Há um momento inevitável por vir
Algo que se evita, se esconde
Mas permanece à espreita
À espera que se pergunte
Com alguma honestidade
Por que insistir
Um momento inevitável, tirano, em que
O peso sobre os ombros
Se tornará insuportável
O momento do vacilo
Da queda, do espanto
Como dois acordes interrompidos
O olhar parado,
Qualquer coisa em suspenso
Como a palavras que morreram
Sufocadas no seu desejo de se expressar
Como o sentimento abafado, louco, destemido
Sujeito à realidade, insano, algoz de si
O momento em que o sangue escorrerá pela neve
E se fará breve, percebido, então...
Nesse momento, único, todos virarão as costas
E o darão por vencido
O momento inevitável
Não se sabe qual, onde, quando
Mas, inevitável, vem
Para mostrar, sem reserva, sem pudor
Sem nenhuma decência
O que há debaixo dos pés
Quando os olhos arregalados,
Saltando pra fora, encontram o céu,
Um pedaço de céu
Ou então, pode ser, quem sabe, talvez, encontre
O chão batido, manchado
À espera do rosto, cansado, machucado, dos que deitam
E alcançam, aos poucos, indefesos
O abismo, inútil, denso, sem fim
A dor em suspenso
Que não cessa
Vento sul que vem, chega, arrasa, envolve
E tudo vai escurecendo
E desaparecendo
Mas a dor em suspenso, contínua, célere, indecente
E você sentindo-se só, permanece
Emudece, aos poucos
Permanece, solto, leve, calado, num canto qualquer
A espera do que jamais será
Por mais que deseje
Permanece
Enquanto o sol se põe e revela
À penumbra, a silhueta distante, mal formada, do que um dia foi
O teu reduto de esperança.