Nunca
acreditei que as pessoas realmente leiam o que escrevo. Se existem tais
pessoas, elas se ocupam de fazê-lo aqui, neste espaço, mais que em qualquer
outro onde eu já tenha publicado.
Muitas
vezes já deitei o lápis após concluir a inglória tarefa e disse bastante
convicto a mim mesmo: Chega! Eles não merecem o seu esforço. São seres humanos
em sua maioria incultos, desinteressados, e mal educados. Eles preferem uma
conversa fiada, uma cerveja gelada, um futebolzinho na tevê, do que perder
cinco minutos do seu precioso tempo lendo, por exemplo, uma crônica de jornal,
quanto mais um livro.
Não é
preciso debruçar-se às grandes investigações para observar que, na era da
imagem a linguagem escrita perde cada vez mais espaço. Tem sido assim na
publicidade e na imprensa.
Artigo
de autoria do tradutor Francis Lauer recentemente publicado no site Mídia Sem
Máscara dá conta da agonia que vive os grandes jornais impressos dos Estados
Unidos, que acusaram nos últimos cinco anos uma queda substancial de mais de
50% em suas receitas com publicidade. Não será preciso dedicar-se a um exercício
de futurologia para vislumbrar cenário semelhante no Brasil, se já não ocorre.
Na
busca por manter leitores e anunciantes e conquistar outros mais, os jornais ao
longo do tempo, foram diminuindo o espaço ocupado pelo texto em favor da imagem,
seja das fotografias que ilustram as reportagens seja dos anúncios
publicitários veiculados.
Desde
os tempos do canadense Toronto Star, regrinhas básicas das quais constituem o
lead na produção de um texto jornalístico determinam, por exemplo, que as informações
principais devem estar presentes no primeiro parágrafo, numa clara confissão por
parte dos editores de que a maioria esmagadora dos leitores não chegará até a
última linha da reportagem.
Na
publicidade dos jornais e revistas ocorre o mesmo. Para justificar tal
afirmativa, comparem-se os anúncios da década de 1970, 1980, por exemplo, com
os de hoje. Mesmo aquelas peças publicitárias transmitidas na tevê, nos
respectivos períodos.
Desde
que inventada pelos sumérios, por volta de 4000 a.C., a escrita sempre foi
sinônimo do poder, na medida em que por meio dela, se detinha a informação
valiosa nas mãos de poucos. Pelo menos até Gutenberg.
A
escrita permitiu ao ser humano ter conhecimento da História, ainda que contada
pelos vencedores, e, portanto, distorcida. A orientar-se no âmbito religioso, a
registrar as descobertas nos vários campos da Ciência. A consolidar ideias e
ambições na área da política. A organizar a vida econômica e social da coletividade
humana. E é claro, a possibilidade de viajar em sonhos e pensamentos através
das histórias narradas por romancistas, poetas e filósofos.
A
Literatura, capaz de produzir ainda volumosos livros (de ficção ou não), parece
ser o último bastião de resistência para uma tendência que vai se tornando
regra. Mas, fica a pergunta, esses livros de 800, 900 páginas, foram ou são realmente
lidos? E por quem?
Quantos
realmente leram Os Detetives Selvagens do finado Bolaño? Quem lê atualmente
Ulisses, de Joyce? Ou Em Busca do Tempo Perdido, de Proust? A Montanha Mágica,
de Thomas Mann, ou Os Miseráveis, de Victor Hugo?
Num
país feito o Brasil, onde as pessoas geralmente são avessas à leitura, escrever
com a pretensão de ser lido é utopia, e ser compreendido, é alucinação.
Salvo
raras exceções, cuja iniciativa é da parte de abnegados professores e pais, e
não de políticas governamentais, nenhum esforço se faz para habituar a criança
ao hábito da leitura, despertando-lhe o prazer daí resultante.
Então,
ao invés de se tentar levar Maomé à montanha, acha-se mais fácil despejar a
montanha sobre a cabeça de Maomé (se me faço entendido), exigindo que
escritores escrevam cada vez menos, ao mesmo tempo em que produzem um texto
pobre literariamente, desde que seja de fácil entendimento, extraindo da
Literatura a sua contribuição mais valiosa ao indivíduo que dela se ocupa que é
o estímulo ao pensamento, sem o qual, ele não desperta a sua vontade, e, por
conseguinte, a sua capacidade de agir, portanto, interferir no meio em que
vive.
Sobretudo
os romancistas da atualidade, independente de sua nacionalidade, e ainda que
sob o pretexto de sobrevivência (porque geralmente bons escritores de fato não
sabem fazer outra coisa), lamentavelmente resignados baixaram as guardas e se
sujeitaram ao minimalismo paupérrimo em detrimento da verve criativa que
valoriza a linguagem, única capaz de conduzir o leitor educado a uma dimensão
fora da realidade que conhece e convive. Todo esse sacrifício, essa
autoflagelação para conquistar leitores em potencial, e manter, ainda que a
muito custe os preguiçosos e desinteressados, mas que ao menos ainda se dedicam
ao contato com o livro, e a folhear umas páginas, ler uns períodos, um ou dois,
quando muito três, de uma narrativa.
É muita
pretensão de um escritor em conquistar leitores e obter o interesse e
reconhecimento da parte destes, em uma época dominada por telefones celulares,
automóveis, computadores, redes sociais, tevês a cabo.
A
palavra escrita começa a ser aniquilada das necessidades, hábitos e costumes de
uma sociedade formada por indivíduos cada vez menos pensantes e mais falantes.
E, portanto, a Literatura e mesmo a imprensa escrita, (uma vez que qualquer
cidadão munido de equipamento adequado pode registrar um fato, que será mais
visto e comentado em redes sociais do que nos veículos de comunicação),
inevitavelmente serão levadas de roldão por essa avalanche cada vez maior e
mais destruidora.
Em
princípio isso pode causar espanto, mas talvez seja os primórdios de novos
hábitos e costumes, absolutamente estranhos para a nossa geração, e o mais
natural possível para aqueles que virão nos substituir. Quem viver verá.





