sexta-feira, 26 de outubro de 2018

DEPENDE NÓS


Em pouco tempo não haverá mais dinheiro físico, isso significa que milhares de pessoas, que não tem acesso às tecnologias digitais e outras que não dominam o seu uso, serão colocadas à margem da sociedade, estarão absolutamente fora do sistema, o que se constituirá o mais novo genocídio da humanidade.
O mundo é grande para a quantidade de pessoas que nele habitam, mas parece cada vez mais o contrário, porque há muitas pessoas concentradas em poucos espaços, isso torna cada vez maior a competição por moradia, transporte, trabalho, estudo e alimento. E essa luta insana, somada aos maus hábitos, comprometem desnecessariamente a saúde de milhares de pessoas.

Sistemas econômicos, seja capitalismo ou socialismo ou regimes políticos, seja democracia ou ditadura, isso tudo nada mais são do que meios de controle social por parte daqueles poucos que detém 80% da riqueza existente no mundo, ou seja, são, os que, de fato, mandam no mundo. Decidem o que fazer, quando, onde, como e através de quem. E decidem também o que não fazer.
Nenhum homem isoladamente, nenhum partido político, nenhuma religião irá, jamais, resolver os problemas da humanidade, como por exemplo, a fome, a miséria, a intolerância, a desigualdade social, a concentração de riquezas, os privilégios da classe política à custa do abandono e da miséria à qual são relegadas milhares de pessoas sem nenhuma possibilidade de defesa. Problemas esses que, de algum modo, afetam a todos, na medida que são um dos fatores que geram a violência urbana que ceifa vidas e assola a esperança e a oportunidade de muitos.
Esses problemas, apenas serão resolvidos, quando a maioria de nós se conscientizar de sua breve passagem neste mundo, da inutilidade de se viver aqui como se aqui fosse viver para sempre, de que países, estados e até mesmo cidades são falsas demarcações geográficas que nos dividem ao invés de nos unir, de que se nos ajudássemos uns aos outros, cada qual dispondo de seus recursos intelectuais, físicos e morais, ao invés de nos disputarmos entre nós por espaços, posições e coisas, as misérias do mundo seriam bem menores e de mais fácil solução.
Quando, enfim, soubermos nos colocarmos na condição do outro, antes de acusá-lo e agredi-lo, quando nos dispormos a construir ao invés de destruir relacionamentos, de somar ao invés de subtrair benefícios possíveis, de trocarmos ao invés de comprarmos e vendermos, consciências e experiências, respeitando evidentemente o direito de escolha de cada um, quando os governos pararem de amontoar os fracos de caráter, com tendências irresistíveis à maldade, em depósitos de seres humanos e se dispor a educá-los para a vida, para o convívio social, curando-os assim, das suas mazelas do corpo e da alma, quando os que mais possuem dividirem aquilo que talvez jamais utilizarão com aqueles que, de fato, nada possuem, quando trocarmos o olhar de ódio que acirra os nossos ânimos pelo olhar de ternura, aí sim, quando um abraço e um sorriso e o diálogo racional e educado, substituírem um tiro, uma facada, um soco e uma ofensa, poderemos nos chamarmos de irmãos.
Então, você que agora lê estas linhas, já parou pra pensar quem e o que há por trás de um candidato a presidente da república, seja ele o que posa de herói ou o seja ele o pau mandado?
Nem ele e nem o partido político dele, nem o grupo econômico que ele representa e do qual é apenas um empregadinho a cumprir ordens, não irão solucionar os nossos problemas.
Temos visto isso ao longo do tempo, mas estamos fortemente atados à ilusão que nos faz crer e esperar pelo herói libertador, seja qual for, que não virá, jamais.
Tudo o que é necessário fazer para tornar o mundo melhor, cabe a cada um de nós fazermos. E podemos fazer desde que arranquemos de nossos corações o orgulho e o egoísmo.
Perdoe-me arrancá-lo da sua tola ilusão, caro leitor, que um dia, também foi a minha. Mas é necessário. Tenha um ótima sexta-feira, receba o meu abraço.

*Texto publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 26/10/2018, página 2.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

PÁ-BUF!


Há 30 anos atrás, pouco mais pouco menos, também não havia dinheiro pra nada, e as pessoas igualmente se matavam umas às outras e a si mesmas. Tudo era proibido legalmente e, por isso mesmo, tinha valor, poder de atração, e fazia algum sentido. Sonhava-se com coisas impossíveis, alimentava-se esperanças inúteis, tanto quanto agora, mas havia a expectativa do inesperado, do desconhecido, à espreita, pronto para aparecer triunfante e reluzente, a qualquer momento.

