudo, tudo
mesmo: honra e dignidade, decência. Porque vê-los felizes, bem sucedidos, é um
poderoso remendo que a vida nos propicia, para tamparmos a dor de nossas
frustrações acalentadas há tanto tempo.
É assim que
geralmente terminam as coisas, sem que a gente saiba, como era doce viver – como
diz a canção.
E se aos 50,
60 anos você, estimado leitor, tardiamente descobrir sua vocação para
costureiro, não se zangue, é sinal que você passou todos esses anos remendando
a própria vida.
*Publicado na edição de 04/05/18, à pág. 2 do Jornal Diário do Rio Claro.
*Publicado na edição de 04/05/18, à pág. 2 do Jornal Diário do Rio Claro.

Parabéns que mencionastes !"reticências"
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