Por Édi Miller
Não
há um só diálogo nos cinco minutos de duração do filme. O ambiente em que a
cena ocorre mais sugere do que afirma. As palavras possíveis estão contidas em sinais,
olhares e gestos.
As
Algemas de Thomaz, curta-metragem produzido pelo Grupo Kino-Olho, e dirigido
pelo cineasta João Paulo Miranda Maria é baseado na obra literária do escritor
rio-clarense Geraldo J. Costa Jr.
O
filme está disponível na internet e é possível assisti-lo acessando o
link: http://vimeo.com/40814105. O roteiro é da
poeta, atriz e roteirista Fernanda Tosini, que, incansável, já trabalha em
outro projeto, a respeito do qual mantém por enquanto sigilo absoluto.
No
elenco, nomes de peso da arte dramática local, como o do ator Claudio Lopes
(ex-Cia. Quanta de Teatro), que interpreta o personagem principal. Além de revelações
como Thays Von Atzingen, Demetrius Camolesi, Lázaro Maciel e Benedito Gesse, e
a própria Fernanda Tosini que assina a adaptação.
O
que estava explícito no conto, afirma Costa, o João Paulo e a Fernanda
transformaram em instigantes indagações, lançando sobre a obra um olhar que eu
mesmo não tive ao escrevê-la. É a linguagem do cinema, feita de imagem e som,
aprofundando, devastando, ampliando horizontes que a literatura restrita a
palavra não alcança.
As
Algemas de Thomaz integra a coletânea de contos e crônicas do escritor
rio-clarense intitulada “A Tarde Demora a Passar” cujo lançamento está previsto
para o segundo semestre deste ano pela editora Lexia.
Anos
atrás, esclarece o escritor, deparei-me com uma confissão de William Faulkner
em que ele diz textualmente: “A única responsabilidade do artista é para com
sua arte. Ele tem um sonho que o angustia tanto que precisa se livrar dele. Ele
não tem paz até que isso aconteça. Vai tudo por água baixo: honra, orgulho,
decência, segurança, felicidade, tudo para se ter o livro escrito. Se um
artista tiver que roubar a sua mãe, não hesitará”. Ora, era exatamente isso o que
eu acreditava quando escrevi o texto há alguns anos. Hoje penso diferente.
No
conto, o personagem principal Thomaz está convencido de que precisa de
liberdade e solidão para escrever e para isso vai às ultimas consequências. No
filme, essa convicção não existe, o suposto motivo para o desfecho da trama
deixa de ser um e passa a ser muitos. A edição, feita por João Paulo Miranda
Maria favorece esse labirinto de dúvidas e incertezas. O que fazem na cena do
crime os outros personagens? Estão ali para acusar e condenar o criminoso ou
para absolvê-lo e libertá-lo? Ou apenas como testemunhas oculares de um fato
inevitável? E para Thomaz, o personagem principal da história, o que é
liberdade? São perguntas e respostas para as quais, cada espectador encontrará
a sua. Ou nenhuma, acredita Costa.
A
roteirista Fernanda Tosini, admite que tentou ser fiel ao texto literário ao
adaptá-lo, mas o cinema é algo demais surpreendente e sua linguagem dinâmica. À
medida que se escreve o roteiro, e depois, com a sequência das filmagens as
coisas vão acontecendo e se transformando. É preciso haver sintonia e
comprometimento entre elenco, direção e produção para que a ideia inicial não
se perca, mas, ao contrário, se desenvolva e ganhe novos contornos.
Costa
não vê nenhum inconveniente nisso, ao contrário, estimula a criatividade que o
cinema possibilita. Para o escritor, esse fenômeno é feito uma alma (o texto)
habitando outro corpo (a imagem e o som).
Cinema Caipira
O
portofelicense, João Paulo Miranda Maria, 30, começou aos 14 anos, desenhando
quadrinhos, em Piracicaba. Ele conta que teve o seu interesse despertado para a
sétima arte quando teve aulas na USP sobre roteiro de cinema para quadrinhos
com um professor da área de áudio visual. Depois, foi estudar no Rio de
Janeiro, aonde chegou a fazer estágio na Rede Globo. A ideia de formar o Grupo
Kino-Olho surgiu da necessidade de se formar em Rio Claro um núcleo
cinematográfico independente.
Em
2009, Miranda conquistou o prêmio Mobile Phone Movie Competition, concurso de
filmes feito pelo telefone celular promovido pelo programa “The Screening Room”
da CNN International.
Em
entrevista para o mensário rio-clarense O BETA, em 2008, o cineasta declarou
que pretendia fazer de Rio Claro, o seu ateliê cinematográfico. Não por acaso,
idealizou o projeto Cinema Caipira, levado adiante pelo Grupo Kino-Olho,
encabeçado pelo próprio Miranda. Além dos inúmeros filmes produzidos e
disponíveis no internet nos sites de vídeos Youtube e Vimeo, o Kino-Olho edita
periodicamente a Revista do Cinema Caipira que já atingiu a marca de 38
edições. Além de realizar oficinas de cinema com apoio da Prefeitura de Rio
Claro, através da Secretaria da Cultura.
No
período de 28 de novembro a 1 de dezembro deste ano, o Grupo Kino-Olho estará
promovendo a 2ª. edição do Festival Internacional de Cinema Independente que
tem como objetivo unir e divulgar realizadores independentes que realizem
produções engajadas a partir de novas estéticas. O festival contemplará as
melhores produções em cinco categorias: ficção, documentário, experimental,
película 35mm, e curta Kino-Olho. Os vencedores estarão recebendo o troféu
Chapéu de Palha. As inscrições que tiveram início em 02 de abril terminam em
31de julho. No site http://kinoolhofestival.blogspot.com.br/
os
interessados podem obter mais informações.

Uaalll !! Pelo pouco que vi, gostei...Parabéns meu amigo por esse mais novo trabalho...
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