O Sr. Finnegans Wake tinha por hábito ler os jornais
enquanto apreciava o saboroso chá da tarde na varanda de sua bela mansão.
Também leio jornais. Mas esse hábito saudável adquiri de
meu pai, ele sim, um inveterado leitor daquilo que um dia alguém ousar chamar
de hebdomadário. Quem terá sido o infeliz?
Nos idos de 1970, duas coisas jamais faltaram na área lá
de casa: um Wolkswagen e os jornais: o Diário do Rio Claro (o jornal que tem
nome e sobrenome) e o Estadão.
Com o Diário, papai acompanhava o noticiário local, que
se completava ouvindo, todos nós, juntos à mesa, à hora do almoço, ao programa
Show do Meio Dia, do seu colega, também contabilista, Sergio Carnavele.
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E é bom que se diga, ouvíamos, entre os bifes e as saladas
de alface e tomate que a Dona Alzira, apresento-lhes a mamãe, caro leitor,
preparava com amor e carinho.
E antes que você me pergunte, caro leitor, sobre o outro
jornal, o Estadão, eu lhe respondo que através dele, papai tinha acesso a duas
outras coisas que ele considerava indispensável, o suplemento literário, que
saía aos domingos e os índices econômicos, porque papai naqueles dias, além das
atividades contábeis, do time de futebol de garotos do bairro, e da sagrada
tarefa de educar os filhos e ser um bom marido, também andava metido em criar
frangos.
Tinha uma granja, para onde íamos aos finais de semana.
Íamos, leia-se: mamãe e eu. E ficávamos pouco. Mamãe não era muito chegada aos
aromas nada agradáveis, o leitor há de convir, que os frangos e as galinhas
exalavam de seus orifícios.
Mas eu ia dizendo que adquiri de meu pai o hábito de ler
jornais. E costumo fazê-lo logo pela manhã, bem cedo, tomando aquele delicioso
café com adoçante, conforme recomenda a Dona Diabetes, não há de fato
felicidade plena neste mundo.
Então, lá pelos meus 26 anos de idade, recém casado,
resolvi arriscar uma promoção intelectual, passar de leitor a escritor. E para
minha surpresa fiz minha estreia grandiosa neste mesmo jornal Diário na finada
(Deus a tenha em bom lugar!) coluna “Escreve o Leitor”. Comentava, salvo
engano, sobre a penosa situação do meu querido Rubro-Verde, também conhecido
por Velo Clube.
Meu nome no jornal. Sabe, caro leitor, a gente, às vezes,
se sente meio besta, um tanto orgulhoso quando vê o nosso nome no jornal, que
não seja na sessão de protestos do cartório de notas.
Mas é algo passageiro, depois a gente se acostuma. Mas a
primeira vez é impactante, é como um soco no fígado. Ainda, quando neste mesmo
jornal, o papai, também nos idos dos anos 1970, se aventurava sob o pseudônimo
de Medeiros da Costa, ou coisa que o valha, submeter suas poesias ao crivo da competente
e rigorosa Dona Mara Jodate, que, habitualmente, recebia as colaborações com
generosidade e as publicava, algumas.
O mesmo jornal Diário, proporcionou-me outra forte
emoção, quando, fazendo pesquisas para um trabalho free lancer, no Arquivo
Público e Histórico do Município, deparei-me com o anúncio de uma peça teatral
da Cia. de Teatro Amador do Bairro da Saúde, e lá estava papai, integrando o
elenco, no papel do Promotor de Justiça. Imaginei papai, com terno preto,
cabelo e olhar à lá seu ídolo Humprey Bogart, atuando nos tribunais. Papai não
era fácil. Onde se metia, saía-se bem. Dele herdei o nome, nada mal, e o hábito
de ler jornais. De fato, não se pode ter tudo na vida.
Mas algo que nos dê prazer e algum ganho a vida sempre
nos proporciona, porque sabe bem o leitor, Deus é pai de todos. Por exemplo,
escrever artigos e crônicas como esta, para este jornal Diário, que, com grande
satisfação, vê-se revigorado, forte e atuante, continuando sua gigantesca e tão
importante missão de bem informar e ser o arquivo histórico da família
rioclarense.
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, à pág. 2, edição de 25/5/2018.



