...A desaparecermos
abaixo do cimento frio, a parede trincada do reboco fresco. A porta do túmulo
que não fecha e aberta permanece, dia e noite. Manet, Degas, quem pintou o homem
Lucien, deitado no divã; esparramado, cofiando o bigode, olhando de lado,
ignorando a mulher comportada que se retira.
Pela manhã,
os pés se arrastavam no asfalto molhado, obedecendo a cadência imposta pelos
mais velhos; eles, ainda sobreviventes, esquecidos pela certeza iminente e libertadora,
a megera dama insensível que vem, chega e domina. E leva.
Falaram
sobre aquele que se foi – dizem que dormindo; não creio – e ele, quieto, olhos
fechados, nem se mexeu.
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| Reprodução |
Howl, Mr. Allen; vocifere seus insultos!
Que falta
faz a sinceridade dos impuros.
Resta ler o
caderno de cultura do jornal da vizinha, apanhado no corredor, a cada final de
tarde.
Discordar,
ceder, concordar, indispor, reter...
... Maquinações,
exercícios de lucidez, para que ela não se perca, permaneça, porque uma vez
ausente, senhora, e fará muita falta.
O mundo lá
fora não admite os que extrapolam em sua conduta, expõem suas vísceras.
Nunca se leu
tanto neste país. Sim! Ufanem-se! Leem-se mensagens de celular.
Onde chegará
você? Ele?... Os demais... E todos os outros... Onde? Não, não acredite nisso.
Os dias não eram assim. Que importa? Basta que seja o fim... que se aproxima.
Cai a
cerração, uma nova manhã inicia. Vento gelado. Conhece esses dias? São eles que
trazem as cenas já vistas incontáveis vezes. Choro contido, olhares perdidos,
palavras vãs, preces pagãs, às escondidas.
Antes era
pior, mais difícil. Havia mais gente. Mais lágrimas. Mais dor. Tudo era mais
evidente, maior, contundente. Mostre os dentes, sorria. Sei o quanto é difícil
num momento como esse, quando todos esperam o seu pranto, seu desespero, seu
silêncio, rompido por uma lembrança repentina, que o convida a sentir-se e
demonstrar-se feliz. Mas não é possível. Não há mais como esconder-se atrás de
alguém, maior e mais forte.
Há poucas
pessoas, o corredor está desimpedido, a sala quase desocupada. Flores, velas,
não há.
Nos bancos,
nos cantos, esse, aquele, aquele outro, os quais você não conhece, não sabe
quem são. Embora, por vezes, eles o observam curiosos na expectativa de que
você demonstre o que de fato, nesse instante, você sente. Achariam muito
natural, até bonito, qualquer manifestação sua que não fugisse ao protocolo.
Mas, não você. E eles sabem disso, ainda que prefiram ignorar, imaginar, pensar
o contrário.
... Seja honesto,
não tripudie. Você se vê fazendo isso? Dormir naquela gaveta de cimento,
naquele túmulo aberto, sujo, fedido. Dormir ali dentro, no claro, quase
totalmente claro, e no escuro. Dormir... para sempre.
