Se você se propõe a escrever
nunca se esqueça de colocar algumas folhas ao lado da máquina, porque tão longa
e cansativa possa ser a viagem que, elas, as incorruptíveis folhas, rasas,
profundas, brancas, coloridas, talvez saltem feito doidas da mesa para o carro
da máquina sem que você perceba e suas mãos sintam.
![]() |
| Reprodução |
Se escrever é de fato o que
você deseja, nunca se esqueça de alguns maços de cigarros, guardados
estrategicamente nas gavetas da mesa (recomendo a mais próxima possível das
mãos) e, algumas caixas de fósforos, é claro. Ou então, se você não é dado a
fumaça e muito menos ao cheiro quase sempre repugnante de uma erva tóxica sendo
queimada, sugiro balinhas de hortelã.
Não se esqueça da garrafa de
uísque (do bom, lógico! Mais ou menos não serve), ajuda a tornar as coisas mais
claras pra você isso fará toda a diferença durante o processo criativo,
proporcionando ao leitor o benefício incomparável da prazerosa leitora.
Mas se você não tem dinheiro o
bastante para uma cavalar dose de uísque, talvez duas ou três doses, sejamos
generosos à senhora inspiração, tudo bem, vale o chazinho da vovó que depois de
umas duzentas, trezentas laudas rabiscadas fará o mesmo efeito.
Café? Nada disso! Respeite a
sua saúde, café uma grande porcaria. Matou Balzac, e só serve para nos manter
acordado. Mas isso de modo algum representa façanha, porque o grilo também
serve. E também o gato intrometido da vizinha boazuda; que passa suas
noites fazendo orgias no telhado, da sua casa. Da minha, melhor dizendo.
Mas isso tudo, meu caro, se
você realmente – insisto – deseja escrever.
Ia me esquecendo de algo importante;
muito importante: Você deve ter alguém no coração. Alguém para amar ou para
odiar. Mas deve ter. E isso é algo precioso, raro, e tão difícil de ser
conseguido. Principalmente no que diz respeito à primeira alternativa.
Porque, de outro modo, será
impossível você justificar perante a sua megera consciência toda a fúria
indômita que o faz atacar as teclas da máquina enquanto você vê, sente, cheira,
respira e escreve.
Em geral, essa aventura é um
processo longo, enganoso, penoso, laborioso e destrutivo que lhe custará pelo
menos alguns anos de lucidez e aquela vidinha comum, amorfa, estática,
suficientemente simples e resolvida, aparentemente bela, coloquial, que a
maioria de nós, embora não confesse, deseja.
Porque meu amigo pense bem, se
o que você deseja é realmente escrever prepare-se para o pior. Porque você terá
de criar um mundo somente seu, com altos muros intransponíveis, e sua casa
mental se chamará solidão, seus dias, fracasso, até que você em algum instante
sentirá aquele gozo, prazer descomunal que geralmente vem acompanhado de
lágrimas silenciosas e risadas contidas, aquele instante único que você se
depara com a sua obra, a nascer, ganhar fôlego, gritar suplicante e submissa,
sublime.
E você, ausente de seu corpo,
como que pairando no espaço, acima de sua cabeça, ao lado de suas mãos que
continuam a atacar as teclas da máquina, você percebe, sente, cheira e respira
os acontecimentos, as emoções, o seu sangue em forma de suor a escorrer de sua
face, confundindo-se diante de seus olhos com a fumaça do cigarro. E vê... as
pessoas, as emoções, os objetos, os lugares e até os pensamentos alheios
transformaram-se em palavras. E você com um pouco de sorte então se sentirá
Deus, na medida em que você pode sê-lo; na exata medida: um poeta, um escritor.
