quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

DIÁLOGO INTERESSANTE


Escutou quando, lá embaixo, na cozinha, a mãe disse, um tanto entusiasmada:
“Que bom que você veio, pai! Já não sei mais o que fazer. Agora ele deu pra ficar trancado horas naquele sóton”.

Segundos depois, o andar inconfundível do avô tornou-se bem próximo. As botas estalando no assoalho que a mãe tratava de manter limpinho e brilhando.
Manteve-se todavia de costas para o avô. Não estava disposto a ceder. Mas o avô sabia como lidar com a situação.
“Bom dia!” – disse alegre e confiante.
“Nem tanto assim”.
“Problemas?”
“Sim. Alguns”.
“Nada que não possa ser resolvido, espero”.
“Exato. Mas, para isso, preciso de silêncio e solidão”.
“Você fala como se fosse um adulto”.
“Mas é como me sinto, certas ocasiões”.
“Escute, o que tanto lhe incomoda?”
“A estupidez da vida, vô”.
“Não entendo”.
“Entende. Mas vou lhe explicar: É o modo como as coisas se passam”.
“Sou todo ouvidos”.
“Acontece que tudo se repete, todos os dias”.
“Se refere à rotina da vida?”.
“Sim. Isso me incomoda muito”.
“Mas ela é necessária”.
“Por que?”
“Para que nos sintamos seguros. E possamos saber sempre para onde estamos indo”.
“E para onde estamos indo, agora?”
“É uma pergunta que cada um deve responder por si mesmo”.
“Pois essa pergunta tem me perturbado. Porque não sei para onde estou indo”.
“Quando eu tinha a sua idade, eu também não sabia”.
“E quando foi que passou a saber?”
“Não me lembro”.
“Obrigado. Ajudou bastante”.
“Escute: você talvez esteja precipitando as coisas”.
“Como assim?”
“Sofrendo por antecipação”.
Então, pela primeira vez, desde o início da conversa, o neto olhou para o avô, algo realmente interessado.
“Deixe as coisas acontecerem naturalmente. Cada fase da vida tem as suas lutas e os seus mistérios. A natureza é sábia. Ela nos coloca em condição para vivenciar as experiências da vida, cada qual a seu tempo. Quando surge o desafio é porque estamos preparados para enfrentá-lo”.
“Amar é um desafio?”
“É um dentre muitos. Talvez, o maior de todos. E o mais sublime”.
“Acho que estou amando. Mas não tenho certeza”
“Só tenho uma coisa a lhe dizer a respeito disso: Não sofra por quem o abandonou. Mas ame quem o acolheu”.
“Continue”.
“Pois bem, a sua mãe, que lhe acolheu e que tanto te ama, merece esse esforço”.
“Acho que vou amar realmente quem me acolheu, quando puder esquecer quem me abandonou”.
Ao dizê-lo, o neto abraçou o avô. Sentia-se protegido no aconchego daqueles braços grandes e fortes. A barba grisalha do avô tocava-lhe o rosto, e era macia, e o perfume que vinha dos seus poucos cabelos já embranquecidos quase totalmente lhe despertavam um sentimento de nostalgia que não saberia explicar.
Na cozinha, lá embaixo, a mãe que o acolhera, chorava. Sempre o fizera às escondidas, mas agora, já não sentia mais essa necessidade. Estava cansada de uma luta que se demonstrava a cada dia mais inglória.
“Acho que posso amá-la” – disse o menino para o avô, que ainda o tinha nos braços.
“O que o leva a pensar desse modo?”
“Ela sempre foi muito boa pra mim”.
“Essa é a recompensa dos que amam: serem amados um dia, também, não importa quando nem como”.
“Obrigado, vô. Você resolveu a questão”.
“Você na sua idade, se questiona sobre essas coisas. Imagine eu, na minha, quantas vezes já não o fiz?”
O menino sorriu, satisfeito, e voltou a buscar refúgio nos braços do avô. E assim desceram a escada. E quando a mãe viu o menino, seu filho, braços estendidos, em sua direção, sorriu também. E pode finalmente sentir-se feliz. E tomar o filho nos braços, sem receio algum.

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 15/2/2019, à página 2.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

SÓ POR HOJE!

