Depois de mortos, seremos perdoados
Pelos sonhos desfeitos ainda na infância
Que não chegaram a conhecer o frescor da juventude
Seremos perdoados, depois de mortos
Pelas palavras esquecidas no momento mais importante
Quando olhares em suspenso, em nossa direção
Esperaram em vão por algo que jamais acreditamos
Depois de mortos, chorarão sobre nós
E dirão coisas sobre nós
Seremos perdoados por aqueles que mais amávamos
Eles irão, e com eles, as nossas lembranças
Que depositamos no passado,
Como flores que se depositam sob a lápide dos
esquecidos
Flores sem perfume, sem nome, sem lágrimas
Depois de mortos, escreverão sobre nós
Uma ou duas frases, pra dizer como éramos bons
No ofício de enganar as alminhas puras, sem rumo
À procura de um porto, seguro, firme, forte
Que acaso, nunca fomos, nem pretendemos sê-lo, nunca
Seremos perdoados pela sede de viver
Quem em nossos corações jamais encontrou motivo,
esperança, portas abertas
Seremos esquecidos em um ou dois dias, duas noites,
uma noite
As doze horas escuras do dia que passarão formais,
solenes, sem vida
Como o discurso que farão sobre nós, tentando
encontrar o que não existe, tentando ver o que nunca houve
Depois de mortos, esqueceremos as vontades
reprimidas
De nada nos servirá a vergonha,
Nem motivo de aplauso, nem de vaia, quando muito,
indiferença, silêncio, não provocado, espontâneo
Tanto quanto na mesa de bar, ao falar sobre aqueles
que partiram antes, sorvíamos o vinho de péssima qualidade e fumávamos o
cigarro que cabia em nossos bolsos
Seremos ultrajados, despidos das lembranças, por
todos aqueles que fizemos rir
Que num final de tarde, no meio de uma rua qualquer,
se depararam com o nosso ridículo
Mas que isso importará à nossa consciência culpada,
depois de mortos?
Nada! Nada importará, e a cena se repetirá:
Nem o remédio caído atrás da cômoda, a roupa suja
debaixo da cama, nem as anotações em guardanapos, toalhas, papéis encontrados
no chão, nada nos trará à consciência
Depois de mortos, de que adiantará a vela que vai se
apagando no quarto escuro
Porque o vento que entra forte, sem pedir licença,
anuncia a proximidade do inevitável
De que adiantará a procura insana do remédio que não
cura
Porque a cura, não está no remédio, mas na vontade
que falta para continuar
Seremos perdoados por nossas faltas, todas elas, das
menores às maiores
Seremos perdoados porque amamos em algum momento, e
este foi o nosso erro
Seremos perdoados porque acreditamos na poesia dos
livros de Allan
Seremos perdoados porque...
Ousamos conhecer o lado de cá da vida, onde sabíamos
de antemão que não encontraríamos felicidade
Depois de mortos, que nos resta, nos vestirmos de
branco, baixarmos a cabeça, o primeiro passo nos resta, adiante, o que virá
depois?