Toda vez que se fala em poetas portugueses os primeiros
que vem à memória são Camões e Pessoa. E nada mais natural que seja assim.
Ambos povoam o imaginário daqueles que buscam o encantamento das palavras que a
última flor do lácio proporciona. Mas, aqui irei cometer uma ousadia. Esqueçam
ao menos enquanto durar a leitura desse artigo os já citados. E derramem-se de
curiosidade por Herberto Hélder, Raul de Carvalho e Al Berto. Já ouviste, falar
desses gajos, querido e desatento leitor? Comecemos então, pelo último.
Al Berto. Nascido em Coimbra, em 1948, formou-se em Artes
Visuais, em Bruxelas, imaginando talvez, que passaria a vida toda a dedicar-se
à pintura. Mas já em 1971, resolveu entregar-se exclusivamente à escrita. Dali
por diante, viveu com hippies, e há quem diga que, nesse período descolado da
vida, sua maior proeza fora ser pai de uma rapariga. De volta à Portugal
estreia na literatura, 3 anos depois, com o livro À Procura do Vento num Jardim
d’Agosto. A antologia O Medo, publicada em 1987, é para muitos, seu legado
definitivo à posteridade. Al Berto escreveu poesia, prosa e também peças para
teatro. Morreu em 1997, aos 49 anos. Exatamente a minha idade. Paro por aqui. Detesto
coincidências. E entre Al Berto e eu, elas encerram aqui. Assim espero. E o
convido, estimado leitor, a aventurar-se na poesia do homem que escreveu: “Há
de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida”. Será mesmo? Para isto também
serve a poesia, para além do encantamento. Serve para provocar as mais
estúpidas e sinceras questões. Serve para fazer amar. Ou odiar. Serve?
Raul de Carvalho. Antes de mais nada, faço um convite ao
leitor que nos dá a honra de sua atenção. Procure no site de vídeos Youtube, o
vídeo poema Serenidade és Minha,
feche os olhos, e deixe-se por 12 minutos, envolver-se pelos versos fortes, por
vezes cruel e desesperado do poeta. A música de fundo que tanto quanto os
versos nos levam a um outro estado de consciência. Palavras fortes, bem
colocadas, que revelam a aspiração de uma alma sedenta de esperança. Palavras
que na voz do ator Mario Viegas, ganham uma dimensão tão próxima da verdade. A
verdade que perturba, maltrata, indigna. Sei, deveria recomendar-lhe caro leitor,
a leitura do poema com o livro em mãos. Mas, onde o livro? Você teria de procurá-lo
n’alguma instante empoeirada de um fã inveterado do fino trato das palavras,
espécie em extinção. Poupo-lhe tempo. Apresento-lhe o rastro, através do poema,
do caminho fascinante que o levará, se desejar, até a obra bela e instigante de
Raul de Carvalho.
Finalmente, rendo-me, genuflexo, em reverência. Olhos
baixos, coração apertado, acelerado, rendo-me ao mestre; declino de meu orgulho
tolo, minha ingênua pretensão de escrever versos, rimados, sem rima, versos,
quaisquer que sejam. Porque d’outra forma não poderia ser, diante da presença
metafísica e constante de Herberto Hélder, e tem sido assim, desde que o
conheci. Sim, porque creio mesmo tê-lo conhecido no poema “Bate-me à porta, em
mim”
É algo impactante o poema, como um soco certeiro no
fígado, que faz em suspenso a respiração, e faz saltar igualmente a órbita dos
olhos, espantados, porque o espírito estarrecido, o meu – e talvez o seu, um
dia, caro leitor – não sabe o que fazer para expressar num amálgama de carnes e
ossos, tudo o que sente, diante do poema. “Eu diria que sangra uma parte
secreta do meu corpo, diante do poema” Sim, é mesmo isto. E será sempre, porque
“essa criança dorme sobre os meus lagos de treva”. Só então, eu compreendi. E
foi por um instante. E nunca mais se repetiu. Como as loucas verdades da vida
que nos surgem, quando estamos distraídos, a mente indefesa, o coração
desarmado. E, portanto, em sintonia.
Eh, minha vida. “Cada vez a minha vida é mais hermética”.
Não sei se compreendes, caro leitor. Não sei se compreendes que os martelos
velozes dão o tom da melodia rítmica do meu espírito sem esperança. Mas, cabe a
pergunta: Você sabe, leitor, quando o
poema fala ao seu coração, retrata a parte mais escondida, mais doída, mais
envergonhada e, portanto, subtraída da sua vida? Já viveste isso? Pois fora
isso o que causara-me este poema de Herberto. Porque talvez, antes de mim, ele
soubesse que “a minha boca, lá embaixo, está coberta de fogo”. Escuta.