Aconteceu, virou Manchete
A Fundação Biblioteca Nacional, através do seu departamento de Hemeroteca finalizou a digitalização do acervo completo da extinta Revista Manchete, que circulou semanalmente, em todo Brasil, no período de 1952 a 2007. Há muito o que ler e ver, afinal, as fotografias eram um primor para os padrões da época e os textos muito bem escritos.
Destaque para as fotos de capa, coloridas, e um time de colaboradores de primeira linha, onde figuravam Rubem Braga, Joel Silveira, Otto Maria Carpeaux, Antonio Callado, Paulo Mendes Campos, Jean Manzon, entre outros. Mas o bacana mesmo, é nos depararmos com as crônicas, sempre bem humoradas e agradáveis de Fernando Sabino que, por sinal, se parecem bem atuais.

Porém, para minha surpresa e espanto, encontrei ainda, contos de Anton Tchecov, Ligia Fagundes Teles, Carlos Drummond de Andrade, Orígenes Lessa, Clarice Lispector e mais uma time de primeira das letras, que dispensa apresentações. Era o tempo em que as revistas e os jornais tinham o cuidado de valorizar os bons autores nacionais e estrangeiros.
Para se deliciar com a preciosidade anote o link para acesso:  http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=004120
É bola na rede!
No Facebook, a maior e mais frequentada rede social do momento, e talvez, continuará sendo por muito tempo, acha-se de tudo, para o bem e para o mal. Os amantes do futebol do passado, tem uma página espetacular pra matar saudade do tempo em que o futebol brasileiro era a oitava maravilha do mundo.
A página Arquivos do Futebol, do esportista Alexandre Gomes, é atualizada quase que minuto a minuto, com a participação de internautas do Brasil e do exterior. Fotos de times e craques do passado, vídeos que só mesmo à custa de muita paciência, persistência e tempo de sobra, são encontrados, além de opiniões, enquetes, e debates.
Calhamaços
A tarefa tem sido hercúlea, porém, prazerosa. Estou lendo dois romances que recomendo àqueles que gostam de histórias bem escritas e interessantes. O primeiro deles é Rio das Flores, 608 páginas, Cia. das Letras, do escritor português Miguel Sousa Tavares. O núcleo da trama gira em torno de dois irmãos Pedro e Diogo, tão diferentes como a água e o vinho, mas em busca dos mesmos sonhos. A história abrange 30 anos (1915 a 1945) da saga dos Ribera Flores, tradicional família latifundiária do Alentejo.


O outro desafio tem o título de Mesopotâmia, luz na noite do tempo. O calhamaço com 726 páginas integra a série Às Margens do Eufrates, publicação da editora Correio Fraterno. De autoria do espírito Josepho e trazido à luz pelas mãos de Dolores Bacelar, a história se passa na Assíria, um dos povos mais antigos da humanidade, que conheceu apogeu e queda no atravessar dos séculos. É um clássico da literatura espírita, muito bem aceita no Brasil, que traz informações e riqueza de detalhes sobre a cultura babilônica.
Para ver... e ouvir
Disponível no site de vídeos Youtube, o documentário sobre uma das mais emblemáticas e significativas bandas de pós punk que já existiu. Basta dizer que durou apenas 4 anos e lançou dois discos, Unknow Pleasures (1979) e Closer (1980), este lançado quase simultaneamente com o desaparecimento prematuro do seu vocalista. Se você curte o melhor da também finada Legião Urbana, saiba que Renato Russo bebia nas águas caudalosas do Joy Division, banda inglesa, da cidade de Manchester, onde nascem os bons, formada por Peter Hook (baixo), Bernard Summer (guitarra e teclado), Stephen Morris (bateria) e Ian Curtis (vocal).
As letras do Joy Division traziam influências do filósofo Nietzsche ao escritor experimental William Borroughs. O vídeo começa com uma citação ao escritor e filósofo Marshall Berman, “Todo Sólido se derrete no ar” e introduz o expectador no clima sombrio e ora delirante, característicos da banda. Em aproximadamente uma hora e meia, narra-se sobre a formação da banda, sua breve e exitosa carreira e especula-se sobre o suicídio de Curtis, que sofria de epilepsia.  Do ostracismo dos subúrbios de Manchester, a Joy Division deslanchou para o sucesso, quando foi contratada pela gravadora independente Factory do empresário Tonny Wilson, e consolidou seu estilo pós punk pelas mãos do produtor Martin Hannett. Os remanescentes da JD formaram o New Order que reinou nas pistas de danças entre os anos 80 e 90 com hits como Bizarre Love Triangle. Em 2007 o cineasta Anton Corbijn filmou o longa “Control” a biografia definitiva de Ian Curtis. Para acessar o vídeo, o link: https://www.youtube.com/watch?v=a2PzSEijg0c.
Pense: “Não preste atenção no que os outros fazem à sua volta, faça ao seu modo, mas faça”. gjcjr

