Quem me conhece amiúde, quem lê os meus textos, imagina que sou destemido, ousado e, por vezes, senão sempre, arrogante. Má notícia. Não conhecem metade da reza. Sou tímido, inseguro e tenho medo terrível de tudo a minha volta.
Cada olhar que me encontra pode ser um inimigo a me espreitar. Quando mais jovem, porque jovem sempre sou, porque assim é meu espírito, eu exorcizava meus demônios e espantava meus medos nos braços da noite, no acalento da brisa da manhã, borrifado de perfumes que não eram os meus, e sorvido por goles de delírio e prazer que não me pertenciam. Mas o trem da vida continua a seguir o seu destino e se a gente não pula pra fora sempre chega à próxima estação.
Agora que escrevo estas linhas, estou linkado no youtube ouvindo Loves come quiclky. Noites e mais noites ao embalo desta música. E de outras. Ali, naquele mármore de indiferença, desprezo e revolta forjou-se o escritor, que escreve linhas como estas, na busca insana por espantar para longe de si todos os seus medos. E a dúvida cruel persiste. A um passo de distância da liberdade. Um movimento. E de repente tudo se desfaz, se desmancha e a vida se deforma e ganha contornos de Munch. E olhar de Cortázar.
Faz frio e a noite chega. O medo é como chama ardente que envolve, domina e consome. Os sinos não irão tocar esta noite. Talvez o façam pela manhã. O copo se quebrou e o líquido é precioso demais para ser sorvido de maneira tão vulgar. Por isso talvez eu adormeça esta noite. Talvez.
As roupas estão sobre a cama, a toalha no chão, o gato no telhado, a lauda, em branco, no carro da máquina de escrever, esperando... esperando a sintonia, o momento em que tudo conspira a favor, o momento em que se deflagra a revolta, que se faz a rebelião. E que se liberta o ódio. Rage!
Alguém me convenceu que bastariam palavras para a minha vingança.
Há de pagar por isso.
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