Hoje, todos veem tudo e sabem de tudo; tudo às claras, a descoberto, tudo ao alcance de todos, todos ao alcance de tudo e de todos; tudo banal, superficial, descartável, volátil, sem valor, sem graça, sem conteúdo. Nós, inclusive. Por mais que estejamos convencidos do contrário. Basta, entretanto, uma olhada no espelho ou para dentro de nós mesmos. Se é que ainda haveremos de encontrar algo ali dentro.
As novidades surgem, nem se sabe de onde, nem por quem. Ninguém aparece para nos contar como foi. Nem amigo, nem vizinho, nem irmão, nem o cumplice mais próximo das ousadias inconfessáveis da vida. Hoje, as coisas surgem simplesmente, como que do nada, assim, pá-buf. Quando se vê, eis a coisa entre nós, funcionando a pleno vapor, ocupando espaço indevido em nossas vidas sem pedir licença. Tudo muito bem feitinho, atraente, colorido, bem resolvido. As coisas, as pessoas não.
Mas, pra tudo há resposta. Sempre há um acadêmico a postos para elucidar as questões intrínsecas da existência humana. E estabelecer verdades, as dele. Estão na teve, jornais, rádios, internet. E nos poupam dos por quês da vida. Afinal, estamos ocupados em emitir e retransmitir mensagens, geralmente tolas e inúteis. Então, para que, os por quês da vida, se há quem pense por nós. E gostamos disso. Nos sentimos aliviados, livres, leves e soltos.
Contudo, há um céu sobre nossas cabeças, mas parece que já nos esquecemos disso. Há olhares que bem poderiam estar à procura dos nossos, se tivéssemos olhos para eles. Mas não temos, porque nos falta tempo e, a bem da verdade, interesse. Nos satisfazemos com nós mesmos. E isso não é exceção, é regra.
Há 30 anos atrás, eu tinha 19 anos, pouco mais pouco menos, e talvez isso explique, um pouco, o porquê dessas linhas. Detesto o passado, não tolero recordar pessoas, lugares, coisas e acontecimentos. O lugar ideal do passado é um cemitério chamado esquecimento. Não caio na cilada de que ontem era melhor que hoje. Porque não era. O fato é que ontem... ontem significava alguma coisa, um estado de expectativa; havia alguma coisa pela qual sonhar, lutar e, esperar talvez. Hoje, não. Hoje, tudo se repete indefinidamente, conforme um padrão previamente estabelecido pelos gênios da humanidade contemporânea. Já quase não há espaço para o tão agradável fator surpresa. Busca-se reduzir a quase zero os erros e minimizar ao máximo as suas consequências. Mas os erros, se bem compreendidos, são tão excitantes quanto os acertos, e fazem parte do aprendizado, e servem de estímulo, empurrão para que nos atiremos ao passo seguinte da vida e façamos novas descobertas e encontremos novos caminhos. Do modo como tudo está, não é difícil perceber que estamos em uma prisão a céu aberto, cumprindo pena em regime mental fechado. Somos instados a ser do modo como nos determinam e a fazer o que se espera, na verdade se exige, que façamos.
E alguns doidos, entre nós, se imaginam viver em um estado de liberdade plena. Como diria o Claiton: ‘Coitadinhos!’

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CRIANÇA FELIZ


Nada mais bonito que o sorriso de uma criança. Nada mais gratificante que fazer uma criança sorrir. A criança feliz é a plena realização do bem, do amor e da boa vontade. Toda criança merece e precisa ser feliz, ela tem esse direito.

O mundo precisa que seja assim. Porque uma criança feliz, muito provavelmente será um adulto feliz, saberá lidar com as adversidades, tomá-las como oportunidade de aprendizado para o seu progresso humano e espiritual.
Quando se vê um adulto a trilhar o caminho da maldade, é quase certo, que ele não teve uma infância feliz. Algo de muito importante lhe faltou, seja a presença, o amor, o carinho, a proteção dos pais, seja a oportunidade de brincar, estudar, conhecer e aprender o que é bom.
Onde o bem se ausenta o mal se instala. A sociedade humana, capaz de tanto progresso intelectual já deveria ter tomado ciência disso. Leis existem para proteger as crianças. Mas é preciso praticá-las com toda a efetividade.
Estimuladas precocemente às práticas adultas, algumas perniciosas, a criança é inserida em situações com as quais não saberá lidar, como, por exemplo, a pornografia, e os efeitos nefastos e devastadores à sua personalidade se manifestarão já na juventude.
É muito triste ver crianças empunhando armas, roubando, matando, vendendo drogas. A essas crianças, via de regra, faltou o amor, o carinho, a proteção dos pais e da sociedade que faz vistas grossas e dos governantes, que empurram o problema com a barriga. A felicidade para uma criança é ter família, é ser bem alimentada, bem vestida, é frequentar boas escolas, é poder brincar e sorrir.
Que os governos sejam relapsos, que as autoridades sejam omissas, é compreensível embora não seja tolerável, mas tudo isso faz parte do mundo de provas e reparações onde vivemos. O que não pode é que pais e mães não reconheçam a importância fundamental deles próprios na vida daqueles seres humanos, ainda pequenos, frágeis e indefesos e necessitados de cuidados os mais diversos, que acolheram como filhos.
A mãe que deixa o filho sozinho em casa pra se divertir com as amigas, nos finais de semana à noite, fique ciente que ela está perdendo o amor de seu filho pelo qual, um dia irá implorar de joelhos. O pai que surra, muitas vezes sem motivo, que não dá a devida atenção, que não encontra tempo para se dedicar àquele pequeno ser tão carente, que nele procura encontrar uma referência segura na vida, fique sabendo que está perdendo a oportunidade única de dar e receber amor.
Um dia, quando verem seus filhos, já adultos e crescidos, matarem, roubarem, traírem, corromperem, traficarem drogas e armas, esses pais e essas mães se arrependerão. Mas talvez seja tarde. E terão de conviver com o remorso e o arrependimento.
Toda criança precisa de amor, cuidado, atenção e educação. Enquanto a sociedade humana não entender isso e não estabelecer isso como prioridade, estará enxugando gelo na sua vã tentativa por uma sociedade mais digna, mais justa e mais feliz.
A criança que conhece o amor hoje saberá compartilhá-lo amanhã. E o amor é o remédio e a solução mais eficaz para todos os males da vida.
*Texto publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 12/10/2018, à pág. 2.