Admito que escrevo de muita má vontade estas linhas. Não
pela personagem em foco, mas pelo fato em si. Odeio a morte. Esse jeito cínico,
desavisado e desprovido de alguma coerência com que ela, vez em quando, se oferece à vida humana, me incomoda muito.
Há 20 anos em uma data como esta, cheguei a casa onde morava
por volta de 10 horas, após aquela indispensável pelada das manhãs de domingo,
jogada naquela oportunidade no campo do colégio dos padres claretianos que
hoje, nem existe mais. Bonito campo. Grande, bom gramado, cercado de
eucaliptos. Finado campo. Malditos padres!
Ao entrar na sala, deparei-me com meu irmão – Óh! Grata surpresa! – sentado na poltrona e diante
da tevê com suas coisas de comer e de beber (não vem ao caso mencioná-las).
Estava ele com olhar compenetrado diante do que via, e antes que eu me desse
conta do que era, ele disse em tom dramático:
“O cara bateu forte! Acho que morre, sei não”.
“Quem?” – devolvi-lhe a pergunta.
“O Senna!” – e emendou aquele seu habitual palavrão
impublicável, que levara minha durante anos a dizer: “Carlos Alberto!”. E meu
pai: “Uh, mas não perde essa mania!”
“Vê lá! – duvidei -
Daqui a pouco esse viado aparece nos boxes dando entrevista”.
E tomei a direção do banheiro, entretanto, antes que
alcançasse a maçaneta da porta, movido por curiosidade, voltei os olhos na
direção da tevê, e a cena que vi desmentiu por completo a minha suposição de
que o fato relatado não passava mesmo de mais um exagero de meu irmão.
Horas depois, o repórter Roberto Cabrini confirmava o que
todos temiam.
Via de regra, os mitos surgem de seus feitos heróicos e da
forma trágica como encerram suas vidas. Aprendi isto com O Poder do Mito, uma série de entrevistas que o jornalista
americano Bill Moyers fez para a televisão entre 1985 e 1986, com a maior
autoridade no assunto, o mitólogo Joseph Campbell, material que acabou virando
livro organizado por Betty Sue Flowers e editado no Brasil pela Palas Athena,
em 1990, com republicações posteriores. A série televisiva que recomendo,
passou na tevê brasileira na TV Cultura, em 1990.
Por tudo isso, é de se perguntar o que leva um sujeito a
sentar-se num bólido com um tanque de centenas de litros de gasolina e
desenvolver uma velocidade alucinante, atacando curvas e retas e sem a menor
possibilidade de erro. Seria a necessidade de enfrentar seus limites e
superar-se? E, além disso, o de desafiar e vencer a morte a cada volta, como
fazia, por exemplo, Ayrton Senna?
Os bons morrem primeiro, conforme desgraçadamente se sabe. Por
quê? Por que se sujeitam a sair de sua zona de conforto e tentar algo mais, algo
que todos desejam, mas não são capazes de obter, ou não possuem coragem o
suficiente para lançar-se ao desafio decorrente disto, dispostos, se necessário,
a pagar o preço por sua ousadia?
Não há como atingir o topo sem arriscar-se. Passamos as
nossas vidas a nos prepararmos para ser um profissional cada vez melhor. Para
aproveitarmos as oportunidades quando elas surgirem. Para despertamos a atenção
das pessoas do nosso meio, e, quem sabe, receber uma oferta de remuneração e de
condições de trabalho melhores do que a temos no momento. Quem melhor estuda e
melhor trabalha, não importa o quanto de esforço e tempo isso demande, sempre
estará na frente de seus concorrentes, será testa, jamais cu de tropa.
Mas há momentos na vida em que precisamos escolher e tomar
decisões. E isso exige coragem de nossa parte. Que é algo que não se aprende nos
livros, nas universidades, na experiência profissional adquirida ao longo do
tempo. Não. Porque escolher, tomar decisão depende do caráter e do que pretende
a alma que se vê nesta situação. Que fatores irá ponderar e que prioridades irá
estabelecer?
Conforme relatam os historiadores, Senna era o
sujeito sempre disposto a encarar o desafio, e a superar-se, ele queria porque
queria atingir o topo, correr na frente de todos, e para isso continuava a
trabalhar e a estudar, quando a maioria optava pelo descanso. Ele tinha o
talento inato, mas aproveitara para desenvolver toda sua habilidade ao máximo.
Talvez este tenha sido o diferencial dele para com os outros pilotos de seu
tempo.
Senna pilotou na época em que os carros de Fórmula 1 ainda
não eram tão seguros e confiáveis quanto hoje. E teve adversários à altura.
Como diz o ditado popular: bater em bêbado é fácil. Não foi o caso de Senna,
ele derrotou leões, que, por sinal, salvo rara exceção, não morriam de amores
por ele. Afinal, os alunos de uma sala de aula, geralmente não apreciam o
companheiro que tira nota 10 em tudo. Mas a vida é assim. Somos pessoas ainda
escravas do orgulho, do egoísmo e da inveja. E optamos sempre pela situação que
exige de nossa parte menor esforço e recompensa imediata.
Senna, até onde se sabe, não era assim. Quando teve de
escolher e tomar decisões, agiu conforme seu caráter: Não iria em hipótese
alguma romper contratos, prejudicar pessoas, e frustrar outras tantas.
Entrou na sua Williams naquela tarde (manhã para nós) de
domingo, 1º. De Maio, em San Marino, Itália, como que sabendo o que estava por
vir. Estava na frente de todos, quando saiu da pista para a imortalidade.
Nascia o mito.
Hoje, a casa onde eu morava já não existe. Meu irmão tem a
sua própria casa, é funcionário público municipal, e eu tenho dois livros
publicados, já preparando um terceiro. Faz 23 anos que minha mãe se foi, 3
farão no próximo dia 10, que meu pai foi juntar-se a ela. E após 20 anos,
completados hoje, tudo mudou, até as manhãs de domingo, que jamais foram as
mesmas, pra muita gente, pra mim não. Continuo jogando a minha pelada.
Geraldo J. Costa Jr. é escritor.
Autor de A Tarde Demora a Passar e, O
Intermediário, ambos pela editora Lexia
jcostajr2009@gmail.com

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