Era daquelas
tardes em que o calor se torna insuportável. Os ossos e os músculos
enfraquecem, a visão adormece e a saliva falta, o ar desaparece e a alma se
liberta. Busca refúgio onde sabe que nenhum bisbilhoteiro inoportuno possa
encontrá-la.
Devido essa
situação, L. resolvera dar um tempo. Uma escapada, breve fuga da rotina,
questão de minutos, talvez hora e meia. Então subiu até a estação ferroviária
que naqueles dias, na sua parte externa, servia apenas como terminal de ônibus
circular, e antro de marginais, vagabundos e desocupados aos finais de semana.
Aqueles tipos dos quais as pessoas têm pena porque imaginam conhecê-los.
Ocorre que L.
não estava preocupado com tais tipos. Jamais estivera. Até porque eles não eram
presenças comuns na sua tola e amorfa rotina diária, casa ao trabalho, trabalho
casa, e solidão, e silêncio.
L. era o sujeito
que preferia ouvir e observar. Entendia-se melhor com o mundo à sua volta
quando se fazia presente sem ser percebido, distante e ao mesmo tempo perto,
mas sem interferir, em absolutamente nada, e sem permitir que jamais
interferissem na sua rotina que para alguns merece o nome de vida.
L. subira ao
ônibus, depois do almoço daquela quarta-feira, despreocupado de saber qual rumo
tomar. As coisas para ele fluíam melhor quando desimpedidas de regras e
certezas.
O destino do
ônibus, entretanto, era a rodoviária, mas quando lá chegasse não sabia
exatamente o que faria. Talvez tomasse um leite batido na lanchonete. Mas a
possibilidade de encontrar aquele atendente antipático o desestimulara.
Pensou tomar uma
coca-cola na loja, lá embaixo, onde comprava a revista Set de cinema, e um
exemplar do jornal O Lance, toda vez que acompanhava o seu pai até Limeira,
naquelas viagens que, ao longo do tempo, foram deixando de acontecer.
E foi o que fez.
Correndo, ainda que isso o desagradasse, porque o ônibus com destino à Limeira
já estava estacionado e pronto para partir. Comprou a coca-cola e depois o bilhete,
e se dirigiu até o ônibus que encontrara quase vazio, dois ou três passageiros,
muito para aquele horário de quarta-feira, vinte para as quatro da tarde.
A sua poltrona
era a de número 5 e dava para a janela, mas ele preferiu ocupar a poltrona que
dava para o corredor, por onde passou um sujeito que deixou cair ao chão a
cédula de identidade. Atento ao acontecimento, antes de desligar-se
completamente do mundo à sua volta, como o faria durante a viagem, L. apanhou o documento do chão e
chamando o sujeito, o devolveu para ele, e por essa modesta boa ação,
recebeu um muito obrigado da parte de quem jamais esperaria receber.
Em uma poltrona
adiante, mas à direita de onde estava sentado, havia uma jovem conversando
ao celular. Talvez com o seu namorado, fora o que deduzira, considerando o
modo carinhoso e atento, sorrindo vez em quando, como ela falava ao telefone.
Mas então o
ônibus colocou-se em movimento, e a vida lá fora, da janela por onde L. a
observava começou a passar mais depressa.
Por isso ele
fechou os olhos e assim permaneceu por algum tempo, para que a vida passasse
não apenas mais depressa, mas desaparecesse.
E quando tornou
a abri-los, encontrou as nuvens a passarem mais depressa que a vida, de modo
que tudo ia ficando para trás: o caminho já percorrido, a cidade de Rio Claro,
a sua própria vida. Talvez a encontrasse no caminho de volta que pretendia
tomá-lo ao final daquela tarde. Ou não.
Calmo,
absolutamente resignado, livre, em
paz. Os olhos indiferentes à
realidade, quase fechados. Enquanto o ônibus seguia viagem e a vida ficava para
trás, o pensamento, a vontade e a capacidade de agir, abandonavam-no.
Às dezesseis
horas e dezenove minutos, o ônibus chegara à Limeira. E então o ritual se repetira. Mas de um modo diferente do habitual. L. estava só.
Desceu do
ônibus, e as pessoas pareciam as mesmas de sempre. Promotores de vendas de uma
rede de lojas, falantes e uniformizados. Motoristas e cobradores, fiscais,
transeuntes, vendedores ambulantes, guardas, policiais, pastores, um padre,
pedintes e prostitutas como em qualquer outro lugar; gente comum. Todos passaram
em um relance aos olhos de L. Toda aquela quantidade de gente em movimento. Mas ele estava só.
Subiu a rampa
até a parte superior da Rodoviária, alcançou a entrada principal, aquela dos
pisos emborrachados e antiderrapantes, e na rua, lá estavam os táxis parados à
espera de passageiros, mas ele não entraria em nenhum deles como sempre fizera.
Porque desta feita estava só.
Pensou
exatamente nisso, quando estava na calçada olhando para os lados. E então
diferentemente do que fizera todas as outras vezes, saiu pelo lado sul da
Rodoviária de Limeira, que dá acesso ao terminal dos ônibus circulares. Subiu a
Capitão Kehl até a Dr. Trajano. Depois, à Tiradentes, e dali para a Conselheiro
Saraiva até chegar a Praça Central, onde está a gruta e o Teatro Vitória.
