É daquelas
coisas que a gente jamais esquece. A primeira vez que fui ao circo. Tinha
acredito eu uns 4 ou 5 anos de idade. Havíamos nos mudado não fazia muito
tempo para aquela casa no bairro São Judas Tadeu. Era uma tarde de
domingo, eu acho, então dona Alzira, minha mãe me botou pra tomar banho e
quando vi que sobre a cama ela colocava uma roupa minha, nova, bonita, fiquei
feliz, porque entendi que iríamos passear. Não seria para fazer compras, no
centro da cidade, o comércio estava fechado. Nem farmácia abria aos domingos,
em Rio Claro, naqueles dias. Onde iríamos, então? Casa da tia Landa? Ou da tia
Dinha?, as suas irmãs. Nada disso, iríamos ao circo. Circo? É, explicou dona
Alzira, aquele lugar grande bonito, cheio de bichos, que tem mágico, palhaços, pipoca,
refrigerante e algodão doce. Até a parte do refrigerante o assunto me
interessou. Nunca gostei de algodão doce, aquela coisa grudenta. Embora achasse
interessante vê-lo ser feito. E o cheirinho de açúcar queimado também não era
dos piores.
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| Foto reprodução |
Então fomos
para o circo, de carro. Papai, o Seu Geraldo, nos levou, naquele seu Fuscão 73,
branco, envocado, vidro fumê, cambio baixo, voltante Panter, rodas de tala
larga. Aquele que, segundo diz a lenda, o meu irmão, pegava às escondidas para
dar umas voltinhas no entorno do Batista Leme, obrigando a diretora da escola,
a dona Zuza, mandar recado para o meu pai, mais ou menos assim: “Seu Geraldo,
venha dar um jeito no seu filho”.
A vantagem de
você ser oito e 11 anos mais novo que seus irmãos, é que observando-os você
aprende as coisas e conhece algo do mundo mais cedo. O que fará com isso ao
longo de sua vida, bem, dependerá das escolhas que você fizer.
Mas, voltando
ao circo, a melhor parte da história. Tínhamos companhia naquele passeio.
Agradáveis companhias, a tia Dinha e os primos Decio e Maria Tereza.
Puxa, nos
divertimos! Fomos nas cadeiras, bem perto do picadeiro. De modo que tudo víamos
com outros olhos. Eu, principalmente. Tudo mesmo. Acho que do espétáculo não vi
quase nada, e se vi, não me lembro. Mas lembro sim que estávamos todos lá. As
coisas em volta sempre me chamaram mais atenção que os fatos em si. De modo que
naquela tarde prazerosa de domingo, meus olhos se perdiam a observar o público, a lona do circo, as luzes, a
cerragem sob nossos pés, os vendedores de tudo que é tipo de buginga, que eu me
lembro, e alguma, não sei exatamente qual, veio parar em minhas mãos. Acho que
um balãozinho. Mas não tenho certeza.
Quando
chegamos, e vi aquela coisa enorme, diferente de tudo o que eu já tinha visto
até então, instalado no terreno, onde, viria eu saber depois, fora o estádio do
Aguinha, rival do Velo, (ah, esse sim, o Velo!), fiquei extasiado. O que seria
aquilo? Um castelo? Não, era o circo Orlando Orfei, nada mais que sinônimo de
circo no Brasil.
O Seu Orlando
apresentava o espetáculo, vim a saber depois. Feito Ray Coniff, era uma espécie
de amigo querido dos brasileiros, apreciadores de um bom espetáculo. Era famoso
no mundo todo. Bom sujeito. Tais informações, eu as obtive de meu pai, na noite
daquele domingo, quando sentado em seu colo, contei-lhe como havia sido o
passeio, enquanto esperávamos pela zebrinha trazendo os resultados da Loteria
Esportiva, e os gols do Fantástico, com narração de Léo Batista. Bem, essa foi uma das poucas vezes que o Pipo
ensinou-me sobre alguma coisa sem fazer com que eu fosse até o dicionário. Nem
poderia, eu só tinha 4, 5 anos de idade, não me lembro ao certo, e sequer era
alfabetizado, embora, já rabiscasse sim umas letras, nos velhos cadernos de
escola de meus irmãos, nos cadernos de colorir que minha mãe fazia questão de
comprar. Sim, na minha modéstia, eu escrevia, eu acreditava nisso, era o que eu
sentia, ao preencher as páginas daqueles esquecidos cadernos, muitas vezes,
sentindo-me o dr. Carossi, quando ele preenchia suas receitas médicas, nas
minhas inúmeras visitas ao seu consultório. A gente quando criança é tudo meio
besta mesmo, a gente acredita em tudo, e acredita que pode ser tudo. E eu
acreditava que poderia ser médico. Domador de leões feito o Orlando Orfei,
jamais.
| Foto reprodução |
Nos dias em
que o mundo lamenta a estupidez de um dentista norte-americano que matara por
nada, um leão no Zimbabuê, também se despede daquele que durante anos
proporcionou encantamento à crianças e adultos com o seu circo. E há quem
encontre motivo para reclamar nas páginas dos jornais de quem leva alegria às
pessoas, às crianças principalmente. Mas aí já estamos falando de Rio Claro.
Tudo bem, antes do circo Moscou, o Orlando Orfei passou por aqui. Quem se lembra?
Eu me lembro. Numa tarde de domingo. Inesquecível. Os espetáculos artísticos,
quando apreciáveis, promovem essas lembranças imorredouras em nossas vidas.
