A luz do banheiro
permanecia acesa, como estivera a noite toda.
As moscas mantinham uma
trajetória de idas e vindas, da cozinha para o quintal e vice-versa, passando
desinibidas pela janela sobre a pia.
E era exatamente
através dessa fresta para o mundo lá fora que a existência podia ser observada
em suas doze horas de vida e suas doze horas de morte.
O cachorro, o único ser
naquela casa que parecia interagir com a realidade, ora deitava-se à soleira da
porta, ora, no sofá da sala, rasgado e sujo, de onde perdia alguns segundos da
sua preciosa ociosidade, a observar indiferente aos programas de televisão, mas
a se considerar o seu entusiasmo, ele certamente a desligaria, caso soubesse
utilizar o controle remoto, esquecido ao seu lado.
E no banheiro, o homem
olhava-se no espelho, tentando entender como foi que chegara àquela situação.
A sua cama desfeita, as
suas coisas: livros, roupas, calçados, objetos de uso pessoal, em sacolas de
plásticos, em caixas de papelão, das quais ele planejava dispor.
Os seus discos estavam
na prateleira que deixara ali mesmo, no corredor, desde o dia em que se mudara
para aquela casa.
Lembrava-se daquele dia
sempre que uma angústia sufocava-lhe o peito e subia até a garganta,
obrigando-o a fechar os olhos, como se no silêncio e na escuridão aquela vida
que se tornara maldita deixasse de existir.
Mas não era assim.
Jamais fora assim. Porque o sofrimento humano é algo que não se cura apenas com
vontade.
E nesse momento, antes
que essa dor o conduzisse à lembrança da morte da esposa, apenas dois dias
depois que se mudara para aquela casa, o alarme do seu carro, esquecido na
garagem disparou.
E aquela repetição
infernal de som, o fez levar as mãos à cabeça e o colocou para fora do
banheiro.
Quando o viu surgir na
sala, o cachorro saltou do sofá e veio ao seu encontro. Mas como sempre, o dono
preferiu ignorá-lo, e sentou-se no sofá, por sua vez, olhos voltados para a
tevê, sem prestar atenção, todavia, no programa que era transmitido naquele
momento.
Na camisa que o homem
vestia faltavam dois ou três botões, mas isso parecia não incomodá-lo. A barba
de uma semana sujava o seu rosto, evidenciava suas rugas, aumentava a sua
idade, a tristeza do seu olhar, mas isso também parecia não incomodá-lo.
Nada, enfim, parecia
incomodá-lo. A não ser o tempo e o seu próprio respirar do qual ele não
conseguia desviar a atenção.
Não saberia precisar
quantos dias que não colocava os pés para fora de casa, que não via outro
pedaço de céu, além daquele que podia observar da janela da cozinha todas as
manhãs, quando os primeiros raios de sol estouravam em seu rosto cansado, num
esforço quase inútil para despertá-lo do torpor, da indiferença na qual se via
envolvido ininterruptamente, para trazê-lo de volta do mundo das sombras onde
escolhera viver.
Houve dias em que se
preocupara com o modo como contaria ao filho distante que a mãe houvera
falecido. Mas isso agora já não era motivo de preocupação, porque a distância,
a falta de contato e notícias, a indiferença do filho para com ele haviam
acabado por convencê-lo de que antes da mãe, estava ele próprio morto para o
filho.
E não poderia culpá-lo
por isso. Não poderia acusá-lo de nada, porque o filho jamais experimentara de
fato, a fascinante experiência do que era ter um pai.
Mas aquele homem condoído
em seu remorso, também não poderia se culpar. Não. Dera ao filho o que de seu
pai recebera. Não conhecia as coisas de outra forma. Eis o motivo pelo qual
jamais se dispusera ao diálogo porque não sabia como iniciá-lo, jamais tomara a
iniciativa de expressar um gesto de carinho e atenção para com o filho agora
distante.
Homens são fortes, homens
não se dobram. Homens não choram. Homens suportam calados a solidão e a derrota.
Homens não admitem dúvidas, erros, fraquezas, sentimentos. Seu pai lhe ensinara
tudo isso. E ele acreditara fosse mesmo tudo verdade, e só tivera o trabalho de
transmitir ao filho esses mesmos valores.
Aos 54 anos ele
descobrira que tais valores não resistem à realidade da vida humana. Entendera com dor no
coração e lágrimas nos olhos que a única maneira de se conhecer a si mesmo é
quando a vida chama à derrota, coloca no chão, aniquila, de modo que ao olhar
em redor, nada se encontra, e esse é o momento em que a única rota de fuga é em
direção a si mesmo. E é quando se descobre o que se de fato é. E isso quase
sempre decepciona terrivelmente, produz na boca um fel amargo demais,
impossível de solver, uma dor no peito, irresistível, que põe de joelhos, fecha
os olhos e faz suplicar por misericórdia.
E esta era uma
experiência que aquele homem viúvo, derrotado no amor, fracassado nos negócios
experimentava em toda a sua intensidade quase todos os dias, principalmente
pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertavam para a realidade
solitária, deprimente, angustiante, amorfa, que era sua vida. O tirava da
cadeira em que passara a noite, sentado, dormindo e acordando tantas vezes que
mal podia precisar quantas. E com grande esforço se submetia à necessidade de
ir ao banheiro, encarar o espelho, lavar as mãos, o rosto que algumas vezes lhe
custava acreditar que lhe pertencesse. E recomeçar a rotina de mais um dia.
Aguardando o telefonema do filho distante, a carta da empresa atendendo ao seu
humilhante pedido por readmissão.
Não. Já não eram
sonhos, porque estes só fazem sentido quando nascem da esperança, algo que
aquele homem jamais experimentara, desconhecia simplesmente, porque em toda a
sua vida tivera a certeza de que apenas se obtém vitórias por merecimento.
Então ele ligou o seu
aparelho de som e colocou seu disco favorito para tocar. Já eram 6 da tarde. E
ouvindo aquelas músicas, o homem voltava a viver, porque se esquecia de si
mesmo.
Lá fora, no terreno em
frente sua casa, o vento balançava com ternura os galhos da velha e enorme
paineira. Mas esta cena bucólica escapava aos olhos do homem.
FIM.
*Publicado na edição No. 114, Agosto/2013, do Jornal Aquarius.
*Publicado na edição No. 114, Agosto/2013, do Jornal Aquarius.





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