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

QUANDO O AMOR TERMINA


“Tem certeza, madame?”
“Tenho. Tenho sim. A mais absoluta certeza. Como jamais tive qualquer outra em toda a minha vida”.
“Pois não. Devo então chamar o chofer?”
“Já deveria tê-lo feito”.
“Queira me desculpar, madame. Irei fazê-lo imediatamente. Com sua licença”.
O criado, o mais antigo da casa, estava acostumado com aquelas reprimendas, que nem sentiu-se ofendido. Retirou-se da presença da patroa e desceu rapidamente as escadarias, a fim de avisar o motorista que deveria preparar o carro o mais rápido possível.
No quarto, madame ainda permanecera, o olhar escapando pela janela aberta, perdido em direção ao nada. Sempre soubera que aquele momento chegaria. Há cerca de um ano vivera situação semelhante. Mas naquela oportunidade cedera aos argumentos que normalmente convencem as pessoas civilizadas a resistir com bravura e alguma dignidade, as loucuras da vida por vezes necessárias. Pesou a honra, o nome, o dinheiro, as aparências. Mas agora não. Tudo isso se esvazia de valor, eram apenas palavras ocas, sem vida e comuns na boca de pessoas inocentes e imbuídas de boa-fé.

Estava a deixar aquela casa, sem saber ao certo para onde iria. Talvez um hotel, retirado do centro da cidade. Um lugar discreto onde não poderia ser facilmente reconhecida. E melhor seria se o local, além de discreto, fosse bom e barato. De repente, essas coisas tidas como tolices até bem pouco tempo, haviam adquirido uma tremenda importância. Afinal, saía vez por todas daquela casa, nas mesmíssimas condições em que entrara, ou seja, desprovida de recursos, a palavra elegante quando pessoas educadas evitam mencionar dinheiro.
Madame continuava olhando para o nada, através da janela. Sentia inevitavelmente um vazio, um sentimento de ausência que poderia perfeitamente ser tomado como agonia, que, noutras oportunidades, já teria lhe provocado tremor, náusea e palpitação. Mas agora, de fato, tudo que sentia era um vazio, imenso e inofensivo.
“Decisões devem ser tomadas – dizia-lhe o pai, quando ainda bem jovenzinha – ou a vida não se modifica”. Nunca recorrera tanto a esse oportuno ensinamento do pai, como naqueles últimos dias.
“Decisões acarretam consequências – dizia-lhe o marido, que estava prestes a deixar – E você, querida, certamente não está, porque nunca esteve, preparada para lidar com elas”.
Não estava mesmo. Mas, naquele momento, isso era o de menor importância. Importante, era deixar nascer, enfim, das entranhas da sua alma oprimida, a esperança de que ao sair daquela casa, e abandonar aquela vida, pudesse ser feliz.
A noite já cobria o céu com seu manto negro, quando começara a chover. Fechou as janelas antes de deixar o quarto. Lá embaixo, seus pertences, poucos, eram colocados no porta-malas do carro pelo sempre atencioso e eficiente motorista. Os criados haviam abdicado da oportunidade de se despedirem dela. Na verdade, estavam era muito satisfeitos por se verem livres da patroa.
Ela entrou no carro, e antes que este se colocasse em movimento fechou os olhos e os manteve assim por algum tempo. Um tempo em que sua respiração permaneceu em suspensa e a vida, em silêncio, ganhara contornos de eternidade. Pode sentir com alívio uma lufada de vento que entrara pela janela da porta de trás do automóvel, como que acarinhando-lhe o rosto. O carro agora seguia lentamente no rumo do portão e ela sorria satisfeita porque era a última vez que o atrito dos cascalhos com os pneus iria irritá-la. E antes que o automóvel passasse finalmente pelo grande portão e ganhasse a rua, ela arriscou um olhar para trás, como que a saudar a sua vitória. Mas então nesse instante, viu a silhueta de um homem já se confundindo com a penumbra da noite, apoiado numa bengala, enquanto segurava uma garrafa com a outra mão. Por um instante, ela pensou que iria ceder novamente, fez menção para que o motorista parasse o carro. Mas a sua vontade de ser feliz, enfim prevalecera.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 08/2/2019, à pág. 2.