Moro numa cidade em que as ruas não têm nome, onde as árvores ainda não disputam espaço com enormes fortalezas de aço e concreto; onde os trens atravessam ruas e avenidas, sem serem molestados, e os pedestres, pacientes, não se importam de esperar.
Na cidade onde moro, as pessoas conversam nas calçadas, ouvem música no rádio, à noite, enquanto esperam pelo sono. Minha cidade é progressista, uma das mais desenvolvidas do estado, os médicos são atenciosos, e os farmacêuticos não se importam de atender à noite, em meio à madrugada, mesmo que chova.
Há ruas de paralelepípedos, no centro, por onde circulam charretes ornamentadas. Cinemas são três, e todos bem localizados, limpos e perfumados, e grandes. Há bares noturnos e boates pra quem gosta de dançar e ouvir boa música.
Os funcionários públicos nos atendem com sorriso no rosto, seguido de bom dia, boa tarde, boa noite, pois não? Em minha cidade se produz a melhor cerveja do mundo, sem exagero. Afinal, nos ensinaram na escola, que o mundo, primeiro é o chão que pisamos, depois vem o resto. Cantamos o hino nacional, perfilados no pátio da escola, toda sexta-feira, em continência à bandeira, e sabe, isso não é frescura ou idiotice, é patriotismo, e respeito.
Na rua onde moro, todos os vizinhos se falam, e a criançada brinca, assim, no meio da rua, porque quase não há motocicletas, e as que existem, longe, anunciam sua aproximação, buzinando. Quase todo mundo tem uma bicicleta.
Ao meio dia, em ponto, ouve-se o apito estridente, porém, indispensável, da maior e melhor oficina ferroviária de que se tem notícia. Tem dois jornais, apenas, mas há o que se ler, todos os dias. E deixemos as polêmicas para outra ocasião.
Quero falar de minha cidade. Dizer que, há trezentos metros do centro, temos um preservado horto de eucaliptos, onde se tem um lago bonito e habitado por marrecos e patos, e até um restaurante tem, e um trenzinho que nos leva a passear pelo horto e adjacências, ouvindo o gorjeio dos pássaros silvestres, jamais vistos, porém, não menos encantadores.
Aqui, cidade onde moro, se tem o hábito de pedir a benção quando se cruza na rua com algum religioso ou alguma religiosa. E eles nos acolhem com alegria e satisfação. Costuma-se ir à missa, aos domingos, e, a procissão da sexta-feira santa, em todas as paróquias, é bastante concorrida. Há quermesses, em meados de Junho e Julho. E jogos de futebol, aos domingos, no estádio mais charmoso, do time mais querido da cidade, e que veste vermelho e verde.
Ia me esquecendo do coreto da praça central, a praça tão bem freqüentada, por trabalhadores que por ali passam a caminho da labuta ou do descanso, e por famílias a passeio, aos finais de semana. Esta é minha cidade, e enquanto escrevo estas linhas, ouço o tropel do cavalo anunciando a chegada do padeiro.
São seis horas da manhã. Bengala fresquinha, meia-lua com o açúcar derretendo por cima, leite de saquinho, indaiá, melhor não há. Hoje tenho prova na segunda aula. Estudo numa escola pública que é vocacional e modelo de ensino para todo o país e de prestígio que atravessa as fronteiras. Bem, aqui me despeço, desejando um bom dia a todos. Rio Claro, 10 de fevereiro de 1975; meu irmão Junior, hoje, completa 6 anos. E eu me chamo Carlos Alberto.
Parabéns Rio Claro, pelos seus 184 anos. Um dia você foi assim. E eu não me esqueço.

Essa, é a segunda vez que tenho o privilégio de ler esse belo texto e de sonhar com essa cidade queé um encanto, imaginar cada detalhe aqui descrito, J. meus parabéns, por sua excelente escrita e por seu patriotismo que emociona.
ResponderExcluir''Rio Claro'' ai vou eu...
Abraços paz e bem.
Belo texto e descrição de uma cidade que você ama e que vê mudando em seu dia a dia.
ResponderExcluirMe encanto com sua narrativa, eu moro em uma cidade do interior e que ainda tem momentos como o que você descreveu.
Parabéns por sua cidade e á você por tão belo texto.
Abraços.
Que saudade de tudo isso !
ResponderExcluirConforme meus olhos corriam essas linhas, eu voltava no tempo...que saudades !!!
Parabéns pelo texto ! De fato nossa cidade já foi assim um dia.
Abraço