Atravessou a praça e numa casa lotérica fez alguns jogos da semana, os quais
ele perdera, e não pudera conferi-los pra saber se havia ganhado. Certamente
não. Não havia ganhado. Mas os jogos traziam a esperança de que as coisas
pudessem ser diferentes, enfim. E o simples fato de fazê-los o ajudava a
alimentar a esperança em seu coração, ainda que tão somente por alguns dias,
algumas horas. O tempo necessário para sobreviver à situação limite, a vontade
quase irresistível de antecipar os acontecimentos naturais da vida, que a
maioria das pessoas entendem como perda irreparável, e ele, como
libertação.
Pôs-se então a
caminhar pela praça menos arborizada que a da sua cidade, e por isso mais
vistosa. Enquanto a praça da sua cidade (não menos linda), mais parecia uma
floresta, um refúgio de almas mortas, aquela era incapaz de esconder a
vergonha, o medo, porque recebia o sol em todos os seus cantos e direções, e o
sol tudo ilumina, escancara, cura. Não havia quase sombra naquela praça. Haviam bancas de jornais, sorveteiros, pipoqueiros, vendedores de bilhetes da sorte, e
um senhor, parecido com o avô materno de L., como rapidamente ele se dera
conta, e que o comovera com sua tenacidade em trabalhar sob aquela temperatura
insuportável, o sol derretendo-lhe os miolos e o pouco de esperança que ainda
lhe restava e que ganhava um fôlego a mais, toda vez que uma senhora, uma
criança, um sujeito qualquer comprasse uma raspadinha para se
refrescar. L. quase deixou o troco para o velho, se este não lhe fosse fazer
falta para comprar a passagem de retorno para a sua cidade, ainda que não
estivesse muito certo se voltaria mesmo. Caminhou entre pessoas e pombos, até
se sentar em um banco onde pôde encontrar alguma sombra por causa do coqueiro
ainda menino, e cujas folhas pareciam adormecidas. O sol cura a alma e castiga
o corpo, porque o corpo não faz nenhuma falta.
E as pessoas
passavam, e, estranho, olhava para elas, o que não costumava fazer na praça
central de sua cidade. Ali, onde estava, podia olhar para as pessoas porque não
havia motivo algum para sentir-se envergonhado. As pessoas não o conheciam.
Terminada o
refresco, levantou-se muito satisfeito por sentir-se finalmente aliviado e
liberto, como se sentia quando era apenas um menino amado por seus pais e
tolerado por seus irmãos, que nele viam uma ameaça. E por vezes o invejavam
desejando que tivessem nascido doente feito ele de modo a receberem o mesmo
carinho e atenção.
Então deixou a
praça, e caminhou de volta à rodoviária, mesmo sem saber se de fato ali
entraria, e mesmo que entrasse, não tinha certeza de que compraria uma passagem
com destino a Rio Claro.
Mas ainda na
Conselheiro Saraiva, parou no Sebo Central na esperança de que pudesse
encontrar algum livro de um de seus autores favoritos, que jamais encontrava
nos sebos, dois ou três, que haviam na sua cidade.
Entrou e ficou a
espera que alguém o atendesse. Ouviu vozes, uma conversa incompreensível em
andamento, mas não acusou a presença de ninguém. Mesmo assim permaneceu à
entrada, olhando, tentando identificar alguma publicação que lhe fosse familiar
ou lhe despertasse interesse.
Estava quase
desistindo da ideia, quando alguém surgiu no balcão, com um olhar meio que
feliz, meio que surpreso com a presença de um cliente. Disse-lhe pare que se
sentisse à vontade, respondeu à pergunta de L. sobre a disposição em que se
encontravam os livros e permaneceu onde estava, atrás do balcão, parece que
fazendo contas, enquanto L. se perdia nas entranhas dos corredores entre as
prateleiras repletas de livros esquecidos, deixados de lado, abandonados ao
silêncio e ao vazio da consciência relapsa.
Haviam muitos
livros repetidos, e entre os da coleção Os Imortais da Literatura Universal da
Editora Abril, publicados no início dos anos 1970, ele tinha todos.
Deixou aquele
corredor e percorreu outro, já sem muita esperança. Encontrou O Velho e o Mar
de Hemingway, O Grande Gatsby de Fitzgerald, As Vinhas da Ira de Steinbeck, mas
nada de Stephen Crane, Robert Musil, Joseph Heller. Os três primeiros, L. já
havia lido, então por que compra-los? Para que mofassem em uma prateleira
perdida de cupins, aquela da sua casa, da casa onde morava? Para condená-los ao
sono eterno? Não. Não haveria de cometer tamanho pecado. Melhor deixá-los
à esperança, de que algum dia alguém os encontrasse.
Porém, estava
disposto a não ir embora de mãos vazias. Tentou outra prateleira. Não Verás
País Nenhum lhe deu um pouco mais de ânimo. Mas também já o tinha lido.
Caminhou mais um pouco, olhando ora para o alto, ora para baixo, naquele
difícil trabalho ao qual se submete o leitor ao procurar livros em qualquer
prateleira. Mais um pouco, L., mais um pouco... até chegar ao Trópico de
Câncer. Câncer.
Muito bem L.,
você conseguiu.
Geraldo
J. Costa Jr. é escritor.
Autor
de A Tarde Demora a Passar e, O Intermediário, ambos pela editora Lexia
jcostajr2009@gmail.com

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